Na grande área (Armando Nogueira)
PARIS - Se a conta não está errada, há 20 mil brasileiros, por aqui, ligados no mundial e, especialmente, no jogo de hoje contra a Holanda. Quem levou o trambique do ingresso virtual está pagando os olhos da cara pra ver o Brasil em Marselha.
- E o Zé Carlos? - me pergunta, angustiado, um jovem de Poços de Caldas, chegado numa dessas excursões, com 24 meses pra pagar.
- O Zé Carlos - respondo eu - vai muito bem, obrigado. O torcedor é uma pessoa tão simpática, tão cordial, e parece tão aflito, que resolvo contar a história da final de 58, na Suécia, exatamente há 40 anos.
A Seleção Brasileira tinha acabado de dar uma surra de cinco a dois, na França. Era a França de Raymond Kopa e de Just Fontaine, dois luminares do futebol europeu, no momento. A vitória deixara todo mundo contente. Só restava um jogo que seria contra a anfitriã.
Na véspera, em um mero bate-bola de desintoxicação, o lateral De Sordi sente qualquer coisa num músculo da perna. De noite, um exame mais detido barraria do jogo final o titular. A comissão técnica ficou na moita, não contou a ninguém que haveria uma substituição na equipe. Só de manhã, no dia do jogo, Djalma Santos ficou sabendo que ia jogar.
Anos depois, conversando com o médico Hilton Gosling, ele me revelava que, quando Djalma Santos ouviu de Feola que a comissão decidira escalá-lo, o jogador escancarou os olhos, sem dizer nada:
- Fitei os olhos dele - contaria o médico - e parecia que não tinha a chamada menina dos olhos. A bolinha preta do olho tinha sumido. O olho tinha ficado todo branco!
Na hora da verdade, porém, Djalma Santos não só fez esquecer De Sordi como acabou com o jogo. Tirou de letra o grande desafio. Acabou nivelado ao outro Santos, o Nilton, formando a dupla de laterais da seleção eleita a melhor da Copa por um júri de jornalistas europeus.
Zé Carlos não tem os pulmões de Cafu, mas tem a alma leve dos craques de verdade. Não terá, talvez, a audácia ofensiva do titular, mas não vai matar ninguém do coração. Zé Carlos sabe jogar e tem um astral de quem nasceu pras grandes aventuras da vida.
Nada melhor que seja assim. A partida com a Holanda deve se decidir muito no plano mental, e é de jogadores pra cima que o Brasil precisa, hoje, mais que nunca. Tecnicamente, taticamente, a Holanda é uma equipe de respeito. Coletivamente, impressiona bem mais que o Brasil. No plano psicológico, porém, está aquém de seu próprio nível técnico. Recorro a uma autoridade.
Johan Cruyff entende melhor que ninguém de futebol holandês. Ele é o símbolo do que melhor já fez a Holanda, no Ajax e na seleção. Pois Cruyff nos passa o seguinte perfil da atual equipe Laranja:
- A Holanda é uma equipe irregular. É capaz de fazer o melhor e o pior na mesma partida. Os jogadores têm dificuldade de jogar sob pressão psicológica. Quando se sentem pressionados, não sabem o que fazer pra virar o jogo a favor deles.
Aí está uma partida ideal pro corte moral de Dunga. Numa hora dessas, uma chispa de fogo no olhar de um bom capitão vale mais que um gol. Pode valer a vitória.
A França plural





