Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de setembro de 1998
Armando Nogueira A corrida romântica 
Ronaldo da Costa não deu por menos: venceu a Maratona de Berlim, bateu o recorde mundial e ainda arrematou a prova com duas cambalhotas e um contrapé de mestre-sala. A vitória, intacta, Ronaldo dedicou a Lucília, a musa e namorada que mora em São João Nepomuceno, cidade vizinha de Descoberto, onde nasceu Ronaldo. Em tempo: São João Nepomuceno é a terra de outro herói do esporte brasileiro: Heleno de Freitas. Haja praça pra tanta estátua.
O atletismo tem dezenas de provas, mas míticas, mesmo, só duas: a maratona e os 100 metros rasos. Exaltam o homem mais veloz e o mais resistente. Embora a corrida de 100 metros seja milênios mais antiga, a maratona é bem mais romântica. Tem 102 anos, mas nenhuma prova lhe chega aos pés em dimensão humana. Tem mil histórias: comédias, dramas, tragédias. Gente que morreu de exaustão. É o caso do português Francisco Lázaro, na Olimpíada de Estocolmo, em 1912. Teve um colapso no meio da corrida, desmaiou e foi dar o derradeiro suspiro num hospital sueco.
Nos Jogos de Paris, em 1904, venceu a maratona um francês chamado Michel Theato. Descobriram, depois, que o cara tinha encurtado a prova, pegando atalhos nas ruas desencontradas de Paris. Conhecia a cidade como a palma da mão. Era entregador de pão.
Quatro anos depois, em Londres, o italiano Dorando Pietri cruzava a linha de chegada, pendurado nos ombros de dois árbitros. Pietri desmaiara três vezes, já dentro do estádio. Como os ingleses não queriam ver no pódio o americano Hayes, que chegava inteiro, resolveram apelar: carregaram o italiano na marra e o proclamaram vencedor da prova.
Pietri ganharia a medalha de ouro e uma canção composta pra ele pelo então jovem compositor Irving Berlin. Outro brincalhão, um certo Hicks, venceu a maratona de 1904, em St. Louis (EUA). Na hora da premiação, um motorista de caminhão entrou no estádio a tempo de entregar o malandro: a 25 quilômetros da chegada, Hicks teve uma cãimbra na perna, pegou uma carona no caminhão dele e saltou na porta do estádio.
A corrida inspira-se na lenda de um soldado ateniense de nome Pheidippides acontecida no ano 449 a.C.. O homem teria corrido, sem parar, 42 quilômetros, pra avisar ao povo de Atenas que o exército grego tinha derrotado os persas na batalha de Maratona: Alegria, vencemos! - gritou o soldado à entrada da cidade. Pra reforçar a aura de epopéia, dada a notícia da vitória, Pheidippides caiu morto.
É uma beleza pro esporte do Brasil que, pelos pés infatigáveis de Ronaldo Costa, a saga da maratona, agora, passa obrigatoriamente por duas cidades mineiras: Descoberto e São João Nepomuceno.
À gazela, com saudades
Há dez anos, nos Jogos Olímpicos de Seul, despontava na raia três a figura de Florence Griffith Joyner. Escrevi, então, a crônica que, agora, reproduzo, na saudade que a morte dela nos causou. Cem metros rasos, em Seul. Empina-se, graciosa, na raia três, uma gazela que tem nome de moça. Estou sentado a dez passos dela, aqui no Estádio Olímpico. Chama-se Florence. Além de bonita, é simpática; além de simpática, é saudável; e, além de tudo, mulher.
Florence corre de brincos, lábios pintados, tem uma corrente de ouro enfeitando o tornozelo e as unhas das mãos salpicadas de pontinhos coloridos. Uma extravagância que me faz pensar: será que no lugar de uma atleta os americanos mandaram para a Olimpíada uma artista de Hollywood, anos cinquenta?
Mesmo assim, ou talvez por isso mesmo, torço pelo triunfo da gazela. Ressoa o tiro de partida. Oito moças disparam, todas de uma vez, num súbito vôo de garças assustadas. Em dois segundos, Florence abre um corpo luz (e que corpo!) As outras correm, Florence flui. Ela é estátua que se desloca, veloz como o próprio vento. Seta de sedução, transpassando o tempo e as rivais. O clarão da malha vermelha tinge o céu com o esplendor da moça em cujos passos rebrilham os negros músculos da raça fresca. Ela chega primeiro. Chega sorrindo. É a mulher mais rápida do mundo. Perdão se te embaraço, Florence, mas pra que tanta pressa se a tua meta não é o coração deste pobre marquês?
Rápidas e rasteiras
- Que a seleção comece um novo tempo, entrando em campo com o pé direito de Marcelinho e com o esquerdo de Denilson. Amigos: olhar a meia-cancha e só ver gente que joga o fino; sinceramente, é um alívio.
- O São Paulo sai da goleada de 7 a 2 com originalidade: por que mandar embora o técnico se todo mundo viu que a defesa do time assistia, imóvel, à festança que fazia em sua área o time da Portuguesa? Jogador omisso tem que ser punido. Chega de paternalismos.
- Estou cansado de saber que o firmamento do futebol, volta e meia, registra a efêmera passagem de um cometa. Ainda assim, não posso deixar de falar com alegria desse garoto Eduardo Marques, do Santos. Que bela esperança de craque! - Paula e Karina: dois prodígios da vitória do BCN, no mundial de clubes de basquete. Que espetáculo perde o campeonato paulista só porque o ranking não permite que joguem juntas duas estrelas de mesma cintilação.
- Jogador de futebol não sabe o que é cerimônia: Ricardo Lopes, da Portuguesa, festejou, efusivamente, o gol que fez sem querer no São Paulo. Na linha central, ao disputar uma dividida, o rapaz deu um bico tipo seja-o-que-Deus-quiser. A bola saiu pelo alto e foi acabar nas redes do São Paulo. Exemplo perfeito de gol que nasce de um mal-entendido entre cabeça e pé. A cabeça mandou fazer uma coisa; o pé, no embalo, fez outra. Esse foi o verdadeiro gol sem pé, nem cabeça.
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