Uma boa gripe, às vezes, tem suas vantagens. De molho, em casa, passei o fim-de-semana vendo esporte na tevê. Nada me escapou. Vi até judô feminino. Por sinal, pra mim, tão incompreensível quanto o masculino. Não consigo saber quando, como e quem venceu; e por que venceu. Não se amofinem, amigos do tatame: o culpado sou eu. É ignorância minha. Vi hipismo. O coroa Nelson Pessoa, 56 anos, deixa no chinelo a nova geração de ginetes. Vi vôlei que virou um esporte vertiginoso. Eliminou-se a vantagem, um tédio do jogo. Agora, tudo é tie-braker. Um ponto atrás do outro.
À primeira vista, o novo vôlei obriga a maneirar no serviço. Ace, agora, tem hora. Saque esperdiçado é ponto do rival. Chego a pensar: será que o tênis não ficaria mais humano se fosse reduzido a um saque só? No recesso da gripe, vi a final de Wimbledon-98 que não tinha visto. Na época, estava por conta da Copa. Ivanisevic e Sampras acertaram cerca de 50 aces. O ace, todos sabem, é o saque em que ninguém consegue ver a bola. Nem mesmo quem sacou. Tem graça que, numa partida, haja 50 pontos feitos sem que alguém sinta, sequer, o cheiro da bolinha?
No mais, vi futebol. No jogo Corinthians x Inter, houve um lance, aquele sim, ideal pra que se recorra ao chamado olho eletrônico. O goleiro André, do Inter, agarra uma bola dessas que dividem as opiniões: a bola transpôs ou não a linha do gol? No chão, não seria nada fácil julgar. No ar, torna-se impossível. Só mesmo uma camereta encravada na balisa vertical pode mostrar, instantaneamente, a exata posição da bola no momento em que foi alcançada pelo goleiro. Nesse caso - e só nesse caso - eu gostaria de ver a tevê dando a palavra final sobre um lance de gol controvertido.
O melhor jogo, pra mim? Além de Santos x Atlético, ainda no meio da semana passada, elegeria Corinthians x Inter, em Porto Alegre. Muito bem jogado. O Inter com um time de guerreiros, osso duro de roer. Corinthians, pela versatilidade de suas peças. A principiar por Gamarra que, por sinal, nada tem a ver com o zagueiro convencional. O moço é um batedor-livre (um líbero) que se oferece, como alternativa, a qualquer companheiro, em qualquer ponto do gramado. Defende e ataca com a mesma espontaneidade. É mais um coringa numa equipe que consegue banalizar, no bom sentido, o papel do coringa. Todo mundo, menos o goleiro, toca sete instrumentos: todos defendem, cercam, atacam, apoiam, driblam, passam e chutam.
O Corinthians tem sido, até agora, uma respeitável orquestra em que, de repente, o primeiro violino aparece lá atrás, tocando bombo. É ou não é, meu caro Marcelinho?
No olho do furacão
O jogo Vasco x Barcelona, hoje, tem as mesmas características do furacão: nas bordas, toda sorte de turbulência; no olho do furacão, calmaria. É sempre assim: faz-se uma espuma danada, fala-se em violência, virada de mesa, desistência, o diabo. Na hora da verdade, o jogo é jogado e tenho dito. É, pelo menos, o que todos esperamos hoje.
Uma das garantias de normalidade em campo é justamente o árbitro Javier Castrilli que é tido, em alguns jornais, como o provável carrasco do Vasco da Gama. Pois a biografia do juiz argentino diz, justamente, o contrário. Trata-se de alguém que apita com rara firmeza e autoridade. Castrilli é um trunfo do futebol que todos queremos ver na final da Taça Libertadores. O resto é histeria.
Não tenho a menor dúvida: se algum jogador do Barcelona resolver engrossar o caldo, vai bonitinho pro chuveiro. Esse árbitro é duro na queda. Por aí, não vejo risco pro time do Vasco da Gama. Risco mesmo só se o Vasco da Gama perder, subitamente, a confiança em si próprio. Que a equipe brasileira tem cacife pra vencer, todo mundo sabe que tem. Até os equatorianos.
Boa sorte ao Vasco da Gama. Desejar o melhor pro Vasco é, na verdade, torcer pelo triunfo do bom futebol que essa brilhante equipe encarna como poucas - e não é de hoje.
Um puxão de orelhas
A Fifa introduziu duas novidades na regra do futebol, durante a Copa do Mundo. Ambas louváveis. A primeira condena à execração o carrinho por trás. Desde então, a coisa tem funcionado com rigor. A segunda medida é o acréscimo de tempo pra compensar as paradas, seja por substituições, seja por socorro a machucados, seja por cera propriamente dita.
O futebol ganhou, em média, três a quatro minutos mais de bola em jogo. Na Copa, havia até uma medida temporal pra cada uma das interrupções: 60 segundos pro caso de retirada de machucado; 30, pro caso de troca de jogador.
Quarta-feira passada, o árbitro Luciano de Almeida ignorou o critério do tempo adicional. Deu extensão de apenas dois minutos, quando devia ter esticado o jogo, no mínimo, quatro ou cinco, no jogo Santos x Atlético-MG.
Armando Marques, sempre tão zeloso do respeito à lei do jogo, devia dar um puxão de orelha no árbitro Luciano de Almeida.
Rápidas e rasteiras
- O Paraná está criando a Universidade do Esporte. Estarei em Curitiba, dia 3 de setembro, pra bater um papo com os esportistas da terra sobre a gestão do esporte no novo tempo do futebol-empresa.
- As moças do vôlei criticaram, duramente, o colante que viria substituir a sunga tão ao gosto delas. Pois de uma jovem e esguia jogadora, ouvi a seguinte confidência: ‘‘As meninas têm pavor porque o colante não perdoa um dedo de gordura a mais’’. O modelo é ingrato e realça qualquer gordurinha, seja na barriga, seja no bumbum. Logo se vê que o problema não é técnico, é estético, mesmo.
- Sempre fui zero à esquerda em números. Ainda assim, gostaria de conhecer que diabo de aritmética é essa que já perpetuou o Brasil como a seleção número 1 do mundo, no ranking da Fifa. Parece conta de mentiroso.
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