PARIS - O jogo Brasil x Escócia pretendia dar a tônica do ‘‘fair-play’’. Foi disputado em atmosfera civilizada, sem violência. Nada além da natural fricção de um esporte feito de corpo-a-corpo. De choques inconsequentes. Que eu me lembre, não houve um só momento de rispidez, no jogo de abertura do Mundial.
Infelizmente, a boa fé duraria pouco. De repente, o que era tranco virou atropelamento. O que deveria ser entrechoque passou a ser colisão. Ressurgiram os carrinhos. Culminou com o jogo Brasil x Marrocos, em que o marroquino Chiba vem feito um siderado e crava as ferraduras na coxa esquerda de Ronaldinho. Visto em close, na televisão, o golpe é de uma malignidade assustadora. Ao mesmo tempo, noutros jogos, davam-se tesouras voadoras, carrinhos, pontapés, a torto e a direito.
Em boa hora, a Fifa acendeu o sinal vermelho, reuniu os árbitros e deu o ultimato: de agora em diante, quem não reprimir a violência, radicalmente, vai embora pra casa, sem despedidas. A essa altura, três ou quatro não apitam mais. Blatter, o novo presidente da FIFA, fazendo coro com o seu lugar-tenente Platini, deu a palavra de ordem que resultaria em cinco cartões vermelhos em apenas duas partidas. Blatter foi incisivo: ‘‘Não vamos admitir que façam com Ronaldo o que fizeram com Van Basten.’’
Parece irreversível: carrinho, cotovelada, qualquer gesto grosseiro levará à expulsão sumária. Agora, ou os técnicos disciplinam seus jogadores, ou a Copa corre o risco de ser disputada, quase sempre, dez contra dez. Ou menos, ainda.
A linha dura de Blatter e Platini virá, certamente, em favor do futebol de craque. Pode haver momento melhor pra Zagallo escalar Denílson? O jogador de habilidade, desses que conduzem a bola imantada nos pés, é um convite ao destempero dos beques medíocres. Ronaldinho é outro que há de se beneficiar de uma arbitragem austera. Afinal, a lei do jogo deve prevalecer sobre a vontade do jogador.
Há outros jogadores de alta categoria que devem estar festejando a nova onda de arbitragem. Por exemplo, o argentino Ariel Ortega, o italiano Baggio, o espanhol Raul, o inglês Shearer e o alemão Möoeller. Todos craques, todos, agora, em condições de engrandecer o espetáculo do futebol, com as artes de seu corpo inteligente.
Que assim seja, pro bem do mundial.
Socorro urgente

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