Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - Há coisa de um ano, quando jantava num restaurante de luxo, em Paris, João Havelange assegurava ao chef do Taillevent que a final da Copa seria Brasil x França. Como o presidente da Fifa está mais pra Maquiavel que pra adivinho, somos levados a admitir que o quebra-cabeça das chaves foi montado pra favorecer o epílogo que nos oferece, domingo próximo, o Stade de France. Os dois finalistas foram alojados em grupos de tal modo que, guardado um mínimo de lógica, os dois só se encontrariam na final.
Imagino que o coração dos brasileiros está batendo em ritmo acelerado mas não a ponto de desembestar até o risco do enfarto. O momento mais agudo da pressão emocional já passou. Foi o jogo com a Holanda, na semifinal de Marselha. Ali, sim, o Brasil viveu a tarde das ambulâncias; a noite dos eletros. Brasil, rima rica de isordil.
Mesmo levando em conta que o Stade de France estará coalhado de franceses. Mesmo considerando que a multidão sempre dá um peso maior ao canto da Marselhesa. Mesmo sabendo que a seleção francesa de hoje é formada de jogadores calejados pelo duro campeonato italiano, onde sete deles jogam o ano inteiro, mesmo assim, não há como deixar de conceder ao Brasil a patente de favorito. Mesmo que não se queira invocar a tradição, basta citar nomes como Ronaldo, Rivaldo, Bebeto, Denílson, Dunga, Taffarel pra realçar a distância entre o Brasil e a França em matéria de futebol.
Longe de mim, predizer a vitória do Brasil. A França tem uma equipe brilhante e competitiva. Manda a experiência que, em qualquer análise de futebol, não se pode ignorar um mistério que se sobrepõe às tantas normas que regem o futebol: é a gloriosa, a sublime, a divina incerteza do esporte.
Como diz o poeta Lorca, a luz do entendimento me hace muy comedido.
Um emblema de Deus
Os franceses falam da final com grande alegria. Não esperavam tanto de sua seleção. Mas estão preocupados com Ronaldo e com Taffarel. Um, pelos gols que é capaz de fazer; o outro, pelos gols que é capaz de evitar.
Taffarel é Atleta de Cristo. Em todas as entrevistas que tem dado, depois da noite heróica, ele não deixa de louvar as mãos de Deus que o ajudaram a pegar os dois pênaltis com os quais salvou a pátria, na decisão com a Holanda.
Nos minutos finais do jogo, Taffarel fez uma defesa ainda mais prodigiosa que as duas que o levariam, de vez, à imortalidade do futebol. Ele saltou lateralmente e, na horizontal, estendeu o braço, desviando a bola, com um reflexo milagroso. Lembro-me bem do gesto: era como se houvesse luz na ponta dos dedos de sua mão.
- Foi a mão de Deus! - confessa ele, em contrição.
Há muitos anos, conheci um goleiro que não acreditava em milagre divino. Chamava-se Oswaldo Balisa. Defendia o gol do Botafogo. Um dia, voltava a equipe de uma partida duríssima contra o Canto do Rio, um timinho de Niterói. Oswaldo Balisa tinha tomado um gol de bola dócil. Na travessia da barca da Cantareira, os colegas encarnam nele:
- Aquela foi um frangaço!
- Frangaço, não. Frangaço, uma ova - respondia Balisa, concluindo, de consciência leve:
- Aquela bola nem Cristo pegava!
Sentado no banco da frente, Carlito Rocha, devoto de todos os santos, um renomado místico, levantou, aos berros:
- Cale essa boca, seu herege! Engula essa blasfêmia! Fique sabendo que Cristo pega tudo! Cristo pega tudo!
Taffarel, bendito o goleiro que faz das suas mãos um emblema de Deus.
Não tem preço?
Joseph Blatter dá a mão à palmatória e reconhece: 1) a Copa do Mundo não pode ser tão longa: 32 dias, 64 jogos, é um disparate; 2) o intervalo de seis dias entre os jogos da primeira fase é um contra-senso; 3) o Comitê de Disciplina da Fifa não tem o direito de fazer vista grossa à omissão da arbitragem que teima em deixar correr solto o agarra-agarra em qualquer lugar do campo. Como se os jogadores estivessem ali pra demonstrar quanto é resistente o tecido de que são feitas as camisas; 4) a salvação do futebol é a profissionalização dos árbitros. De tal modo que os juízes possam dedicar tempo integral ao zelo da forma atlética e ao apuro do conhecimento teórico e prático do ofício.
Aliás, esse mesmo Blatter, que é homem de meter a mão na massa, tem uma boa idéia sobre arbitragem: ele quer estimular a formação de juízes, dando preferência a ex-jogadores de futebol. Um craque como Rivelino ou Gullit, por exemplo, conhece todas as artimanhas do jogo. Quem já jogou é capaz de distinguir entre a boa e a má fé numa entrada em bola dividida.
Blatter prevê remuneração compatível com o calvário que é ser juiz de futebol. Nada mais razoável. Afinal, se é pra ouvir a multidão xingar-lhe a santa mãe aos berros, que, ao menos, a difamação seja recompensada a peso de dólares.
Rápidas e rasteiras
A seleção francesa vê o Brasil. Aymé Jacquet, técnico da seleção: Nós vamos enfrentar os mestres do futebol mundial. É fabuloso. Didier Deschamps, capitão: Será o talento individual contra um bloco coletivo. Bixente Lizarazu, lateral-esquerdo: O Brasil disputou uma prorrogação. Está cansado. Stéphane Guivarch, atacante: Temos que investir no jogo aéreo. O Brasil não tem defensores gigantes. Zinedine Zidane, atacante: Nós estaremos presentes e só nos resta ganhar o título.
Ronaldinho morreu, viva Ronaldo é assim que LEquipe define a espetacular performance do atacante no último jogo contra a Holanda: Eis o monstro. O terror. Aquele que todos os defensores temem. A Copa fez tanto por ele, quanto ele fez pela Copa. Jogador na alma, o brasileiro mudou. Ronaldinho cresceu e se tornou Ronaldo.
Colaboram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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