Na grande área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Armando Nogueira Vasco da Gama, cidadão do mundo! 
Todas as honras, pleno louvor ao Vasco da Gama, campeão das Américas. Um fatalista diria que estava escrito, há cem anos, que o triunfo maior viria, justamente, no ano do centenário do clube. Meu determinismo não chegaria a tanto. Prefiro ficar com a idéia de que o Vasco impôs-se, agora, candidato a campeão do mundo porque tem uma equipe ao mesmo tempo brilhante e guerreira. Experiente e fogosa. A um Mauro Galvão corresponde um Felipe. A um Luizinho corresponde um Pedrinho. A fórmula é simples e infalível. Lopes faz uma liga perfeita entre a bagagem técnica e o talento jovem.
Não se podia esperar outro desfecho que não a vitória vascaína em Guayaquil. Analisados serenamente, os dois times estão um pro outro como a água está pro vinho. Anos-luz separam as duas equipes.
O Vasco da Gama vive, na plenitude, o seu papel de campeão brasileiro. Ninguém representaria melhor o Brasil na final do mundial de clubes, em Tóquio, no mês de dezembro.
Até lá, estaremos nos deliciando, em casa, com o Vasco que chega pra realçar, ainda mais, o Campeonato Brasileiro. A meu ver, uma temporada de muito bom padrão, até aqui. Na noite triunfal do Vasco, quarta-feira, pudemos assistir, em tv aberta e no pay-per-view, a algumas partidas sumamente empolgantes. Mais que todas, destaca-se a goleada do Inter no Goiás, em soberba exibição do time gaúcho. Depois vimos a ressurreição do São Paulo, tirando a barriga da miséria, com outra penca de seis gols no América de Natal.
Só está faltando mesmo o Vasco da Gama pra iluminar, mais ainda, um campeonato que vai indo de vento em popa, levado por uma comissão de frente composta pelo Corinthians, pelo Santos, pelo Inter, pelo Palmeiras e por esse tinhoso Sport Clube do Recife.
Quanto ao resto, por enquanto, é o resto, é o resto, é o resto...
FÃ DE MÁRIO VIANNA
Flagrante do Maracanã. Década de 60.
Mário Vianna já não apitava mais. Era, então, como comentarista de arbitragem, o mesmo terror que tinha sido como árbitro. Antes de começar a partida, um torcedor, vendo Mário pela janela da cabine da Rádio Globo, põe-se a chamar, com voz suave:
- Mário Vianna!
Nada.
- M-á-r-i-o V-i-an-na! - repetia o homem, num tom amabilíssimo.
Nada.
João Saldanha, sensibilizado, dá um toque no colega de microfone:
- Puxa, Mário, manda pelo menos um alozinho. O cara deve ser teu fã.
Mário Vianna debruça na janela da cabine, põe a cabeça de fora e cumprimenta o suposto fã:
- Oi!
E o cara, com a mesma voz de seda:
- Boa-tarde, ladrãozinho de antigamente!
DEFINIÇÃO DE CRAQUE
Um leitor me escreve, pedindo que eu defina o craque. Craque? Craque é o cara que joga futebol, levando a bola, pelo campo a fora, com as mãos no bolso, se bolso tivessem os calções.
Craque, na deliciosa definição de Max Nunes, é também o jogador que dribla a gente, a gente sentado na poltrona, vendo o jogo na televisão.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Tenho visto jogar o time do Botafogo e me assusta o colapso físico de seus jogadores, no segundo tempo. A zaga Gonçalves e Julio Cesar não ganha uma única bola de cabeça, há semanas. Os dois vão acabar esquecendo que a cabeça, como diria Nenem Prancha, é o terceiro pé...
- O Apolinho, agora, diretor de futebol do Flamengo, me dá uma de paternalismo que eu não esperava de alguém tão arejado como ele: o repórter pergunta se ele iria punir Iranildo por ter precipitado a própria expulsão em recente jogo do Flamengo. Apolinho respondeu que não. O paternalismo está na justificação: se punisse, diz o Apolinho, estaria dando ao jogador o direito de encurtar a passada na hora de uma bola dividida. Quer dizer: estamos aí é pra fazer as vontades, pra atender os caprichos do jogador. Êta profissionalismo doce-de-côco!
- O leitor Paulo C. Fernandes pergunta, curioso e sem malícia, em que esporte de bola eu me dei bem, quando garoto. A resposta, amigo, está na crônica Bolas da Minha Vida, do livro O canto dos Meus Amores que, por sinal, está chegando às livrarias, agora, em 2ª edição.
- Um exemplo de profissionalismo ensandecido: o Grêmio tem um treinador em campo e três na folha de pagamento. Celso Roth, o atual, ganha, dizem, 40 mil reais por mês. Os outros dois são Lazaroni e Edinho, dispensados sucessivamente na vigência de contrato. Lazaroni abiscoita cinquentinha por mês, e Edinho, cujo vínculo vai até dezembro, abiscoita outro tanto. Ambos de pernas-pro-ar, que ninguém é de ferro.
- Leio que, no vestiário da vitória, em Guayaquil, o time do Vasco se lembrou do Flamengo e, no meio do carnaval, fez sonoras gozações à fase sombria que vive o rival. Antes que rubronegros se enfureçam com a provocação, lembro que, na noite da decisão no Equador, antes de começar o jogo, a torcida do Flamengo, de crista baixa por mais um empate, descia a rampa do Maracanã, dando vivas ao Bar-ce-lo-na! E não era o da Catalunha.
- Uma pergunta que venho fazendo há séculos e que seguirei fazendo até o meu último suspiro: por que diabos a arbitragem do futebol permite que, na falta direta, a barreira ande pra frente como uma deslavada centopéia? É ordem superior? É falta de autoridade? É comodismo? É pusilanimidade? É o quê, ein, seu Armando Marques?


