Na grande área (Armando Nogueira)
Na grande área (Armando Nogueira)
E, agora,
à decisão!
PARIS - O Brasil passou raspando mas passou. Está na final. Há jogos em que o futebol assume o feitio de uma partida de xadrez. As duas equipes trocam os pés pela cabeça. Pensam antes de mover as pedras. Em vez de trocar passes, os jogadores como que trocam idéias.
Foi assim que vi o primeiro tempo de Brasil x Holanda. Em nenhum momento, alguém ousou atacar a todo custo. Há muito que não se via, na Copa, tamanho zelo com a bola. Sinal de respeito recíproco.
Não era isso que se esperava. Pelo menos, a retórica dos dois treinadores era de que o jogo seria franco, desassombrado. Pois sim. A tônica do 1º tempo foi a cautela. A tal ponto que o ritmo foi arrastado. O passe era medido, pesado, enquanto o drible, esse poderoso fundamento do jogo, ficou no vestiário.
No 1º tempo houve apenas 12 faltas, sete holandesas e cinco brasileiras. Um índice que exprime a esportividade da partida.
Na Copa, cifra inédita.
O segundo tempo foi um pouco mais animado. O time brasileiro acelerou o ritmo, com uma transição de bola bem mais esperta. A alternação de cadências com Rivaldo e Ronaldo criou sérios riscos à defesa holandesa. Nada, porém, fazia crer que a Holanda pudesse sobreviver à vitória parcial do Brasil. Dá-se, então, uma clamorosa omissão de Junior Baiano que assistiu, acocorado, à subida de Kluivert pra cabeçada mortal. E lembrar que Junior Baiano é escalado justamente por ter estatura de gigante. Quase dois metros. Como é possível um zagueiro se furtar a saltar com o atacante na pequena área? Uma pixotada que levaria o jogo para a prorrogação. Por sinal, abençoada prorrogação que abriria o caminho da redenção pelos erros brasileiros no segundo tempo.
Noite heróica de Taffarel, o goleiro que nasceu pra provar que, no pênalti, a vítima é o carrasco.
De tirar o chapéu
Os franceses que se cuidem. O jogo, de hoje, no Stade de France, pode lhes sair pior que a encomenda. Queriam a Croácia pra se livrar da Alemanha. Acontece que a Croácia, que chegou até aqui sem pedir licença a ninguém, revelou-se uma seleção movida à força do talento e de outro ingrediente que se costuma subverter a teoria do futebol que é a superstição. Quem já não viu o quepe do gendarme (policial) na cabeça do técnico croata Blazevic? Pois o homem, uma simpática raposa, transformou em trunfo de sua equipe o drama de um policial francês. No dia em que um guarda de Lens foi linchado por baderneiros alemães, um colega da vítima, conhecido de Blazevic, pôs-lhe na cabeça um quepe da corporação, fazendo-lhe um apelo humanitário: Se você usar esse quepe, o meu colega sobreviverá.
Desde então, Blazevic fez do boné um objeto mágico do qual emanam fluidos benfazejos, tanto pra saúde do policial como pro destino da Croácia na Copa. Ambos sobrevivem. O quepe-fetiche vai de quarto em quarto, pernoitando com os jogadores, talismã que já começa a incomodar os franceses. Os jornais acusam o manso Blazevic de estar manipulando um gesto caridoso. O quepe que deveria simbolizar a esperança de salvação de uma vida humana converteu-se em amuleto pra ajudar a Croácia a ganhar da França, hoje.
Enganam-se os franceses. A seleção da Croácia não se sustenta somente na fé. Trata-se de uma equipe bem servida de craques: Suker, Boban, Jarni, Vlaovic são estrelas que brilham em grandes clubes italianos e espanhóis. Boban, o capitão, é o craque-símbolo da seleção. É herói nacional.
A seleção francesa é forte. Tem uma defesa quase inexpugnável. Todo mundo aplaude a franqueza com que joga, buscando o gol. É verdade que seu ataque figura entre os mais estéreis da Copa. Contudo, a França está aí por seus méritos. Fez um grande favor ao mundial, quando, em boa hora, despachou a Itália. Uma graça só comparável à que a Croácia concederia ao futebol, derrotando a Alemanha, sem dó nem piedade.
Se a França quiser chegar à final da Copa, que jogue muito bem, hoje. Porque, com quepe ou sem quepe, quem gosta de futebol tem que tirar o chapéu pra essa pequena porém tinhosa Croácia.
Rápidas e rasteiras
- A França não está levando na brincadeira a semifinal com a Croácia. Quem viu jogar a seleção croata sentiu que por trás dos jogadores há uma população de quase cinco milhões de criaturas, buscando se afirmar como nação. Vejam o que dizia, ontem, na televisão francesa, o técnico Blazevic: Nós temos uma motivação extra. Queremos mostrar ao mundo que a Croácia existe.
- Zvonimir Boban, capitão da seleção croata, define assim o jogo de hoje: A França é uma fruta no alto da árvore, mas, não é um fruto proibido.
- No futebol, a Croácia tem apenas seis anos de existência. Entrou na Fifa no ano de 1992.
- O jornal inglês Daily Mail, de Londres, cobre de confete o treinador Zagallo. O mínimo que o jornal diz é: Obrigado, Zagallo. O técnico brasileiro é um homem decente, um treinador inteligente e, sobretudo, um homem do futebol.
- O futebol não é mais misógino, pelo menos na França. Uma pesquisa feita pelo Centro de Pesquisa e de Inovação na Mídia diz que 32 por cento do público telespectador, nessa Copa, é de mulheres. Em média, o público feminino assiste a 40 minutos de uma partida, o homem, em média, vê 55 minutos. Das partidas até aqui jogadas, a mulher viu uma média de quatro jogos, e os homens, oito.
- Nas lojas de esporte, a corrida é entre Ronaldinho e Zidane. Se no começo da Copa, todo mundo só queria vestir a camisa nove do Brasil, agora, depois da performance da seleção francesa, a camisa dez da França é a que dispara nas vendas.
- O futebol da Dinamarca fica órfão dos irmãos Laudrup. Primeiro, foi a vez de Michael Laudrup, 34 anos, agora, Brian, de 29 anos, abandona a seleção dinamarquesa: Estou farto de futebol.
- Campeões Olímpicos de handebol em Atlanta, os croatas são apaixonados por esporte. Onde entra bola eles se dão bem. Seja no basquete, tênis, pólo aquático, e futebol.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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