PARIS - Ver o teipe do jogo que acabou de apitar é um dos deveres de casa que a FIFA recomenda aos árbitros do mundial. Pode haver castigo maior, caro leitor? Alguém ser obrigado a ver, com os próprios olhos, os estragos de suas próprias imperfeições? A televisão como que esfrega na cara do juiz as cenas de agarrões que ele não puniu; as faltas inexistentes que o atacante teatralizou, às vezes, grosseiramente; o impedimento que o bandeirinha acusou e em cujo erro o árbitro embarcou, feito robô. A televisão está arrasando com a reputação da arbitragem no futebol. Adeus, soberania. Sua senhoria está nu em pleno campo.
O novo carrasco da arbitragem se chama super-slow-motion. Uma sofisticação que a tevê está lançando nesse mundial, verdadeira revolução tecnológica. Nunca se viu maior nitidez nas disputas reproduzidas em câmera lenta. Trata-se de uma preciosidade digital. A França está usando quatro delas em cada estádio. Cada câmera custa 100 mil dólares, fora os 50 mil da lente - 55 milímetros, outro tesouro que está sendo usado nas transmissões do mundial.
Meu velho e querido amigo Zé Ricardo, engenheiro da Globo, me revela o pulo-do-gato do super-slow-motion. Até agora, a câmera do replay só era capaz de registrar 30 quadros por segundo. O novo engenho registra nada menos que o dobro de imagens, na mesma velocidade. Com isso, desapareceu o maior defeito do velho slow: os trancos entre os quadros, que provocavam no olho humano a impressão de esgarçamento, de distorção na imagem. Agora, é como se fosse câmera lenta de película. Quem não se lembra do Canal 100?
Imagino a dor de consciência daquele árbitro de Chile-Itália, vendo no slow que foi nitidamente bola-na-mão e não mão-na-bola. Está gravado, pra sempre, num disquinho de computador chamado magneto-ótico. Como gravada está a sola de Chiba na coxa esquerda de Ronaldinho. Graças ao super-slow, o árbitro russo Levnikov foi mandado embora da Copa, sem que alguém da FIFA lhe dissesse adeus. A comissão de arbitragem da Copa viu o lance, em close, e ficou chocada com a brutalidade do gesto e, mais ainda com a fria omissão do juiz.
O futebol abençoa a câmera super-slow, cujo olho não pisca jamais.
A COPA VAI COMEÇAR

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