Na Grande Área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 26 de junho de 1998
O dever da Seleção 
PARIS - Diz a vida que roupa suja se lava entre quatro paredes. Não no futebol e, muito menos, numa Copa do Mundo. A roupa suja de uma equipe lava-se é dentro das quatro linhas, com cristalino suor do desprendimento, da entrega total, do brio que deve estar acima dos não-me-toques de jogadores vedetes.
Hoje, contra o Chile, a Seleção tem uma satisfação moral a dar ao povo brasileiro. Pelas pequenas mazelas que envenenam a intimidade de Lésigny, mais que nunca, estará em jogo a tradição de uma camisa que outras gerações souberam honrar, a ponto de transformá-la em símbolo da própria nacionalidade.
Onde já se viu, caro leitor, uma equipe se reunir, 48 horas antes de um jogo decisivo de Copa do Mundo pra discutir meras idiossincrasias de convivência? É fulano que não passa a bola pra beltrano porque beltrano anda olhando atravessado pra sicrano. Meras futricas de uma constelação de estrelas à beira do delírio.
Lésigny converteu-se numa colossal feira de vaidades em que alguns entram com a presunção, outros com a imodéstia e todos com as mesmas pompas da opulência. Autênticos narcisos, florescendo, dia e noite, no canteiro fértil do ócio, sabidamente, o pai de todos os vícios.
Por que a comissão técnica não troca o tempo desocupado dos jogadores por uma jornada intensa de treinos? Chega de sombra e água fresca! Chega de recreio, seu Zagallo! Não há comando que se imponha a uma tropa tratada com paternalismo. Ponha essa turma pra correr, pra suar a camisa. Lugar de atleta em competição é no campo, apurando os músculos, exercitando a inteligência do corpo que é o instrumento de trabalho do craque.
Diz o Eclesiastes que, quando as mãos estão ociosas, a casa acaba ruindo. Pois, os jogadores que tratem de vencer o jogo de hoje, contra o Chile, antes que seus pés ociosos levem à breca a Seleção.
Jogar, lutar com amor à camisa, é o mínimo que espera de uma equipe paparicada por todo mundo. Uma equipe, como poucas, tratada a pão-de-ló. Nesses tempos de mercantilismo é bom lembrar que a vida mansa pode ser fatal. Portanto, à luta, senhores da Seleção. Com perdão do jogo de palavras, o negócio é a negação do ócio.
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