Na Grande Área (Armando Nogueira)
O enigma
da Copa
O leitor, sempre vigilante, notou que, mal acabada a Copa, entrei em recesso. Estava um caco. Durante 40 dias, sulanquei qual barqueiro do Volga. Agora, refeito, e vendo que começa a assentar a poeira do futebol, resolvi consultar a esfinge do mundial sobre a vasta e tenebrosa noite de 12 de julho, no Stade de France. Busco, angustiado, uma palavra oracular sobre o enigma da final.
O monstro, evasivo, parabólico, assim me responde: Indagai, indagai, que a luz da verdade provém, sempre, da fonte perplexa da incerteza! Pois é o que faço, no papel de porta-voz de tanta gente que me escreve, fazendo perguntas.
Foi mesmo epilepsia? Não foi um mero chilique? Terá sido ‘‘paura’’? Ou foi estresse? Algum medicamento terá caído mal? Não foi distúrbio neurovegetativo? Pode ter sido ciúmes (infundados) da bela Ronaldinha? Poderia ter sido pressão da Nike? Não teria sido uma síndrome de Suker, o croata que, na véspera da final, tinha disparado como artilheiro da Copa? Não foi nostalgia pela falta de Romário, parceiro de fé?
Ronaldinho, pobre menino rico. Não será desumano fazê-lo o solitário bode expiatório de uma colossal frustração? E o resto do time que não teve convulsões e jogou como se tivesse passado mal no crepúsculo que precedeu a final? Por que foram os outros tão abúlicos? Tão entorpecidos? Por que Dunga não chamou aos brios a equipe, no campo e no vestiário? O capitão não é pra isso? Por que Zagallo consultou a comissão na hora da escalação temerária e não fez a mesma coisa, quando pensou em substituir Ronaldinho durante o jogo? Por que preferiu ruminar sozinho a indecisão de tirá-lo no meio do jogo?
Se o time todo estava tão condoído por Ronaldinho, por que, então, ninguém, a não ser Cafu, correu pra ver o que aconteceu, quando o garotão colidiu no ar com o goleiro Barthez? Por que a Fifa se prestou à farsa de assinar um papel, comunicando que o mal de Ronaldinho era no tornozelo? Por que, até hoje, ninguém ousou abrir a caixa preta da Seleção?
Por que a desculpa esfarrapada de que a equipe murchou em campo por conta do drama de Ronaldinho? Por acaso ignoram que todo mundo está farto de saber que é precisamente a adversidade que inventa o herói? Por que a equipe não reagiu com desassombro: sem ele, jogaremos por nós e por ele? Será que a CBF pensa que nós ainda acreditamos em Papai Noel? E, por fim, até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Enciclopédia em livro
‘‘Minha Bola, Minha Vida’’ é o livro que Nilton Santos estará autografando, dia 4, na sede do Botafogo, no Rio. São histórias de uma vida que o futebol brasileiro imortalizou. Nilton Santos iluminou os campos do mundo com seu futebol enciclopédico. Daí, o cognome.
Antes de entrar no Botafogo, Nilton Santos jogava no time da Base Aérea, na Ilha do Governador, onde servia como praça. Era tão bom que, mesmo sendo soldado raso, jogava no time dos oficiais. No caso, prevalecia não a rígida hierarquia militar, mas a graduação do futebol, na qual tinha a patente de general.
Nilton Santos tinha um trato com o centroavante do time, que era um major-aviador: toda vez que Santos lhe desse um passe de meio-gol, receberia, como prêmio, um dia de folga na rotina do quartel.
- Às vezes - relembra Nilton Santos - eu entrava na área, driblava o goleiro e, em vez de fazer o gol, passava a bola pro major. Ele só tinha o trabalho de tocar a bola pra dentro...
Soldado Nilton Santos, até a bola do jogo, perfilada, batia continência pra ele.
O vencedor
Meu xará Armando Maia foi o internauta vencedor do concurso que o Jornal do Armando Nogueira promoveu durante a Copa do Mundo. Durante 20 dias, pela Internet, quem acessasse a Home Page (ver endereço abaixo) encontrava as seguintes perguntas:
1ª - O craque Puskas, astro número um do Mundial de 54, jogou a Copa da Suíça com a camisa da Hungria, sua pátria. Oito anos depois, jogaria a Copa do Chile com outra camisa. Qual foi mesmo?
2ª - Na Copa de 38, jogo Brasil 6 x Polônia 5, Leônidas da Silva foi autor de um ato que entrou para a história do Mundial. O que foi que ele fez?
Pois Armando Maia foi o único que acertou - entre os sessenta que participaram do concurso - com as seguintes respostas: Leônidas tirou as chuteiras e o árbitro mandou calçar de novo. Puskas jogou pela Espanha.
Até o final de agosto o vencedor vai receber um autógrafo com dedicatória de um craque da Seleção Brasileira.
E viva o diálogo!
Rápidas e rasteiras
- Estréia hoje o Fluminense na Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. O clube fez muito pouco pra atrair seu torcedor. No fundo, sabe que o torcedor é, antes de tudo, um ser movido a paixão.
- O bem que faz ao corpo e à mente uma boa caminhada de seis quilômetros, por dia, me permite dizer: exercício - um pouco de sacrifício pra muito de benefício.
- Não estaria muito longe da verdade alguém que analisasse, assim, a queda da comissão técnica da Seleção: com Zagallo e Lídio caem dois amigos queridíssimos de João Havelange.
- Enfim, faz-se justiça a um jornalista de bem. A 7ª Vara Criminal do Rio anulou, por unanimidade, sentença de primeira instância que condenara Juca Kfouri a cinco meses de cadeia, num processo contra ele movido por Ricardo Teixeira.
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - http://www.armandonogueira.com.br. E-mail: [email protected]

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