Na grande área (Armando Nogueira)
Na grande área (Armando Nogueira)
O Brasil,
de camarote
PARIS - Pode parecer futurologia, mas não é. Sinto que os fados estão montando as peças de tal modo que a final de 98, talvez, seja uma repetição da de 94: Brasil x Itália. Nem precisa acontecer muita coisa fora da lógica pro Mundial acabar nos pés de dois inveterados vencedores. Mesmo considerando que no bolo da reta final estejam a Alemanha e a Argentina.
É só analisar a tabela, começando pelos caminhos do Brasil. Sua próxima escala é a Dinamarca, amanhã, em Nantes. A hipótese de ir em frente é, no mínimo, plausível. A Dinamarca jamais passou de coadjuvante na Copa do Mundo. Chegando à semifinal, o Brasil topará ou com a Argentina ou com a Holanda. São dois bichos-papões que, já no sábado, estarão se entredevorando, num confronto tão antropofágico quanto foi Argentina x Inglaterra, anteontem.
O estrago não será pequeno, sábado, em Marselha. Pra Argentina, então, o jogo com a Holanda será um calvário. Haja pernas, haja mente, haja coração. A Argentina saiu de Saint-Étienne espoliada física e mentalmente. Exauriu-se tal como a Inglaterra. À luz da psicologia do esporte, a seleção argentina viveu uma noite de anticlímax. Atingiu seu pico muitos dias antes da hora certa, que é o jogo final. Normalmente, seja no esporte individual, seja no coletivo, quando isso acontece dá-se um fenômeno chamado virar o fio.
A Argentina terá três dias e meio pra recobrar as energias, físicas e mentais. É pouco. Do outro lado, estará a Holanda, depois de ter ficado cinco dias deitada em berço esplêndido. Além do que a Holanda é uma das equipes mais bem organizadas da Copa. Na teoria, pelas razões expostas, a Argentina deve tropeçar sábado. Ainda assim, se conseguir sobreviver, certamente acabará seus sonhos sentada no colo do Brasil, na semifinal.
O Brasil que não tem feito outra coisa, até agora, senão assistir de camarote ao genocídio que o sorteio programou pros demais favoritos. Inclusive, a Itália que, amanhã, pega um Saint-Denis lotado de franceses, cantando em uníssono a Marselhesa, esse belo hino que tem o dom de inflamar até defunto no túmulo do soldado desconhecido.
Se falar mais alto a tradição, a Itália despacha a França e parte, embandeirada, pra cima do vencedor de Alemanha e Croácia. Estamos falando de duas equipes que já não mereciam estar onde estão. A Croácia, que se autodenomina o Brasil da Europa, joga futebol, bocejando. São todos de muito boa técnica individual mas não costumam levar a sério uma bola. Me dão a idéia de um grupo de gênios sem lâmpada. Gênios do caos em campo.
E a Alemanha? Se o futebol fosse uma ciência exata, a seleção atual estaria bem de vida. Como não é, a equipe alemã pode ter vida breve. Envelheceu muito nos últimos oito anos. Seu drama é um reflexo da crise que vive a própria nação alemã: a parcela de jovens é menor que a de velhos na população do país.
Dificilmente a Itália esbarrará na Alemanha, sobre cuja seleção a própria imprensa alemã se refere como sendo uma carreta-gigante, tentando se deslocar sem diesel no tanque.
Claro, não fiz futurologia mas teorizei. Na prática, pode dar tudo às avessas. Aí, então, só me restará recorrer ao meu velho inspirador Nélson Rodrigues, que gostava de dizer: Se os fatos estiverem contra mim, pior pros fatos...
O fantasma do Maracanã
Está em Paris, vendo a Copa do Mundo, um ex-jogador alemão chamado Hans Novak. O homem tem histórias pra contar. Jogou na seleção alemã do começo dos anos 60. Era lateral-esquerdo, mais técnico que guerreiro.
Um dos capítulos mais interessantes da carreira de Novak foi vivido em pleno Maracanã, quando se jogava o amistoso Brasil x Alemanha, 2 a 0 Brasil. Partida, por sinal, marcada por um lance condenável pra reputação de Pelé. Numa dividida, Pelé, querendo revidar os pontapés que vinha sofrendo, entrou duro e quebrou a perna de um zagueiro alemão.
Como a partida fosse amistosa, o técnico Helmut Schoen podia fazer substituições. Chamou, então, Novak. Queria que o beque entrasse justamente pra marcar Garrincha. Novak fez uma cara de quem comeu e não gostou. Schoen falou duro:
- Você vai entrar e é já!
- Pra marcar esse Garrincha?
Aqui no Maracanã? Eu entrando frio, no meio do jogo? Não, Herr Schoen, me desculpe, mas eu prefiro ficar de fora.
Schoen deu o ultimato:
- Ou entra ou vai direto pro vestiário!
E Novak, peremptório:
- Então, eu vou pro vestiário!
E foi.
De olho na imprensa
A imprensa estende o tapete vermelho pra Argentina. A começar pelo francês LEquipe: Ao extremo do suspense - Depois de um jogo excepcional e vibrante, a Argentina acabou se impondo face a uma heróica Inglaterra. O jornal define o time de Passarella como uma mistura de fantasia e de rigor, de audácia e de sabedoria, de juventude e de experiência. O espanhol El Pais diz que foi uma vitória i-ne-vi-tá-vel. Pro italiano Gazzetta dello Sport, o urro de Ayala acordou a Argentina, mas a grande estrela do jogo foi o jovem prodígio Michael Owen. A manchete do irreverente The Sun é uma paródia da trilha sonora do musical Evita: Não chore por nós, Argentina. Já o The Times, de Londres, em tom solene, culpa o atacante Beckham pela derrota: Cartão vermelho, golpe na Inglaterra.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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