Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - Vingou a lógica; a lógica sempre tão negada quando se fala de futebol. A Copa do Mundo principia sua fase decisiva, alinhando os 16 que sempre figuravam na previsão, fosse das esquinas, dos botecos ou da boca dos túneis. Quando muito, terá havido uma falseta: a entrada do México, no lugar da Bélgica. Tudo fazia crer que o grupo E acabaria entregue aos pés da Holanda e da Bélgica.
Não vejo como zebra o desfecho do grupo D, integrado pelas seleções da Espanha, da Bulgária, da Nigéria e do Paraguai. Todo mundo batizou, logo, o grupo como a chave da morte, na qual tudo poderia acontecer. No campo, a Espanha jamais demonstrou ser mais forte que o Paraguai. A Bulgária, muito menos. A Nigéria, por sua vez, entrou na Copa trazendo no peito a medalha de ouro olímpica, conquistada à custa de dois pesos pesados, o Brasil e a Argentina.
Nos demais grupos, passou às oitavas quem devia passar. O balanço dos oito grupos não deixa nada bem o padrão de futebol da Copa. Até agora, não despontou a grande equipe do Mundial. Um dia, é a Nigéria que se insinua, com seu estilo vistoso, vívido, chegando a lembrar o Brasil de outras eras. No dia seguinte, é a Holanda que faz lembrar o carrossel de Johan Cruyff. De repente, um e outro desafinam, e descaem na mais aborrecida mediocridade.
Fala-se da Alemanha com certa reverência. No campo, porém, só tem desapontado. Trata-se de uma equipe sem um pingo de originalidade. A Alemanha é incapaz de jogar com espontaneidade. Passa a idéia de que cada jogador desloca-se com uma estante portátil na cintura, levando pra lá e pra cá uma cópia da partitura do técnico Vogts.
Se não ocorrer um estalo de Vieira, talvez cheguemos à final sem ter podido aplaudir uma grande seleção. Tal como se deu nos Estados Unidos, a Copa que todo mundo viu e que não gostaria de ter visto.
Palavra de amigo
Recebi do meu amigo Nelson Motta o seguinte e-mail: Armando, mestre querido, estou acompanhando diariamente os seus comentários. Luxos da Internet, pela primeira vez a serviço da paixão pelo futebol. É indispensável, longe de casa, saber como nós, especialmente os que o conhecem, estamos vendo a Copa. Pequeno e respeitoso reparo de alguém que viveu - o privilégio - 3 anos na Itália. Quando eles dizem una rosa di giocatori querem dizer um elenco, um plantel. É bem poético, bem italiano, e remete talvez a uma rosacea, mas não deve ser lido como uma rosa - principalmente se as pétalas são esses grandalhões desajeitados.
E tem mais: participando na mesa da TV Globo, ao dizer que esse time deles é uma porcaria, fui repreendido, com delicadeza mas veemência, pelos amigos Parreira e Falcão - este, um de meus grandes ídolos. É um grande time, me asseguraram os dois, que não perde há não sei quantos jogos. Ora, se aquilo é o que hoje se chama um grande time - em matéria de força física e estratégia - então o futebol, americano, de bola oval, é mais divertido porque tem mais força e mais estratégia ainda. Estou chocado. Um único alívio: quando na saída do estádio os noruegueses saudavam seu herói, que na língua deles soa como Flu. Me lembrei das saídas do Maracanã nos tempos da Máquina, em dolorosas nostalgias tricolores. Saudações carinhosas do vosso Nelson Motta
O peso da camisa 10
Rivaldo veste a camisa 10 na Copa. Pra história, a dez é uma peça mítica do futebol. Foi crismada por Pelé, canonizada por Maradona e imortalizada por Zico. Mito e estigma. Uns se dão bem, outros sucumbem ao peso da tradição. O próprio Zico lembra que essa camisa já destruiu alguns jogadores pela responsabilidade que puseram em seus ombros. Há quem garanta que camisa de seleção, seja qual for o número, pesa demais.
Quando entregaram a Tostão a primeira camisa da Seleção, ele ouviu a seguinte advertência de um veterano:
- Cuidado que essa camisa costuma pesar muito no corpo.
No dia seguinte, Tostão reduzia o espantalho à expressão mais simples. Contou aos colegas, mineiramente, o seguinte:
- Peguei a camisa da Seleção, pus num prato da balança. No outro, pus a camisa do Cruzeiro. Não notei a menor diferença. As duas pesam a mesma coisa...
Moral da história: o craque vale quanto pesa...
RÁPIDAS E RASTEIRAS





