A derrota brasileira, contra a Noruega, pode render fatos políticos de bastidores que, no primeiro momento, não dá pra avaliar. Começa que o técnico Zagallo interpretou o resultado com duas retóricas distintas: falando pro Brasil, disse que gostou da equipe e que a experiência foi válida. Não disse pra quem. Quem sabe tenha sido válida pra Noruega. Pros jornais europeus, Zagallo diz que não gostou nada da equipe. Confessa que, no intervalo, mandou jogar pelas laterais e que ninguém deu a mínima bola pra sua recomendação. Não é um caso de desobediência à hierarquia?
Outro ponto a realçar foi o silêncio de Dunga. Magoado com as críticas ao seu estilo ríspido de liderar, quando deu uma peitada em Bebeto, o capitão decidiu fazer greve de silêncio no jogo com a Noruega. Não abriu o bico, nem pra elogiar, nem pra incentivar. Fechou a boca e os ouvidos. Ainda assim, foi contemplado pelo resto da equipe com o mais farto provimento de bolas já registrado pela Seleção. Era como se cada bola a ele passada fosse um torpedo dos colegas, querendo agradar ao capitão amuado.
Talvez seja por aí que se possa entender a esterilidade ofensiva da equipe. Dunga sempre soube desarmar mas nunca soube armar. Uma coisa é destruir, outra é construir. Por seus pés passaram mais de dois terços das bolas de ataque e de contra-ataque. Bolas convencionais, passes banais, inconsequentes, horizontais.
Há quem diga que a Seleção jogou mal, de caso pensado. Não quis se empenhar. Sabendo que a partida nada significava pra sorte do Brasil, os jogadores teriam feito corpo mole, deixando a bola rolar a seu bel-prazer.
Se é verdade que a conduta da Seleção foi de negligência preconcebida, então, é o caso de perguntar por que, então, os jogadores não devolvem o dinheiro de quem pagou tão caro pra ver o jogo? A hipótese de farsa, de pantomima me arrepia. Registro-a, com reservas. Não posso acreditar em tamanho despudor.
É fato notório que a Seleção Brasileira, sem exceção, é formada de milionários. Alguns vivem à tripa forra, desfrutando a opulência de um mercantilismo desenfreado. Mas, convenhamos, se foi isso mesmo que aconteceu, se foi descaso mesmo, estamos diante de uma prova de irresponsabilidade que me espanta.
Aí, então, seria o caso de concordar com o jornal espanhol El Mundo: ‘‘A Seleção Brasileira tem deixado pelos campos da Copa um aroma suspeitíssimo. Um cheiro de mentira.’’
Ainda bem que o Chile é uma flor de cheiro muito familiar ao futebol brasileiro. Queira Deus que os chilenos ajudem a Seleção a reencontrar, numa boa vitória, o honrado aroma da verdade.
De olho na imprensa
Desta vez, a Seleção Brasileira divide a cena com a seleção da Noruega. O francês ‘‘L’Équipe’’ lamenta ‘‘que o Brasil, pela primeira vez de acordo com a sua história, não tenha sabido tirar proveito de uma formação ultra-ofensiva.’’ Pro irreverente ‘‘Libération’’, o Brasil se livrou da Itália, escapando ‘‘de um choque entre titãs antes da hora’’, e ajudou a Noruega a tirar o Marrocos da jogada. O sisudo ‘‘Le Figaro’’ diz que a batalha se travou entre ‘‘as veleidades vingativas de Ronaldo e Flonaldo’’. No outro lado do Canal da Mancha, o popular ‘‘The Sun’’ diz que ‘‘o Brasil foi a nocaute num golpe do herói Flo, e que, agora, os campeões do mundo não podem se dar mais o luxo de pisar na bola.’’ Na Itália, são os ‘‘vikings de laboratório’’ que chamam a atenção do ‘‘Gazzetta dello Sport’’: ‘‘Seleção sem fantasia, criada em laboratório pelo professor Olsen, se diverte com uma rosa de extraordinária força física: Tore Flo’’. E pro espanhol ‘‘El Pais’’, ‘‘a seleção de Zagallo caiu como um estrépito diante do conjunto nórdico’’ e ‘‘os canarinhos voltaram a mostrar que são uma soma de talentos que não sabem jogar em equipe.’’
Um caso de bola perdida
Pobre Marrocos! Suou a própria alma, derrotou a Escócia e acabou abatido por uma bala perdida. Um erro de arbitragem, um pênalti inexistente apitado pelo americano Baharmast, noutro campo, noutro jogo, produziria dois fatos anormais: a eliminação de Marrocos e a classificação da Noruega.
No mesmo dia, à tarde, o Chile se classificava, favorecido por outro erro de arbitragem: um gol cristalino de Camarões, anulado por uma decisão estapafúrdia do húngaro Laszlo Vagner.
Aí está o superslow que não nos deixa mentir. Os dois lances aparecem, quadro a quadro, mostrando o tamanho do disparate da arbitragem. Júnior Baiano disputou a bola com a límpida intenção de afastá-la da zona de perigo, sem cometer um único gesto litigioso. Por sua vez, no outro jogo, a cabeçada do camaronês Biyick foi irrepreensível. A anulação do gol, outra iniquidade completa.
A reputação da arbitragem sempre foi o calcanhar de Aquiles do futebol. Diz um antigo provérbio dos estádios que o árbitro é um ladrão que rouba a gente na presença da multidão e ainda vai embora pra casa protegido pela polícia. Uma irreverência da qual a arbitragem sempre escapou graças ao exercício da dúvida. Foi, não foi. Errou, não errou. Tudo acabava debitado à paixão do torcedor.
Até que um dia, surgiu a câmera de televisão, com lentes poderosas, pondo o dedo na ferida. O superslow, esse, então, está simplesmente acabando com a respeitabilidade do árbitro. O superslow mata a cobra e mostra o pau.
Breve não se levará mais a sério uma instituição que, concebida pra fazer justiça, não faz outra coisa em campo senão cometer grosseiras injustiças, com reflexos desastrosos na alma e na própria economia do futebol. Quem vai reparar, material e moralmente, o prejuízo causado pela arbitragem às seleções de Camarões e de Marrocos?
Ou a Fifa passa a aceitar o testemunho da televisão no caso de erros altamente danosos ou, então, ela que se prepare pra ver o futebol se afundar no deboche, no desrespeito, na desordem, no descrédito.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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