A vitória da França a duras penas é o destaque nos jornais europeus. O L’Equipe, de Paris, consagra a primeira página ao gol decisivo. Diz que foi o literal ‘‘gol de ouro de Laurent Blanc, numa prorrogação irrespirável, depois de um jogo muito mal controlado’’. O Libération lembra que os franceses tiveram ‘‘um medo colossal, num jogo desorganizado, onde foram incapazes de marcar’’, e enaltece a equipe do Paraguai que ‘‘soube cozinhar a seleção francesa com um talento enlouquecedor.’’ Pro sisudo Le Figaro, ‘‘Laurent Blanc salvou a França’’, mas critica ‘‘a falta de percussão e precisão dos tricolores’’. Os jornais italianos seguem a mesma linha. Pro Gazzetta dello Sport, ‘‘Blanc devolve a cor à França, mas a equipe de Jacquet não demonstrou poder ofensivo, um defeito histórico acentuado pela ausência de Zidane’’. Enfim, o austero Times, de Londres, diz que ‘‘os Azuis se extasiaram quando deram um fim à agonia’’.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
Correspondências para ‘‘Na Grande Área’’: Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E-MAIL: [email protected] - Dia 30 de junho de 1958. Faz 40 anos, redondinhos. Chegava eu a Paris, vindo da Suécia. Na véspera, tinha visto a seleção do Brasil derrotar a anfitriã, oferecendo ao rei Gustavo V um recital de futebol jamais imaginado pelos europeus.
Em Paris, me tratavam sem as pompas, é verdade, mas com algumas circunstâncias de um campeão do mundo. O porteiro do hotel não me dava bonjour nem bonsoir. Me cumprimentava, invariavelmente, com um fraterno: Pe-lê!
Hoje, tocando meu velho barco em mais uma Copa, relembro a conquista brasileira, com infinda saudade. Poderia revivê-la num texto nostálgico. Quem sabe, até mesmo, recriá-la, pois uma das vantagens de ter vivido muito é poder retocar o passado.
Em nome da verdade histórica, porém, prefiro celebrar o triunfo épico de 29 de junho de 58, transcrevendo trechos de uma crônica que publiquei no livro ‘‘O homem e a bola’’, em que conto a primeira grande epopéia do futebol brasileiro em campos distantes:
‘‘Estocolmo amanhece embaixo d’água. A cidade é um imenso nevoeiro. Vai chover o dia todo. Dá vontade de sair pela rua, xingando os anjos do futebol. Afinal de contas, a Copa do Mundo não merece um céu tão feio assim no dia de festa.
A cara do estádio é desoladora: arquibancadas molhadas, tudo cinzento. Homero não teria imaginado tarde tão sombria para contar nas Ilíadas os jogos fúnebres em honra de um certo monarca grego.
Campo molhado! Era só o que faltava: Didi passou a noite em claro, pensando no jogo, preocupado com a chuva. Ele tem toda razão: todo mundo está cansado de saber que o jogador brasileiro só se entende bem com a bola em campo seco. Campo encharcado é coisa de europeu, que está acostumado a jogar nos campos gelados do inverno.
Bola em jogo. Os suecos atacam logo e, em pouco tempo, fazem o primeiro gol da partida, maldito fruto de uma competente ação coletiva de dez passes que começou antes do meio do campo e foi acabar nas redes brasileiras.
Golpe terrível.
Ninguém há de esquecer a cena seguinte: Didi vai ao fundo das redes, apanha a bola, mete embaixo do braço e sai com ela na direção do grande círculo, com um ar - eu quase diria superior se não existisse a palavra intrépido. Na passagem, fala qualquer coisa ao ouvido de Pelé e vai depor a bola no centro do campo.
A sorte está lançada, azar dos suecos. Começa o concerto. Os brasileiros avançam, trocando passes, envolvendo os adversários com jogadas ao mesmo tempo preciosas e devastadoras. Didi faz um passe longo, enviesado pra Garrincha. É o primeiro confronto com o lateral Axbom. Axbom tinha garantido pelos jornais, repetidamente, que sabia como anular Garrincha. Mentira! Tomou logo uma saraivada de dribles que o deixaria desabado na linha de fundo - ele e mais dois beques que tentaram ajudá-lo.
Bola cruzada, gol de Vavá.
Daí em diante, amigo leitor, o que se viu no campo de Rasunda não foi mais um jogo de futebol. Terá sido, certamente, a própria exaltação do futebol. Cada gol brasileiro que nascia, nascia do coração.
De repente, alguns jogadores começam a trocar passes, numa cirandinha contagiante. Bola de pé em pé: Nilton, Didi, Pelé, todos, tocando lindamente (a bola) em uníssono, acabam criando um instante musical no futebol.
O estádio inteiro bate palmas. E as palmas, casadas com a cadência do jogo, dão ao espetáculo a leveza de um balé - balé na grama.
Garrincha, o solista, está na linha de fundo. Três suecos fazem fila para tomar-lhe a bola. Ilusão boreal. Garrincha dribla os três. Na tribuna de honra, o rei morre de rir.
Agora, é a vez de Nilton Santos, que faz uma tabelinha com Zagallo e quase repete o belo gol que fez na Áustria, no começo da Copa.
Admirável artesão do futebol, nas tuas lúcidas aventuras de zagueiro ofensivo, a prefiguração dos laterais do futuro.
Nem parece que o jogo está terminando. A Seleção emociona o estádio com o seu recital arrebatador, tecendo na grama do Mundial, para sempre, a glória de Gilmar, Djalma Santos, Belini, Orlando, Nilton Santos, Zito, Didi, Garrincha, Vavá, Pelé e Zagallo.
O quinto gol é o fim do jogo. Começa o delírio.
Na infinita saudade desses 40 anos, ao revê-los, ungidos pelo aceno triunfal da multidão; ao revê-los, correndo pelo campo, abraçados, campeões do mundo, eu posso imaginar a noite de graça, ternura e carnaval que se espalha pelo Brasil.
Num bar de Ipanema, os amigos comemoram a vitória brasileira. Chope, muito chope. Lá pelas tantas, um deles pega o guardanapo e começa a espantar as moscas de cima da mesa. Lúcio Rangel segura o braço do amigo:
- Por favor, não faça isso. Não mate as bichinhas. Elas também são campeãs do mundo.’’
De olho na imprensa

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