Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - O Brasil passou por mais uma. Venceu deixando claro que a defesa é extremamente vulnerável. Qualquer ataque leva pânico à pequena área.
O começo do jogo foi um bom exemplo do mal que pode causar a uma equipe um lapso de desatenção. Um defesa inteira envolvida pelo espírito de iniciativa do capitão Laudrup. Cobrou a falta incontinente, enquanto os brasileiros, distraídos, esperavam um apito que a regra não exige do árbitro. Daí, nasceu o gol dinamarquês.
Ainda bem que uma trama em velocidade permitiria a Bebeto receber um passe cristalino que sua serenidade soube converter em gol. Uma bela ação que abriria o caminho da vitória, parcial, conquistada em nova troca de passes. Mais uma vez, Ronaldinho foi a ponte de uma assistência impecável. Gol de Rivaldo.
Jogo no fim da noite mal dá tempo pra aprofundar considerações sobre a equipe brasileira. Bem que a seleção merece uma análise mais detida de sua espantosa intermitência.
Dois a um no primeiro tempo. Prelúdio de uma segunda etapa que poderia ter sido à feição do Brasil. A equipe vacilou. Vai aos poucos cimentando o caminho à final com uma exibição bem razoável.
E deu branco...
Há quantos Mundiais vejo a Itália chegar como quem não quer nada, continuar não querendo e sair, mesmo campeã, sem jamais ter querido. É espantoso como a equipe atravessa Copas e mais Copas, sem outra intenção, a não ser negar o futebol ofensivo. Defendeu-se, contra a França, o jogo inteiro. No primeiro minuto, já congelava a bola. A impressão que dá é que, pros italianos, o campo se resume à sua grande área. É aí que seus jogadores exercem, há séculos, o seu catenaccio, sinônimo de ferrolho.
A Itália acabou levando a partida à prorrogação, seu túmulo. É a terceira Copa seguida que a retranca italiana acaba na decisão por pênaltis. Vence a França, que passou 120 minutos ousando, buscando um gol. Nada mais justo que seja ela a semifinalista. Pelo menos, é garantia de um futebol franco, de peito aberto, de risco, como deve ser a grande aventura do futebol.
Pela primeira vez nessa Copa, a França trocou o uniforme. Vestiu branco, em vez de azul. Deu certo.
A história nunca falou bem da França no confronto com a Itália. O retrospecto chega a ser constrangedor. Entre os anos de 1920 e 1982, a França jogou dezenove vezes contra a Itália. Perdeu dezenove vezes! Nesse rosário de insucessos aparecem uma goleada de sete a zero, e outra, de cinco a zero.
Era um tempo em que a França já perdia da Itália na véspera. Por um sentimento de inferioridade que crescia a cada derrota. Os franceses nutriam pelo futebol italiano mais que uma admiração, submissão, mais que submissão, subserviência. Como bem relembra Didier Braun, cronista de LEquipe, aos olhos franceses, tudo na seleção italiana era trop: os jogadores eram bem mais fortes, a camisa azurra era por demais intimidante.
Até que Platini foi jogar na Juventus, de Turim. Sempre que visitava a França, Platini trazia um gol, uma vitória, uma conquista pessoal que o craque convertia em trunfo de afirmação do futebol francês. Devidamente desmistificado, o futebol italiano acabou visto com naturalidade pela França. Nasciam os novos tempos. O jogador francês entrou no mercado italiano em igualdade de condições com brasileiros, argentinos, ingleses e alemães. A vitória de ontem foi a prova de que já vai longe o tempo em que a França entrava em campo já moralmente derrotada pela Itália.
Esplendor em Marselha
Argentina x Holanda, Alemanha x Croácia. Futebol de esplendor, em Marselha, futebol sem sabor, em Lyon. A Alemanha tem sido a equipe mais sem graça da Copa. Vence, merecendo perder. A Croácia, por sua vez, joga com mais versatilidade mas padece do mesmo mal que os alemães: envelheceu e não sabe. A diferença entre os dois é que se a Alemanha procura ficar ligada na partida o tempo todo, a Croácia se deixa assaltar por frequentes falhas de concentração. De repente, dá um branco e a equipe croata ou concede um gol ou perde outro praticamente feito.
Quem vencerá? Embora tenha penado em todos os seus jogos, a Alemanha deverá se impor, menos pelo que tem jogado e mais pelo que representa na história da Copa do Mundo.
Em Marselha, a bola deverá rolar diferente. Não faltará ardor e, principalmente, talento individual e coletivo. Argentina e Holanda confirmaram nesse Mundial o alto conceito de seu futebol, ao longo do tempo. Não são duas superequipes. Aliás, superequipe não apareceu na França. A Holanda, porém, alcançou um rendimento coletivo que lembra um pouquinho os bons tempos de Cruyff e Resenbrink.
Se a Argentina não tivesse passado os maus bocados que passou contra a Inglaterra, dias atrás, estaria, hoje, vivendo o papel de favorita. Desde a era Maradona, os argentinos não têm uma seleção tão marcante. É forte fisicamente, forte tecnicamente, forte mentalmente. Acontece que a prorrogação contra a Inglaterra foi tão intensa que dificilmente a Argentina poderá exibir fulgor.
É verdade que alguns craques foram poupados do sacrifício maior. Batistuta, Simeone e Lopes saíram antes da prorrogação. Além de Sensini que, machucado, nem jogou. A equipe saiu do jogo muscularmente degradada. Observa o fisiologista francês Rochcongar que uma equipe de futebol sofre, em 90 minutos, um desgaste físico comparável ao de um maratonista.
A equipe da Argentina teve que ir mais longe: além dos 90, precisou correr mais trinta de prorrogação, e, ainda, sofreu uma aguda espoliação mental na aventura lotérica dos pênaltis. Claro que o fisiologista sabe que o fundista corre 42 quilômetros e o jogador de futebol apenas dez. O diabo é que, nos dez quilômetros de uma partida, o atleta salta, sofre desequilíbrios, acelera e desacelera, enfrenta choques corporais, numa soma de traumatismos musculares que deixam sequelas por dois ou três dias.
Se a Argentina tiver elã pra se superar mais uma vez, aí, então, estaremos diante de um temível candidato ao título.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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