PARIS - Ninguém duvida das duas seleções. A final de amanhã será travada entre duas das grandes equipes desse mundial. Ambas com suas conhecidas limitações: o Brasil, vulnerável na defesa, e a França, estéril no ataque. Ambas, porém, cheias de virtudes técnicas, atléticas e transbordantes de entusiasmo.
A preocupação de todos é a arbitragem. Não que o juiz marroquino vá apitar com o coração, levando pro campo um resultado preconcebido. Nada disso. O que incomoda é saber que um jogo de tamanha envergadura seja confiado a um árbitro de escassa experiência internacional. Um ilustre desconhecido que, na melhor das hipóteses, poderá estar mais nervoso que os próprios jogadores.
Enfim, é mais uma temeridade que vem da Fifa. Nessa Copa, a irregularidade da arbitragem ultrapassou todos os limites do bom senso. Nunca se viu tamanha discrepância de critérios. Um dia, sai cartão vermelho quando se esperava o amarelo. A mesma jogada litigiosa tanto pode passar em branco como sofrer o duro castigo da expulsão.
Se não fosse a acentuada careca, o presidente da Fifa, Sepp Blatter, estaria arrancando os cabelos. Não é possível que os árbitros não vejam o que todo mundo vê: os jogadores se agarrando, pendurados na manga da camisa, numa cena que depõe contra a técnica, contra a ética, contra a estética do futebol.
É de estarrecer a passividade dos árbitros, vendo um jogador triscado pelo outro atirar-se no chão, dando gritos lancinantes de uma dor que não está sentindo. Dor fingida. Puro teatro. Por que não castigar com um cartão amarelo ou mesmo vermelho o canastrão que simula uma agressão inexistente?
A cena mais corriqueira nessa Copa tem sido a farsa do nocaute. O jogador desaba no chão por um simples tapinha na cabeça. E que fazem os árbitros? Espetam o cartão vermelho na cara do ‘‘agressor’’ e a ‘‘vítima’’ se levanta, lépida e fagueira.
Futebol não é farsa!
Brincando, brincando...
A França está mostrando ao mundo uma cara nova. Menos cética, mais otimista. Pelo menos, é assim que o New York Times retrata a figura da França nesses dias de Copa do Mundo. É o milagre do esporte, diz o famoso jornal.
- ‘‘Da Rive Gauche à extrema direita - diz o New York Times - a França inteira está enfeitiçada por sua equipe de futebol, símbolo de um país feliz. Durante essa Copa do Mundo - observa o jornal - uma coisa estranha se passou. Esse país ingovernável, sempre em desacordo com tudo e com todos, eternamente dividido, profundamente cético, se reencontrou em torno de uma equipe de futebol, agora, exaltada por operários, homens políticos e até mesmo pelos intelectuais. E conclui: A seleção de futebol da França tornou-se o símbolo positivo de um país que assume a consciência de seu crescimento e que parece emergir de um longo período de desânimo’’.
É o que não me canso de dizer do esporte: brincando, brincando é que os homens se descobrem...
Rápidas e rasteiras
- Lionel Jospin, primeiro-ministro francês, elogia a atuação de Aimé Jacquet no comando da seleção nacional: ‘‘Ele venceu o ceticismo e acabou dando àqueles que tanto o criticaram uma lição de sabedoria e de profissionalismo. Uma verdadeira lição de política do real’’. Desde que assumiu o cargo de técnico, há dois anos, Jacquet vinha sendo duramente criticado pela imprensa, principalmente pelo jornal esportivo L’Equipe.
- Cruyff tinha razão: a seleção da Holanda fraquejou, psicologicamente, contra o Brasil. É uma equipe brilhante, sem dúvida. Ninguém jogou futebol mais bonito. Faltou-lhe, porém, espírito de luta. Como bem escreve, no El Pais, Jorge Valdano: ‘‘A Holanda não luta, só joga’’.
- A Bolsa de apostas de Londres não está tão otimista em relação ao Brasil, na final de amanhã. A cotação é de apenas quatro pra um. Noutros jogos, a bola brasileira andou mais cheia.
- Um congresso de técnicos, reunidos em Paris, condena a bola. É muito leve. Um dado curioso que apareceu no congresso: as bolas de meia-distância tendem a subir muito. Em relação a 94, é de dez por cento a mais a quantidade de bolas chutadas às nuvens pelos atacantes.
- À luz do marketing esportivo, a final Brasil x França é uma queda-de-braços entre as duas maiores grifes esportivas: Nike e Adidas.
- No dia seguinte ao jogo Brasil x Holanda, o ingresso da final custava 2 mil e 500 dólares, em qualquer esquina. Hoje, com a França na jogada, já está em 3 mil e 500 dólares. Amanhã, na porta do Stade de France, bate os 5 mil dólares. É a chamada lei da oferta e da.... loucura.
- No torneio de tênis de Gaastad, na Suíça, está valendo a presença do técnico ao lado do jogador, entre os sets. Pelo visto, porém, vai dar em nada. Boris Becker disse que não sabe em que uma partida possa melhorar só porque o técnico conversou quarenta segundos com o jogador. O francês Pioline confessou que, no intervalo, simplesmente, esqueceu de olhar pro técnico (o técnico fica a alguns metros da cadeira do tenista). Guga, por sua vez, disse que não vê necessidade de ouvir o técnico: ‘‘Eu falo com o Larry antes do jogo e é o que me basta’’.
- Está aparecendo, no programa Esporte Real, dessa semana, entrevista que fiz, anteontem, em Paris, com Henry Kissinger, o homem que mandou no mundo nos anos 70 e que converteu uma partida de tênis de mesa no ato simbólico do reatamento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a China. Kissinger, entre outras revelações, confessa que sempre torceu pelo Brasil e que foi justamente com o Brasil que viu o futebol se transformar em arte pura: no mundial de 70 e no mundial de 82, cuja seleção considera a melhor de todas.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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