Na grande área (Armando Nogueira)
PARIS - O funil começa a estreitar. Hoje, o Brasil tem mais um passo de gigante a dar na escalada do Mundial. Será que a Dinamarca pode ser uma pedra no caminho da Seleção? Sem dúvida que é, mas poderia ser bem pior. A França, por exemplo, tem, não uma pedra, mas uma autêntica pedreira pela frente, que é a Itália. Os italianos, por sua vez, devem estar vendo a França com o mesmo olhar de preocupação.
O mínimo que se espera é que os craques brasileiros tenham acompanhado, com o máximo de atenção, a palestra que fez no Château de la Grande Romaine, anteontem à noite, o espião Gilmar. Ele exibiu teipes que mostram como joga a seleção escandinava. Dossiê mais completo é impossível. Gilmar está bisbilhotando a vida do adversário desde o começo do ano.
Em 30 minutos de exibição, discorreu sobre o perfil do rival brasileiro de hoje. Mostrou que a seleção dinamarquesa gosta de trocar passes, numa espécie de ciranda pra atrair o adversário. Faz a bola circular com grande habilidade. Não é de precipitações ofensivas e, quando perde a posse da bola, se dispõe em campo com inteligência. Os dinamarqueses têm, porém, um defeito: se o rival avança por uma lateral, eles convergem, em bloco, pra aquele setor, o que, segundo se vê no teipe, acaba por oferecer amplos espaços no lado oposto do campo. Daí o importante papel que estará destinado aos alas Roberto Carlos e Cafu.
Gilmar deixou bem claro que eles não são nada bobos. Entre os jogadores, a voz corrente é que todos preferiam a Nigéria à Dinamarca. Nada mais razoável. Os africanos, de um modo geral, são menos aplicados na hora de defender. O forte da escola européia sempre foi a inclemência da marcação em seu próprio campo. A Dinamarca não destoa, embora seja uma equipe mais técnica que as outras da Escandinávia, notadamente a Noruega, que é a mais britânica das equipes européias.
Sinceramente, não dá pra comparar a tarefa do Brasil com a das outras grandes potências do Mundial. Depois do Chile, vem a Dinamarca. A Argentina, que venceu a Inglaterra, em jogo dramático, ainda tem pela frente um rival indigesto: a Holanda.
O único problema dos brasileiros, a meu ver, é mental. Em que estado de espírito a equipe entra em campo, hoje? Gostaria de ter absoluta certeza de que os jogadores não estarão confundindo autoconfiança com auto-suficiência, coisa que tem acontecido, aqui e ali, com alguns deles.
Não há de ter sido por acaso que, anteontem à noite, depois da exibição dos teipes de Gilmar, a comissão técnica deu a palavra ao psicólogo Evandro Mota, o homem que desde o Mundial de 94 faz a cabeça dos jogadores, na hora da onça beber água.
Agora, é pôr o coração no peito do pé e seja o que Deus quiser.
E se der um branco...?





