Na Grande Área (Armando Nogueira)
O conceito de futebol-total começa a ganhar corpo no Brasil. Nesses dias, vi jogar três equipes que ilustram perfeitamente o figurino lançado há mais de 15 anos pela Holanda, no Ajax e na seleção de Cruyff. O time do Corinthians está chegando lá, a olhos vistos. Só mesmo um regime de solidariedade plena pode fazer com que jogadores como Marcelinho, Edilson, Rincón e Mirandinha se transformem em guerreiros no momento em que a bola está com o adversário. A mesma coisa se vê no time do Vasco da Gama, cujas peças, sem exceção, não dão trégua ao adversário em todos quadrantes do campo. Contra o Barcelona, do Equador, a equipe chegou quase à exaustão, tal a perseguição de todos a qualquer manobra do rival.
No mesmo embalo, vi, outro dia, o time do Botafogo derrotar o São Paulo. Coroas e calouros, todos iam e vinham, sem distinção de camisa. Não deixa de ser impressionante que a tônica da entrega total do Botafogo tenha sido dada pelos juvenis Felipe e Leo. Na esteira dos dois, Bruno Quadros foi outro exemplo de onipresença.
O segredo do fenômeno? São tantos, amigos. A obstinação do técnico talvez seja o principal. Imagino quanto latim não têm gasto, no cotidiano do time, treinadores como Luxemburgo, Lopes e Paulo Autuori. No caso dos juvenis botafoguenses Felipe e Leo, parece fora de discussão que a coisa já vem de baixo. Daí, a importância de entregar as divisões de base a profissionais arejados, como é o caso do veterano Dé.
Tais exemplos me levam de volta à seleção da Copa. O professor Zagallo, por insondáveis razões, escalava Leonardo, todo torto, a caranguejar pelo lado direito, quando podia perfeitamente escalar Giovanni que trafega como ninguém por ali. Nem precisava fazer a cabeça dele. Era só deixá-lo livre pra jogar exatamente como joga, com tanto brilho e rigor, no time do Barcelona. Infatigável, ele arma, desarma, faz e evita gol, no melhor modelo do jogador moderno. Como Marcelinho, que se converteu ao futebol-total, e aí está, mais que deslumbrante. Exatamente como o adolescente Felipe, do Botafogo, cuja versatilidade começa a fossilizar o estilo que consagrou a geração de Bebeto e de Túlio. Como os garotos do Vasco que se desdobram, com brio e talento, por todos os quadrantes do campo.
Réu morto, réu posto
Sai Zagallo, entra Luxemburgo. Rei morto, rei posto? Considerando o abacaxi que é a seleção, talvez seja melhor parodiar o velho provérbio e dizer: réu morto, réu posto!
Se todo mundo tem um palpite a dar pro Wanderley Luxemburgo, eu também quero dar o meu. Não pretendo convocar ninguém, não quero escalar ninguém. Quero, apenas, que Luxemburgo, pelo amor de Deus, acabe com aquela pieguice de entrar em campo todo mundo de mãos dadas. Não conheço nada mais grotesco no ritual do futebol. Onze marmanjos, em fila indiana, caranguejando pelo campo, de mãos dadas. Coreograficamente, o efeito é pavoroso. Na Copa da França, tinha um cheiro de mistificação. A equipe não era unida coisa nenhuma. Era gato de mãos dadas com cachorro...
Queremos ver a seleção entrar em campo como qualquer equipe, na clássica formação de fila indiana, com altivez. Se Luxemburgo não conseguir acabar com essa pantomima, então que assumam logo que é uma brincadeira de jardim de infância, mesmo. Fechem a roda e já saiam do túnel pulando e cantando: Atirei o pau no gatô-tô, mas o gatô-tô não morreu... reu... reu...
Rápidas e rasteiras
- As moças do vôlei não querem vestir o novo uniforme bolado pela Confederação Internacional de Vôlei. É um colante que, dizem elas, mostra mais do que elas gostariam de mostrar. Preferem a sunga antiga que também é curtinha mas fica no limite da sensualidade. Tão belas, tão viçosas, as gatas do vôlei não sabem que um dos encantos da juventude feminina é poder exibir, na medida do bom gosto, a beleza do corpo. Não leram Françoise Giroud, admirável pensadora francesa, que, aos 70 anos, desabafa: Uma das tristezas de envelhecer é só poder se vestir pra se cobrir...
- O Campeonato Brasileiro pode se orgulhar, no momento, de quatro equipes: Corinthians, Vasco da Gama, Santos e Sport Club Recife. Têm excelentes jogadores, todos afinados, jogando bonito e em alta velocidade.
- O time do Flamengo tomou ao pé-da-letra a recomendação superior de lutar mais, de ser mais guerreiro. No jogo com o Grêmio, o time soltou o sarrafo. Resultado: o Flamengo joga com o Juventude, domingo que vem, sem duas peças valiosas de meia-cancha que são Marcos Assunção e Leandro. Ambos levaram o terceiro amarelo.
- Por falar em Marcos Assunção, o rapaz está ganhando um lugar na confraria de Marcelinho. Em chute de bola parada, à entrada da área, Assunção encaixa todas, lá no alto, como se não existisse na vida de uma bola outra trajetória a percorrer.
- A Fifa não confessa, mas torce pra não acabar tão cedo a crise econômica da Coréia. É que, pra sediar a Copa em parceria com o Japão, a Coréia está obrigada a construir mais um estádio. A população coreana não quer nem ouvir falar em gastar dinheiro com futebol. Desfecho natural da questão: a Copa vai acabar sendo jogada só no Japão.
- O que o perna-de-pau não sabe, nem desconfia, é que a bola tem cérebro e pensa mais e melhor que ele.
- Hoje, no estúdio do Sportv, Renata Cordeiro e eu estaremos entrevistando a admirável Paula, do basquete. É pro Esporte Real. Quero ouvir a musa do basquete sobre o desemprego que aflige algumas estrelas das quadras brasileiras, como a excelente Branca, de quem acabo de receber um e-mail candente sobre a crise no basquete feminino brasileiro.
- Denúncia de doping no futebol inglês, denúncia de doping no futebol italiano, denúncia de doping no futebol argentino. Sem falar no atletismo e noutros esportes. Dinheiro a rodo no esporte só podia dar nisso.





