PARIS - É pelo drible que se conhece o ponta. Eis aí um provérbio que saiu de moda. É do tempo de Tesourinha, de Julinho, de Garrincha e de Canhoteiro. ‘‘Escale o homem, doutor’’ - dizia Didi, passeando com Paulo Machado de Carvalho no jardim da concentração, no Hindas Tourist Hotel, em Gotemburgo. Faltavam dois dias pro jogo com a União Soviética. Todo mundo queria ver Garrincha no time, menos a comissão técnica de Feola e Nascimento. Ambos achavam que Garrincha abusava do direito de driblar. Mal sabiam que, em Garrincha, driblar não era nem direito, nem um dever - era devoção.
Hoje, passados 40 anos, Denílson revive Garrincha. A coincidência histórica é que o cidadão Drible dos nossos dias entra na Seleção dois jogos depois da estréia. Tal como sucedeu, em 58, com o Garrincha, fonte de prazer que o futebol já não dá. Inefável Garrincha.
Uma frase que não espero ouvir nessa Copa do Mundo: ‘‘Solta a bola, Denílson!’’ Quantas vezes ouvi vozes banais, gritando nos instantes de Garrincha: ‘‘Solta a bola, Mané!’’ E Garrincha prosseguia, na dele, driblando Deus e o mundo. Pois Denílson é a reencarnação de Garrincha.
Respeito o passe, admiro o gol, mas já fiz minha escolha: prefiro o drible. O passe é razão. O drible é intuição. Um vem do cérebro; o outro, do coração. O drible é paixão, avassala. O passe é juízo, descortina. O gol é consequência. Ponto final de uma caminhada. É sonho que se finda.
A bola do passe dá fruto. A bola do drible dá flor. O drible de Denílson tem aroma. Por onde passa, deixa um rastro colorido: arco-íris. O drible de Garrincha tinha ecos. Até hoje, ressoa pelos quatro cantos do campo, como um canto.
Na geometria do passe, a bola convive. Na alegoria do drible, a bola vive e revive. Tal como a poesia que reinventa e estraçalha a palavra, o drible reinventa gestos e revira o tempo à flor do chão.
O driblador é um místico com os pés no chão. Pés que não pensam - sentem. Driblador solitário, teu espelho é a bola que em ti se contempla.
Drible é libertação. Não o drible de caso pensado.
Vai, Denílson, faz o sol e a sombra de tuas fulgurações. Não ouve os desavisados. Eles não sabem que teus dribles são inevitáveis.
A vez do chute
E o Roberto Carlos, será que ele desencabula, hoje? Até agora, o moço não deu o ar de sua graça. Não avança, como deve. Cortaram-lhe as asas. Ou quem sabe, ele próprio se encolheu? Como diria Paulo Vasconcellos, nessa Copa, Roberto Carlos tem estado a chutes de distância do tanto que jogava no Palmeiras, depois, no Inter de Milão e, ultimamente, no Real Madri.
A bem da verdade, a reputação de Roberto Carlos se fez pelo chute devastador que ele é capaz de desferir na cobrança de uma falta. Acontece que o ataque brasileiro não tem sofrido faltas à entrada da área, de onde partem os mísseis de Roberto Carlos.
Que eu me lembre, o último chute, tipo lança-chamas, de Roberto Carlos, foi no jogo Brasil x França, ano passado, no Torneio da França. A bola entrou no canto esquerdo, depois de descrever uma trajetória sinuosa, meio esotérica, que acabaria desembocando numa manifestação de físicos de uma universidade inglesa. O jornal inglês dedicou uma página inteira à balística do chute arrasador.
Quem sabe será hoje, contra a Noruega?
Bandoleiros letra C
Os vândalos continuam infernizando a Copa do Mundo. Agora, foram os ‘‘cabeças raspadas da Alemanha’’. Marginais do esporte e da própria vida. Um policial está à morte, um cinegrafista da Rede Globo foi torpemente espancado em Lens. Obra de uma falange neonazista vinda da Alemanha.
Está na hora de fazer distinção entre a platéia da Copa e os bárbaros ingleses, alemães e franceses. Essa gente nada tem a ver com o futebol. Nem ingresso eles têm. Não querem ter. Eles odeiam esporte. Só estão aqui pra fazer baderna.
É impróprio e mesmo injusto chamá-los de torcedores. Tanto é verdade que, em 32 jogos já realizados, não houve um único incidente em qualquer dos dez estádios da Copa. No jogo Inglaterra x Tunísia, semana passada, havia no Estádio de Marselha cerca de 12 mil torcedores ingleses. Todos cantando, todos celebrando a vitória do English Team. Não se viu um só destempero no comportamento do público.
Os bandoleiros alemães, na definição da polícia francesa, são da mesma estirpe maligna dos ingleses: ‘‘São cerca de 300 indivíduos, pertencentes à categoria C, que chegaram de carros, sem ingressos e com a única intenção de fazer arruaça’’.
Cadeia neles!
Di e o Brasil
Di Stefano é doutor em futebol. Sabe o que pouca gente sabe. Ei-lo vendo a Copa, em poucas palavras: 1) O calor vai acabar com o time alemão. 2) O Brasil é a melhor equipe. Tem o esquema tático mais simples. Tem os melhores jogadores. Quando tem chances de gol, faz três, com certeza. Ninguém tem essa competência. 3) A maioria das equipes não tem imaginação. Não tem fluidez. Quando conseguem chegar com a bola ao ataque, ya se le hace la noche (‘‘Já é de noite’’). 4) A Argentina, pra melhorar, tem que escalar o reserva Gallardo no lugar de Simeone, e Simeone no lugar de Almeyda.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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