Na grande área (Armando Nogueira)
Mais uma lambança na vida de Edmundo. Ele arma a quizumba e, depois, faz cara de santinho. É claro que é de Edmundo a voz da denúncia contra a Nike e CBF. A esperteza é negar que tenha dado a entrevista. Vê-se, logo, o dedo do advogado. Afinal, Edmundo não deu, mesmo, uma entrevista formal. Ele deve ter sido vítima desse malicioso ser chamado microfone. O embaixador Ricúpero conhece-o muito bem de outros cochichos. Eu costumo dizer, nas minhas palestras, que microfone não é arma de guerra, mas cospe fogo. Não é cão, mas ladra e morde. Traiçoeiro como ele só.
Perdi a conta das cascas de banana que esse bichinho já espalhou pelos estúdios, ao longo dos muitos anos de minha vida como profissional de televisão. Pessoalmente, nunca me deu dissabores. Contudo, costumo ter pesadelos em que microfones insidiosos me deixam embaraçado.
O caso mais cabeludo, pra não dizer o mais patético, é o do radialista Jair Martins. Aconteceu nos anos 50, no esplendor da TV Tupi. A emissora tinha, então, no Rio, a mesma presença hegemônica que tem hoje a Globo. Todo mundo via a Tupi, de Assis Chateaubriand. No horário nobre havia um programa jornalístico chamado Índio não tem bandeira. Índio era o símbolo da TV Tupi representado na figura singela de um indiozinho brasileiro, com duas anteninhas na cabeça. Era uma gracinha.
Terminava a novela, entrava no ar o Índio, com um vibrante editorial. Era sempre um libelo contra uma pessoa notória ou contra o prefeito ou contra um serviço público mal-feito. Era uma temível tribuna em defesa da ordem e da lei. Farisaico e demolidor. Pela eloquência, pela franqueza, pelo desassombro, o Índio acabaria encarnando a própria cidade maravilhosa. A tal ponto que, em pouco tempo, o locutor Jair Martins se converteria no porta-voz da população. Elegeu-se vereador com uma votação consagradora.
Uma certa noite, no meio de uma atroz catilinária contra um hospital público, a estação sai do ar, abruptamente. O coordenador faz um aceno, pedindo ao Índio que desse um tempo. O locutor, então, devidamente relaxado, baixou o tom e começou a fazer um desabafo de raro cinismo:
- Ora, meus amigos, eu sei que vocês, aí em casa, levam muito a sério tudo que eu berro daqui, toda noite. Mas, pra ser sincero, isso aqui é uma grossa palhaçada. É tudo hipocrisia. Eu já estou de saco cheio. Não aguento mais fazer esse programa. O Índio não tem bandeira é tudo mentira.
O coordenador do estúdio esquecera de avisar que só tinha saído do ar a imagem. O som continuara, cristalino...
No dia seguinte, o Índio, a bandeira, o Jair Martins estava tudo fora do ar, pra sempre.
Microfone não tem bandeira...
Rápidas e rasteiras
- Sai em Londres, setembro próximo, Big Ron: a different ball game um livro de denúncias em que o treinador Ron Atkinson, hoje comentarista da TV, fala do flagelo da droga, de racismo, de mercantilismo e de corrupção no futebol inglês. O livro é uma bomba.
- A Fifa já tem o esquema de disputa do Mundial de 2002: o jogo inaugural será na Coréia e o final, em Tóquio. Na primeira fase, serão disputados dois mundiais, em paralelo: 16 seleções na Coréia e 16, no Japão. Isso não é mais Copa do Mundo, é uma receita maluca pra curar mal de uma Copa que já nasceu com duas cabeças... uma verdadeira panacéia...
- A voz do leitor, via Internet: a respeito da crônica em que rogo pelo Fluminense, invocando torcedores famosos, muitos leitores estranham que eu restrinja o universo tricolor a meia-dúzia de pessoas ilustres. Acham que excluí o torcedor de arquibancada que idolatra, o time, anonimamente. Não é bem assim. Tomei alguns nomes justamente pra neles simbolizar a paixão de todos os tricolores, sem exceção.
- Romário diz que não sabe mais o que fazer: parou com o futevôlei, os músculos começaram a pifar. Parou de sair pela noite, os músculos continuam a pifar. Não há outra saída: o jeito é voltar ao fute e à noite. Ou o homem não é um animal de hábitos?
- Edificante: é o mínimo que posso dizer da atitude de Fernando Scherer, decidindo adotar uma esperança da natação feminina brasileira. Não tem empresa que queira bancar? Pois Scherer, que nem rico é, resolve custear a carreira da atleta Flavia Delarori, de 14 anos, um talento, medalha de prata dos 50 metros nos Jogos Mundiais da Juventude.
- Paulo Cesar Carpegianni está na lista de nomes com que Ricardo Teixeira pretende formar o colegiado técnico da seleção. A idéia é convidá-lo, naturalmente, com o aval de Luxemburgo. Capergianni, porém, está inclinado a dizer aquelas coisas: sinto-me honrado, mas não posso aceitar...
- A boa notícia vem do Senado: foi aprovado, lá, o projeto que regulamenta a profissão de professor de Educação Física. Uma luta de categoria que começou há 17 anos. Parabéns a essa classe profissional que só trouxe seriedade à atividade física no Brasil.
- Tenho visto bons jogos no Campeonato Brasileiro. A Copa do Mundo deve ter feito bem ao astral das equipes. E uma das razões, entre tantas, é o padrão disciplinar, no capítulo da violência. Está se jogando mais na bola do que nas canelas. A condenação do carrinho também contribui pra elevar o nível técnico e ético do futebol.
- Quem gosta de futebol e quer ter momentos de felicidade tem que ver jogar o time do Vasco da Gama, criteriosamente armado por Antonio Lopes. Sempre achei Lopes um técnico atrabiliário. Parecia um caso de deformação profissional. Lopes é, de origem, delegado de polícia. Vejo-o, agora, bem mais contido, preocupado com a evolução do time do Vasco. Parabéns a ele, ao Vasco e ao próprio futebol.
- No Esplanada Grill, no Rio, Marcio Braga, João Araújo e Paulo Cesar Ferreira trocam figurinhas rubro-negras. O prato do dia é o futuro próximo do Flamengo e a cuja presidência Marcio concorre com o pé nas costas.





