Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - Taffarel nunca fez a minha cabeça. Ou melhor, fez sim. Antes da Copa de 90, não havia goleiro melhor no futebol brasileiro. Era de uma sobriedade rara pra um moço de apenas 24 anos. Com o tempo, em vez de apurar as virtudes de seu ingrato ofício, Taffarel veio perdendo pontos no conceito da torcida. Começou a tomar gols que não recomendavam a imagem de um goleiro de elite. Taffarel ficou blasé, sei lá. Cometia erros imperdoáveis.
Mesmo aqui, no Mundial, Taffarel andou nos pregando algumas peças, ora hesitando em intercepções aéreas, ora cometendo imprudências como tentar driblar atacantes no pedaço sagrado da grande área.
Taffarel, o temerário.
Pois foi na partida contra a Holanda que eu vi ressuscitar o goleiro da unanimidade nacional. Isso mesmo, a única unanimidade da seleção, no ano de 90. Uma pesquisa de opinião mostrava, então, que só um jogador, entre os 22, merecia a confiança de cem por cento da torcida brasileira: era Taffarel. E foi assim, devidamente canonizado, que ele embarcou com o Brasil naquela desditosa expedição do Mundial de 90, na Itália.
Agora, em três chutes de gol, no jogo contra a Holanda, Taffarel salvou sua meta, com três defesas magistrais em que impressionou pela virtude, a meu ver, primordial de um goleiro, que é a colocação. Estar sempre no lugar certo, no momento certo, pra neutralizar o chute certeiro. O que mais empolga a torcida num goleiro é o reflexo. O narrador se esgoela todo, celebrando o gesto quase sempre acrobático. Muito justo. Na verdade, porém, o que consagra mesmo um goleiro é o senso da colocação. Invariavelmente, a colocação precede o reflexo.
Na liturgia dos pênaltis, terça-feira, Taffarel voltou a deitar cátedra. Defendeu duas cobranças com impressionante categoria. Foram dois chutes executados com boa precisão pelos holandeses. Taffarel confessaria, depois do jogo, que seu segredo é observar, com o máximo de acuidade, de atenção, as atitudes de quem vai chutar o pênalti. A maneira de andar, o semblante.
Principalmente, Taffarel não deixa de fitá-lo olho no olho. Geralmente, quando o cobrador olha, discretamente, pra um lado, é quase certo que já escolheu o lado oposto, diz Taffarel, de certa forma escancarando o pulo do gato. Às vezes, o goleiro tem que intuir que o chutador está dissimulando. É mais ou menos como aquela conversa entre José Maria Alkmin e Magalhães Pinto, que se encontram no aeroporto. Alkmin troca em miúdos pra sua comitiva o papo com a outra raposa: O Magalhães disse que vai pra São Paulo pra eu pensar que ele vai pra Juiz de Fora, mas, na verdade, ele vai mesmo é pra Juiz de Fora...
Taffarel já entrou na história do futebol como o goleiro que converteu em ciência exata a arte de defender pênalti. Enfim, ele acaba de consagrar a máxima que um dia me ocorreu: o pênalti é sentença de morte em que a vítima é o carrasco...
Um instante de criança
Os brasileiros chutaram quatro pênaltis. Acertaram os quatro. Cada um cópia perfeita do outro. Bola pelo alto, em trajetória ascendente, passando entre o goleiro e a trave vertical. Os destros bateram, invariavelmente, pro lado direito do goleiro. O único pro lado esquerdo foi o do canhoto Rivaldo.
Estará consagrada a teoria de que o pênalti, em trajetória ascendente, se torna praticamente indefensável? Nos dois pênaltis perdidos pelos holandeses a bola chegou abaixo da cintura do goleiro. No clã brasileiro, o único pênalti cobrado com relativa imperfeição foi o de Emerson. A bola entrou no meio das traves. Se o goleiro Van Der Sar não tivesse se atirado, lotericamente, pro lado esquerdo, teria defendido.
Quando Zagallo avisou a Emerson que ele também ia cobrar um pênalti, o coitado, sem saber o que dizer, enfiou a camisa no rosto e ficou, assim, uns dois minutos, como uma criança que fecha os olhos pra não ser vista por ninguém.
Rápidas e rasteiras
- Rinus Michel, o criador do carrossel holandês, não suportou a emoção do jogo Holanda x Argentina. Em pleno estádio, enfartou. Está no hospital e foi proibido de ver, mesmo na televisão, em compacto, o jogo Brasil x Holanda.
Dica que me dá, pelo telefone, um amigo carioca, a respeito da tensão do jogo de anteontem: Passando de carro pela rua São Clemente, cruzei com umas vinte ambulâncias, de sirenes acesas. E conclui a minha fonte: Tinha mais ambulâncias na rua do que no confisco do plano Collor.
O leitor Fabiano Bastos manda um e-mail, em que lamenta que eu esteja despejando na seleção minhas brigas pessoais com o técnico Zagallo. Diz que o futebol brasileiro deve estar acima de picuinhas. Não sei de onde esse simpático torcedor foi tirar a idéia de que sou desafeto de Zagallo. Temos relações profissionais de bom nível. Nem falo de amizade porque o meu ofício de crítico não me permite ter amigos no poder. Meu bom Fabiano: julgar as pessoas pela aparência é, no mínimo, temerário.
Dou um doce a quem me disser que viu, em qualquer jogo, em qualquer estádio, em qualquer tribuna, Ricardo Teixeira ao lado do presidente Havelange. O leite azedou e, pelo visto, pra sempre.
O sonho de disputar a final da Copa do Mundo contra a seleção brasileira se transformou em realidade para a França. Méritos de um time que possui jogadores talentosos - como Thuram, Zidane, Dessailly - e que jogará pra vencer, sempre com refinada categoria. Quarenta anos depois da Suécia, o Brasil encara, na final da Copa, a dona da casa. Uma decisão histórica.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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