Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de setembro de 1998
Armando Nogueira Clubes à vontade: quem dá mais?! 
O futebol de nossos dias, como tema jornalístico, já se divide entre dois cadernos: o esportivo e o econômico. Numa, o noticiário fala ao coração; na outra, fala ao bolso. Já - já, estaremos frequentando a página de classificados. Lá, encontraremos tudo sobre compra-e-venda de clubes. Haverá leilões colossais: quem dá mais pelo Flamengo? O clube está em baixa. Sem o Kleber Leite vai ficar bem mais caro. Dou-lhe uma! dou-lhe duas! dou-lhe três! O mercador bate o martelo e o Corinthians, num passe de mágica, estará disputando o campeonato da Arábia Saudita, com a efígie do sultão Al Fared estampada no peito da camisa.
Não foi mais ou menos assim que acaba de acontecer com o Manchester United? O clube, que pertencia a milhões de torcedores ingleses, da noite pro dia, pode passar a ser de um único dono, o bilionário australiano Rupert Murdoch.
Os bastidores da história dizem o seguinte: Rupert Murdoch e Berlusconi, senhores de duas poderosas redes de televisão, junto com outro gigante da tevê alemã, o grupo Kirsch, fizeram as contas e provaram a uma dúzia de grandes clubes europeus que eles poderiam encher a burra de dinheiro se formassem uma elite pra jogar um supercampeonato. Seria disputado em paralelo com o da UEFA, que é quem comanda o futebol da Europa.
A UEFA, claro, soltou os cachorros. Sabia e sabe quanto é irresistível e sedutora a proposta dos empresários de tevê. Primeiro: fichinha não entra na tal superliga. Clube da Eslovênia, da Croácia, da Andorra, nem pensar. Trate de procurar sua turma. Segundo: os pesos-pesados não seriam jamais rebaixados. O Manchester, o Milan, o Ajax, o Juventus, teriam cadeira perpétua no campeonato.
Resultado: a UEFA já foi correndo pedir socorro à Fifa. Murdoch, queimado, mudou o tom da conversa: não querem por bem, então, vai por mal mesmo. Assinou um cheque de um bilhão de dólares, bateu na porta do Manchester United e, na maior transação da história do futebol, está comprando o clube inteirinho, do goleiro ao ponta-esquerda, do vestiário à bandeirinha de corner, do saco de bolas à poltrona de sua majestade a rainha da Inglaterra, na tribuna de honra.
Sabe, leitor, o que significa ser dono do Manchester United? É, simplesmente, em termos de cifras, movimentar mais de cem milhões de dólares por ano. Foi por aí que andou a receita do Manchester, na temporada de 96/97, segundo dados que recolhi nos anais do 1º Congresso Internacional de Gestão de Esportes, promovido pela Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, pouco antes da Copa do Mundo.
Não há clube no mundo com a ficha bancária do Manchester United. O Manchester arrecada cerca de 45 milhões de dólares por ano só em bilheteria. A receita de direitos de TV, patrocínios e royalties chega perto de 20 milhões de dólares. Treze por cento do dinheiro que entra, anualmente, vem de patrocinadores. Isso dá mais de sete milhões de dólares. O faturamento que mais cresce no Manchester é do merchandising. Cresceu 33 por cento. Entram, por ano, nos cofres do clube, cerca de 50 milhões de dólares em artigos com o escudo do clube: camisa, boné, cueca, calcinhas de mulher, sutiã, camisinha, chaveiro, pente, espelhinho - enfim, todas essas bugingangas a que ninguém resiste, nem índio, nem doutor.
Em matéria de retorno financeiro, o Manchester United é o clube número 1 da Europa, seguido pelo Bayer Munich, pelo AC Milan, pelo Juventus e pelo Barcelona.
Outras informações sobre o Manchester United, o leitor encontrará na página de classificados do Financial Times, de Londres.
O sapo da maldição
Um dia, há muitos e muitos anos, o Vasco da Gama enfiou uma goleada impiedosa no time do Andaraí: 12 a zero. O coitado do Andaraí tinha sido extremamente compreensivo com o adversário. Ficara mais de meia-hora, dentro do campo do Fluminense, embaixo de chuva, ensopado, aguardando o time do Vasco, que se atrasara por um acidente de trânsito. O juiz quis até proclamar o Andaraí vencedor por WO. O Andaraí, com fair play, não aceitou. O certo era jogar. O Vasco entra em campo e não perdôa: cinco, no primeiro tempo, sete, no segundo tempo.
No dia seguinte, um torcedor do Andaraí, de nome Arubinha, sacrifica um sapo e enterra no campo do Vasco, rogando uma praga: Se houver um Deus no céu, o Vasco da Gama há de ficar 12 anos (um por gol) sem ganhar campeonato. Passaria um jejum de exatos 11 anos.
Lembrei-me dessa história vendo o jogo de quarta-feira, quando o Bragantino perdeu, de virada, contra o São Paulo. Ganhava de 1 a 0, e acabou tomando de dois a um. Como pode o Bragantino perder em seu próprio terreiro, um jogo praticamente ganho? Pode sim.
Parece que a sorte do Bragantino foi selada quando, já no segundo tempo, apareceu no gramado úmido de Bragança a figura de um sapo. Vivo. Dizem que jogado no campo por um empregado do São Paulo. A tevê mostrou, várias vezes, o batráquio, o tempo todo, papo enfunado, de olhos vidrados (sapo tem olhos de vidro), fitando o goleiro Emerson, do Bragantino. Bem que alguém tentou expulsar de campo o sapo intrometido. Mas outro alguém teria desaconselhado: melhor não. Sapo é a encarnação da feitiçaria. Na cisma do povão, o sapo é um bicho sombrio que tresanda mau agouro. Talvez nem seja, mas superstição não se discute.
E como ninguém ousasse tocar no bicho, de seus fluidos nasceriam o gol de empate e, mais tarde, o gol da vitória do São Paulo.
Uma derrota difícil de engolir. Como um sapo.
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