PARIS - Tenho uma escancarada admiração pelo futebol de Denílson. Há quatro ou cinco anos, Telê, então treinador do São Paulo, deu-me o toque: ‘‘Preste atenção num garoto que vai aparecer no meu time. Chama-se Denílson’’. Fiquei de olho. Nos primeiros dribles, vi que o futebol brasileiro tinha ganho um jogador pra história.
Denílson não é titular, mas quando entra na equipe faz-se a luz. Na partida contra o Chile deu dois passes esplêndidos: um de calcanhar, repassando a bola a Roberto Carlos, que entrava em alta velocidade; o outro, com açúcar e afeto, pro quarto gol, o segundo de Ronaldinho.
O jornal francês L’Equipe qualifica de fogos de artifício as duas intervenções de Denílson. Por sua vez, Ronaldinho não esconderia, numa entrevista pós-jogo, que a chegada de Denílson, jogando perto dele, foi um desafogo. Abriram-se novos caminhos à frente do artilheiro.
Quando alguém me pergunta em lugar de quem merece entrar Denílson, eu respondo, sem hesitação: Denílson tem que entrar no lugar dele. Isso mesmo. Denílson no lugar que é de Denílson.
Pra encerrar esse assunto, lembro que Zagallo já se definiu sobre o papel de Denílson. Considera que o garoto é o seu melhor trunfo, na hora de mudar o estilo de atacar da Seleção. Ainda no Brasil, Zagallo já tinha firmado a convicção de que ninguém melhor que Denílson na hora de mudar a cara da equipe. Donde se conclui: um jogador que é visto assim pelo técnico, já deixou de ser um simples reserva.
Se Denílson entra, infalivelmente no segundo tempo e sempre no lugar de Bebeto, podemos concluir que Denílson e Bebeto, ambos, são igualmente titulares e igualmente reservas, um do outro. Com uma pequena diferença: Bebeto é o reserva que entra primeiro...
Rivaldo sim, Rivaldo não
Tenho ouvido muita gente na bronca contra o ex-craque Beckenbauer. O ‘‘kaiser’’ do futebol escreve no jornal Bild e, há dois dias, fez sua seleção na Copa até aqui. Não escolheu um só brasileiro. A preferência de Beckenbauer, ao cabo de 52 jogos, é pelos seguintes jogadores: Mondragon, da Colômbia; Worns, da Alemanha; Hendry, da Escócia; Campbell, da Inglaterra; Petruscu, da Romênia; Lizarazu, da França; Ortega, da Argentina; Overmans, da Holanda; Batistuta, da Argentina; e Vieri, da Itália.
Sem querer jogar lenha na fogueira, pergunto aos descontentes: quem, do Brasil, eles incluiriam numa seleção (até agora)? De hesitação em hesitação, feitas as devidas comparações, o único brasileiro que merece citação é Rivaldo.
Curioso é que Rivaldo vive uma situação paradoxal: quando agrada à torcida, desagrada Zagallo. É o Rivaldo do drible, da arrancada perfuro-cortante, bola colada no pé, em vertiginosa corrida. Quando marca, quando cerca, quando abre caminho pra Roberto Carlos, Zagallo delira. E é aí que a galera esbraveja, achando que Rivaldo não está sendo nem sequer a sombra dele mesmo.
Em suma, ao Rivaldo da Seleção, nós preferimos o Rivaldo do Barcelona. Rivaldo, que não é bobo, está vendo mofar na reserva o admirável Giovanni, sua alma gêmea, justamente porque não desencarnou do Barcelona. E lembrar que Giovanni foi convocado justamente pelo que joga no Barcelona.
Tem razão um membro da comissão técnica que dizia, outro dia, cochichando com uma amigo: ‘‘O Zagallo é uma esfinge’’. Decifrá-lo, quem há de?

RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Do alemão Klinsmann sobre a vitória sofrida contra o México: ‘‘Dizem que jogamos mal. Acontece é que essa é a nossa maneira de jogar. Nós não somos brasileiros’’.
- Pergunta de Rivellino, no Apito Final: ‘‘Por que os jogadores brasileiros terminam a partida sem dar sequer um adeusinho pra torcida? Por que tamanha indiferença?’’ É a fama, respondo eu; é a fama, essa impostora que, mal digerida, costuma envenenar a vida humana. Dizem que, quando o Senhor quer atormentar a alma de uma criatura, dá-lhe fama e fortuna.
- Relatório da comissão técnica da Fifa, depois de analisar 52 jogos do Mundial: até agora, os elementos predominantes no campo são o drible e a condição física das equipes. Observa também a Fifa que quase 50 por cento dos gols foram marcados, não por artilheiros, mas por jogadores de meia-cancha (haja vista a performance de César Sampaio). Por fim, o relatório registra uma sensível melhora do jogo em matéria de violência.
- Diz uma pesquisa de opinião que o francês está indiferente à Copa e que o público é incomparável em matéria de frieza. Será? E aquela multidão em Lens, cantando com fervor a Marselhesa, em pleno jogo, pra animar a seleção bleu-blanc-rouge? Foi um dos momentos mais agudos de chauvinismo que já presenciei ao longo de 13 Mundiais.
- O autor do gol de ouro da França, contra o Paraguai, foi o zagueiro Laurent Blanc. No primeiro momento, não entendi. O que estaria fazendo, ali, na pequena área guarani, um jogador de defesa da França? Aquilo não é normal. Zagueiro só faz aquilo num corner ou, mesmo, num lance de bola parada. Em bola corrida, nunca. À noite, encontrei a explicação: Blanc buscava, no minuto final, honrar a palavra dada ao filho, de que iria fazer um gol. E que gol!
- Na tribuna de honra, um brasileiro, certamente pouco inspirado, pergunta a João Havelange se, na Copa, ele estaria torcendo pelo Brasil ou pela França. Usando como vocativo um pesado palavrão, o presidente de honra da Fifa subiu nas tamancas: ‘‘Seu..., eu sou brasileiro! Em cada minuto, eu faço mais pelo Brasil do que você em toda a sua vida’’.
- Pensamento de alguém, cujo nome não me lembro agora: ‘‘O futebol não é uma questão de vida ou morte; é muito pior’’.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa EscobaR
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E-MAIL: [email protected]

mockup