Passei anos sofrendo com o futebol. Quem não passou? O jogo andava insuportável. Eram os tempos funestos da retranca. O time que metesse o primeiro gol ganhava a partida, infalivelmente. A crítica complacente, pra variar, punha nas nuvens o técnico, artífice da obra irretocável. Vivíamos, então, o reino do futebol de resultados que nos daria pérolas como o cabeça-de-área, a pegada, o matar-a-jogada, expressões todas elas cunhadas pela mediocridade dos treinadores. Os generais da banda.
Já é hora de celebrar o novo tempo do futebol. Quem não se lembra da palavra virada? Aparecia, com frequência, tanto na boca da torcida quanto na manchete esportiva dos jornais. Um time fazia dois a zero e, nem assim, o jogo estava liquidado. Podia perfeitamente sobrevir uma reviravolta. O perdedor circunstancial dava a volta por cima e acabava vencendo a partida.
É o que começa a acontecer, agora. No campeonato-98, já houve 14 vitórias de virada. Tipo: Botafogo, 2 a zero, no 1º tempo. Final: Portuguesa, 5 a 2. O Palmeiras mete dois a zero no Guarani. Final: Guarani, 3 a 2. O jogo Flamengo x Portuguesa virou duas vezes: 1 a 0 Portuguesa, 2 a 1 Flamengo e 3 a 2 Portuguesa. O Santos apanhava de 4 a 1 do Atlético Mineiro e o jogo terminou 4 a 4. Quinta-feira, mesmo, houve duas viradas de placar no jogo do Flamengo com o Cerro, do Paraguai.
A idéia de recompensar a vitória com três pontos tem a ver com essa história. O empate, que era meio caminho entre vitória e derrota, agora, é vizinho próximo da derrota. Há, ainda, fatores positivos como o fim da cera do goleiro, a rápida reposição da bola e o acréscimo de tempo pra compensar as paradas por contusão e substituição.
É claro que o futebol está longe do ideal. A arbitragem ainda está na era da pedra lascada. É de um amadorismo desconcertante. Por sua vez, o clube, cheio de paternalistas, adora contemporizar com o jogador que comete indisciplina. O técnico responsável nunca tem respaldo quando ameaça enquadrar um jogador expulso por motivos pueris. Sempre aparece um cartola que passa a mão na cabeça do indisciplinado.
Ainda assim, é inegável que a virada está devolvendo ao futebol o charme e o mistério da incerteza do esporte.
Pênalti, com doçura...
Marcelinho bate um pênalti, a galera bate boca: Marcelinho abusou! Marcelinho arrasou! O estilo de Marcelinho, ao cobrar o pênalti contra o Sport, só fortalece a milenar convicção de que o artista é um ser de inquietações. De arrebatamentos. De rupturas.
Chutar pênalti de antolhos todo mundo chuta. Chuta e faz, chuta e não faz. Didi inventou a paradinha que tanta graça dava ao pênalti. Pelé, alma-irmã de Didi, herdou a paradinha, que, por sinal, também ele executava com graça e astúcia. A FIFA, matriarca reacionária, entendeu que era deboche e proibiu a paradinha. Na verdade aquilo era um recurso contra a esperteza dos goleiros cuja maioria se atira sempre um segundo antes de sair o chute. Marcelinho, veia genial, craque múltiplo, sabe como ninguém tirar partido da pressa do goleiro. Por isso faz do pênalti um golpe de inspiração. De criação e de malícia também. O futebol já lhe ensinou que levar o pênalti a sério demais pode transformar o atacante em vítima. Diz a máxima que o pênalti é sentença de morte em que, às vezes, o mártir da história acaba sendo o carrasco. Daí, o toque de originalidade com que Marcelinho executa sua obra. Sem contundências. Na astúcia mais fina.
Carrasco, sim, mas com doçura e fidalguia.
Rápidas e rasteiras
- Encontro, aqui e ali, gente finíssima da MPB: Abel Silva e João Donato. Os dois são uma espécie de Emmanuel e Loyola, do vôlei de praia. Dupla medalha de ouro. Em São Paulo, encontro Djavan, um craque que brinca nas onze: escreve letra, compõe a música, canta e a todos encanta. Uma das canções de seu repertório cai como uma luva no momento inglório que vive o Flamengo: ‘‘Ainda bem que sou Flamengo / Mesmo quando ele não vai bem / Algo me diz em rubronegro que o sofrimento leva além / Não existe amor sem medo / Boa-noite!’’
- Como explicar o fiasco da seleção espanhola no Mundial e na Copa das Nações? Fácil. Veja, leitor, a escalação do Barcelona que jogou, quarta-feira, contra o Manchester United: eram oito estrangeiros e três espanhóis. Ora, que chance tem a Espanha de dar tarimba aos jogadores feitos em casa? Na Itália, a mesma coisa: o Inter tinha, em campo, contra o Real Madrid, sete importados e apenas quatro nacionais. Não se faz seleção com a turma do sereno.
- Imagino que os olheiros de Wanderley Luxemburgo estejam vendo o que tem jogado no Real Madrid o atacante Sávio. Ponta incisivo, cortante, destemido - é o que voltou a ser Sávio, nome indiscutível no caderninho da seleção.
- No jogo Inter x Real Madrid, Ronaldinho foi, simplesmente, noves-fora, nada. Roberto Carlos, o vice-rei, por sua vez, foi um zero à esquerda no time espanhol.
- Radamés Lattari tem uma idéia que é um ovo de Colombo, pra resolver o impasse do vôlei: em vez de acabar com a vantagem; em vez de transformar todos os ‘‘sets’’ em ‘‘tie-brake’’, bastaria reduzir cada ‘‘set’’ a 12 pontos. Radamés garante que com esse critério uma partida de vôlei seria enxugada, no mínimo, de meia-hora. É tudo que quer a televisão.
- Impressionante o alcance da Internet: no ‘‘site’’ Jornal do Armando Nogueira, dei uma nota sobre a Universidade do Esporte, recém-criada no Paraná. No dia seguinte, começou a pingar e-mail até do exterior. Todo mundo querendo saber mais sobre a iniciativa. O primeiro e-mail veio de um brasileiro que estuda em Grenoble, na França. Já lhe passei o endereço da Universidade.
- No Esporte Real de sexta passada, uma entrevista impecável. Renata Cordeiro e eu batemos um papo do mais fino sabor com a escritora Nélida Pi¤on. O encantamento dela por esporte está simbolizado na seguinte frase: ‘‘O corpo me enfeitiça!’’
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br - E-mail: [email protected]

mockup