PARIS - Rinus Michel, técnico que concebeu o carrossel holandês, faz uma confissão interessante: ‘‘o plano de jogo com que a Holanda surpreendeu e encantou o futebol mundial, na Copa de 74, foi inspirado na seleção do Brasil, campeã de 70, no México, com Zagallo no comando técnico’’. A revelação foi feita num simpósio de futebol, realizado em Paris, no começo da semana. Michel, que está aposentado, disse na palestra que o futebol não resistirá muito tempo à esterilidade ofensiva. Os técnicos têm que encontrar novas fórmulas de ataque. As equipes não têm feito outra coisa senão se esmerar na ciência de defender. Lastimou que o futebol total da Holanda tenha sido deformado por imitadores sem imaginação. Da noite pro dia, o futebol mundial passou a fazer do ‘‘pressing’’ uma arma de defesa, quando a intenção, pressionando oá adversário em seu próprio campo, era ter a posse de bola pra voltar a atacar com força total.
Os números reforçam a posição de Rinus Michel: a Copa, até agora, não conseguiu ir além de 2,6 gols por partida, o que constitui cifra modesta demais. Basta lembrar que na Copa de 70, em apenas seis partidas, a média foi de três gols por jogo.
Um bom conselho...
É ex-jogador, solteirão inflexível, mas está sob pressão da namorada que vive telefonando do Brasil, querendo uma decisão: casa, não casa, como é, rapaz? Ele, então, achando que sou bom conselheiro, quer ouvir minha opinião sobre casamento.
Nada melhor do que contar a conversa de Sócrates, o imortal filósofo grego, com um de seus discípulos que queria uma palavra do Mestre sobre casamento: ‘‘Se você casar com uma mulher que seja uma boa pessoa, certamente, você será infeliz. Se casar com uma mulher má, então, você virará um filósofo, o que não deixa de ser bom pra um homem...’’
Rápidas e Rasteiras
• Avaliação de Platini: ‘‘Nesse mundial, estamos vendo muito mais contra-atacantes que atacantes. Há poucos criadores.’’ Platini está chovendo no molhado. O drama do futebol, há tempo, é falta de imaginação.
• Andreas Möller é um dos melhores jogadores da Alemanha. Mas tem jogado mal e, por isso, foi relegado à suplência. A mulher dele, Michaela Möller, não admite que o marido seja rebaixado. Esperou dois jogos, no terceiro, invadiu a concentração e tentou arrebanhar o marido: ‘‘Vamos embora pra casa!’’, gritava a madame, colérica. Möller preferiu baixar a bola. A mulher se mandou pra Alemanha, sozinha. Depois da Copa, não sei, não.
• Estudo do jornal L’Équipe: até aqui, a seleção da França é a que mais tempo passou com a bola controlada no campo do adversário. Ficou quase 70 por cento do tempo; mais precisamente, 67,2 por cento. Em segundo lugar, vem a Argentina, com 65,8 por cento ; depois, Alemanha, com 63 por cento; e Holanda, com 56,9 por cento. Em quinto lugar, a Dinamarca, com 44,9 por cento; e, em sexto, o Brasil, que fica só 43,8 por cento do tempo no campo do adversário. A Itália fecha a raia, com 36,3 por cento. Conclusão: pra variar, a palavra de ordem da Copa é prudência. Ou, sem eufemismo: retranca.
• O atacante Vieri, revelação italiana da Copa, joga no Real Madrid. Quando o via em campo, me lembrava de uma cena comovente: na partida seguinte àquele estúpido carrinho que arrebentou o tornozelo de Juninho, Vieri, ao comemorar um gol, tirou a camisa embaixo da qual trazia a de Juninho. Um gesto de solidariedade que emocionou a multidão.
• A Copa do Mundo tem conseguido calar até os canhões, sempre em alerta, no sul do Líbano, zona crítica ocupada por Israel. Os militantes chiitas do Hezbollah tem dado uma trégua aos conflitos na hora dos jogos. A atividade militar, na região, diminuiu em 80 por cento. Nos territórios palestinos, a guerra de pedras também cedeu aos encantos do mundial. Um toque de recolher em nome do futebol.
• O inglês Beckham, de temperamento tórrido, pode perder o contrato de garoto-propaganda que tem com a Adidas. O playboy do Manchester United sai da Copa como a ovelha-negra do English Team por ter sido expulso, deixando sua equipe com dez na partida épica contra a Argentina.
• Uma coisa que vim descobrir, lendo em Jorge Valdano, que escreve no El Pais, de Madri: ‘‘Nos anos 40, jogava no Vasco da Gama um argentino chamado Gandulla. Sempre que a bola saía aos lados, Gandulla, invariavelmente, ia apanhar a bola e entregava ao cobrador do lateral. Fosse do time dele ou não.’’ Daí, a origem da palavra que define o garoto que fica apanhando a bola na lateral do campo. Si non é vero, é bene trovato.
• Ambientalistas do mundo inteiro mandaram um fax à FIFA, protestando contra as cenas de fumo explícito dos técnicos durante os jogos da Copa. Acham que é um estímulo ao vício de fumar.
• Platini dá uma sutil alfinetada no presidente Havelange, a quem se atribui a opinião de que o gol de Maradona, com mão, em 86, fez bem ao futebol porque gerou polêmica. Diz Platini que, como ex-jogador, não poderia jamais endossar semelhante posição.
• O Arco do Triunfo é uma espécie de muro da lamentação de brasileiros que caíram no conto do ingresso virtual. Tenho sido procurado por centenas de pessoas que pagaram e não receberam as entradas. Estão vendo o Brasil pela tevê. E ninguém sabe quem é o responsável pelo trambique: as agências culpam a CBF; a CBF passa a bola pro Comitê Francês da Copa; os franceses culpam a FIFA; a FIFA, certamente, culpa a ONU que, por sua vez, culpa a Corte de Haia que vai acabar remetendo a questão ao Juízo Final.
• As moças não dão trégua. Em todas as circunstâncias, há um cerco feminino ao reinado dos craques, sejam eles brasileiros, italianos, argentinos, holandeses ou franceses. As chefias da delegação se queixam, achando que as mulheres perturbam a concentração mental dos jogadores. Mal sabem que as moças apenas seguem uma antiga lição de amor: se queres desposar um rei, frequenta a corte...
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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