Na Grande Área (Paulo Cesar Vasconcellos - interino)
No dicionário de Romário não constam palavras como chutão, canelada, violência, pontapé, cera. Dentro de campo, os vocábulos preferidos são drible, arrancada, malícia, efeito, toque, sutileza, gols. A vida inteira sempre foi assim e quando a aposentadoria chegar não será diferente. Além de ser o primeiro escolhido no par ou ímpar, certamente levará para o campo daquela pelada de final de semana a mesma genialidade que mostrou com a camisa do Vasco (a origem), PSV (o aprendizado), Barcelona (a consagração), Valencia (a preguiça), Flamengo (o vai e vem) e Seleção Brasileira (a unanimidade). Talento não falta a um jogador que flerta com o 1,70m de altura e ganha de zagueiros com tamanho de pivô na área adversária. Não vê-lo em campo frustra o torcedor. Logo na primeira rodada do Campeonato Brasileiro, que começou ontem com Vasco x Corinthians, é pior ainda. Tudo porque no caminho de Romário existe um rival cada vez mais difícil de superar: o problema muscular.
As dores na panturrilha (que as ruas chamam de batata da perna) vão e voltam com a mesma assiduidade que Romário colocava as bolas dentro do gol. Tudo começou naquela tarde de maio em Friburgo. Era o homem errado no lugar errado. Daquele 5 de maio até hoje, o que mais Romário fez foi pedalar. Na véspera do seu corte, quando ao lado de Dunga concedeu uma entrevista coletiva no Chateau de Grande Romaine, enquanto o time se preparava para o amistoso com o Atletico de Bilbao, ele dizia que já estava pronto para disputar a Volta da França de tanto que já tinha pedalado. Era um jogador alegre e confiante. Apostava no seu currículo e acreditava que mais cedo ou mais tarde estaria em campo com a camisa 11 que o mundo aprendeu a admirar por causa dele.
Numa manhã chuvosa e fria - o que era comum - do circuito Lésigny-Ozoir-Portault Combault-Bussy Saint George, Romário soube que não habitaria mais um dos quartos do Chateau de Grande Romaine. Teve choro, preocupação e um comentário feito por Zico, coordenador técnico da Seleção, que o tempo se encarrega de atualizar. Problema na panturrilha é a pior coisa que um jogador pode ter, disse o craque, recordando o drama que ele e outros viveram.
Na hora, as palavras de Zico não receberam a atenção devida. Havia uma preocupação muito maior com o estado do atacante que já foi o melhor jogador do mundo. Daquela manhã do corte, no início de junho, até hoje, quando o Flamengo estréia no Brasileiro enfrentando o Botafogo no Maracanã, muita bicicleta, alongamento, piscina e outros exercícios passaram pela vida de Romário. A fisionomia sempre descontraída não é mais tão comum assim nas fotos. Existe um ar de preocupação e uma pergunta, às vezes com a velocidade de um carro de Fórmula 1 e outras de uma caminhonete de frete, passa pela cabeça do atacante: será que não está na hora de parar? Por enquanto é idéia que o olhar otimista de quem sempre conseguiu se impor na base da luta não deixa germinar. Mas assim como o tenor percebe que o agudo não é mais tão cristalino, Romário sente que o tempo resolveu chamá-lo para um duelo. O obriga a fazer mais esforço do que o normal; determina que a passada pelo Departamento Médico seja obrigatória; impõe que sempre faça alongamentos e tenha conversas com o fisioterapeuta.
Resta saber até quando um homem que ao olhar para trás pode bater nos pés e dizer eu venci, vai ter paciência para suportar perguntas do tipo quando você volta; frases como é melhor esperar mais uma semana e olhar o placar eletrônico dos estádios sem o seu nome. Será que vale a pena?
Cabeça de cartola





