Na grande área (Armando Nogueira)
A Seleção,
sem vírgula...
O comando do futebol brasileiro é uma pândega só. Quando se espera um pronunciamento de alto nível sobre a noite negra de 12 de julho, a CBF encerra o assunto, dissolvendo a comissão técnica. É a pá de cal no episódio constrangedor da escalação de Ronaldo mal saído de um surto de convulsões.
Ricardo Teixeira despede Zagallo e companhia, alternando, no gesto extremo, pitadas de ironia e de hipocrisia. ‘‘Do goleiro ao ponta-esquerda - diz Teixeira - está todo mundo despedido.’’ Gracejo grosseiro. Mais adiante, ressalta a excelência do trabalho da comissão. Gostou tanto que pensa até em recorrer aos préstimos de alguns, mais adiante. Inclusive, de Zagallo.
A fala do presidente da CBF é um primor de dissimulação. Está certo, a hipocrisia é um artifício que amacia a convivência. Os ingleses ensinaram ao ocidente que disfarçar é um modo civilizado de evitar constrangimentos. Mas não é bom exagerar, senão, a astúcia pode cair no temerário terreno do cinismo.
Todo mundo está farto de saber que Ricardo Teixeira, há algum tempo, já não engolia Zagallo, o qual jamais engoliu o Zico, o qual não engolia o doutor Lídio, o qual não engolia o Romário, o qual não engolia nenhum deles. A seleção da Copa era um saco-de-gatos, dentro e fora do campo.
Se a comissão técnica acertou em cheio, como proclama Ricardo Teixeira, então por que a vassourada de cabo a rabo? Não diz o sábio provérbio que não se mexe em time que está vencendo? Ora, senhores, como diria meu amigo Macedo, deixemos de prosopopéias. O Chateau de Grand Romaine era uma flamante feira de vaidades. Zagallo não deixava Zico chegar perto dos treinos pra que ninguém pensasse que a seleção tinha mais um dono que não ele só. O próprio Zico acaba de abrir o coração numa entrevista ao Globo.
Quem sabe não teria sido melhor que o poder do técnico tivesse sido atenuado? Aliás, Ricardo Teixeira não pretendia outra coisa quando, há seis meses, interveio na comissão, enfiando pela goela do treinador a figura legendária de Zico. Certamente, Teixeira não imaginava que Zico iria furtar-se de amarrar o guizo no pescoço do lobo. Zico é uma alma singela, tem o perfil de prêmio Nobel da Paz. Se tivesse pago pra ver, desde o primeiro dia no cargo, talvez a história a contar, hoje, fosse outra bem diferente.
Não sei que nomes virão por aí. A escalação do técnico é um privilégio da pessoa física do presidente da CBF. Quando muito, ele ouve a sua patota. Pior é o próprio técnico que não tem, nem quer ter patota. Decide sozinho, no banheiro da concentração. De luz apagada pra não ter que dividir a decisão nem com o espelho do armário.
E ainda querem que a gente entre e saia da Copa, dizendo amém à precipitada escalação de Junior Baiano; silenciando à barração perversa de Geovani; louvando a função distorcida de Leonardo, a correr, sem bússola, do lado direito do campo; aplaudindo a escalação vitalícia de Roberto Carlos, um monumento de narcisismo, a arrastar pelo campo todo o ouro deste mundo. Sem falar na última escalação de Ronaldo. Quem vai conseguir arrancar uma palavra cristalina da sombria esfinge que produziu aquela noite sinistra no Stade de France?
Mal dá pra contar nos dedos os minutos de satisfação que me deu a seleção de Zagallo, na Copa da França. No meu modesto sentir, a equipe que foi ao Mundial não pode ser confundida com a verdadeira seleção da camisa amarela, que já existiu e que, com a graça de Deus, um dia há de renascer, radiosa, sem vírgula - e ponto final.
Guga vence e sai a pé
Guga ressuscita em Sttutgart. A final contra o eslavo Kucera foi por ele exemplarmente jogada. Sobretudo, pela audácia de seus golpes, no terceiro set. Tremi nas bases quando Guga desperdiçou dois golpes de quebra de serviço e, pra piorar mais as coisas, ainda deixou-se quebrar no set seguinte. Pois não é que Guga respira e dá a volta por cima? Retomou o pulso da partida, justamente quando Kucera parecia irresistível, com seu tênis de contra-ataque.
Foi um título e tanto esse de domingo. Sair de um Super-9 e, sem trégua, entrar num torneio de médio porte, só se explica, admitindo que Guga se inscreveu em Umag, Croácia, porque não esperava muito dele mesmo em Sttutgart. Não era pra menos: derrotar, seguidamente, em quadra de saibro, Carlos Costa, Alberto Costa e Moya, só mesmo muito talento.
Agora, Guga mal sai da Croácia e já vai ter que defender em Toronto os 380 pontos de finalista que conquistou ano passado. E o que é pior: sem tempo sequer de pegar a manha da quadra rápida. Pode cair de novo pra 26º lugar.
Em tempo: o torneio de Sttutgart não deixou de ser um pequeno constrangimento pra Guga. Um dos prêmios do torneio é uma Mercedes incrementada. Acontece que Guga é garoto-propaganda da Renault. Pelo sim pelo não, Larry saiu montado numa super Mercedes e Guga saiu a pé...
Trapaças do esporte-business.
Rápidas e rasteiras
- Um amigo me pede uma síntese sobre o Brasil nos mundiais de 58, 62, 70, 94 e 98. Parece um jogo verbal mas é a pura verdade: a seleção de 58 devia ter sido - e foi. A seleção de 62 devia ter sido - e foi. A de 70 devia ter sido - e foi. A de 94 não devia ter sido - mas foi. A de 98 não devia ter sido - e não foi.
- Chego de férias e vejo que Paula não pensa em deixar o basquete. Tem planos a longo prazo, seja como jogadora, seja como orientadora. Essa moça é um patrimônio do basquete brasileiro.
- Fico cheio de dedos mas não posso deixar de falar do sucesso da ‘‘Homepage’’ que leva o meu nome (Jornal do Armando Nogueira). O que me deixa à vontade nesse registro é que o site é feito por um time de profissionais que, em boa hora, se dispôs a dar mais fôlego ao meu trabalho.
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E-mail: [email protected] - Site: http://www.armandonogueira.com.br

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