PARIS - 1) Um dilema deve estar esquentando a cabeça de Zagallo: escalar ou não escalar a dupla Baiano-Aldair, no jogo com a Noruega, dia 23 (terça-feira), em Marselha. Ambos estão pendurados na brocha, com um cartão amarelo cada um. Um novo cartão amarelo afasta um ou, mesmo, os dois do próximo jogo.
A alternativa natural é a dupla suplente Gonçalves-André Cruz que, certamente, entraria fora de ritmo. Mas é a tal coisa: a Seleção não tem nada a perder nessa etapa, a não ser a virgindade. São dois riscos: perder um jogo que vale pouco ou perder uma zaga que está valendo muito?
Se fosse o Júnior Baiano...
2) Um ex-jogador, gente boa e ilustre, me dizia, saindo do hotel, no Champs-Elysées: ‘‘Eu queria ver o Dunga fazer com o Júnior Baiano aquilo que ele fez com o Bebeto’’. Jura o ex-craque que Júnior Baiano ia pôr Dunga a nocaute, no ato. Quer dizer, o Brasil ia jogar com nove. A regra prevê expulsão em qualquer troca de agressão, pouco importa se a briga foi entre adversários ou entre companheiros de mesma equipe.
A liderança do coração
3) O episódio Dunga-Bebeto abalou a auto-estima da Seleção. Mais até do que se pensa. A maioria dos jogadores ficou chocada com a conduta do capitão. Dunga passou da conta. Em 94, exerceu sua liderança com todo equilíbrio. De repente, perde a cabeça. Agora, ele que não repita o chilique. Todo mundo está de pé atrás. A tal ponto que já desponta na Seleção uma nova liderança. Leonardo é o homem. A liderança destemperada, autocrática, pode ceder lugar à liderança mais amena da conciliação, da solidariedade, da temperança.
O distintivo do capitão continuará ornando o braço forte de Dunga, mas a liderança da equipe, talvez, passe a pulsar no peito de Leonardo, o coração de leão.
A última chance
4) A Europa não pode perder essa Copa. A opinião é de Terry Venable, ex-técnico da Inglaterra, jantando com Hans Henningsen, o marinheiro sueco. Venable acha que falta pouco pro Brasil atingir o ponto ideal. Ainda assim, prevê uma Copa com destino europeu. E dá suas razões: o futebol na Europa está a um passo da falência, não só econômico-financeira mas, sobretudo, técnica. Os clubes estão entupidos de jogadores vindos de fora: argentinos, brasileiros, africanos. Se a Europa desperdiçar o privilégio de jogar em seu próprio terreiro, será um grave desestímulo pros meninos europeus. Não haverá renovação. Ao mesmo tempo, haverá uma disparada na cotação dos jogadores estrangeiros. Qualquer craque importado vai custar uma fortuna.
Ou a Europa vence essa Copa ou, então, fecha pra balanço - conclui, patético, Terry Venable.
O homem tem razão.
Nunca, sem minha filha
5) Entra em ponto de ebulição a guerra fria Irã-Estados Unidos. Os dois estão no mesmo grupo, o F, efe de fogo. Politicamente, os dois países vivem se estranhando. Agora, ou o futebol sublima as divergências ou o pau vai cantar, domingo, em Lyon.
Ontem, vazou uma história, no mínimo, bizarra: a chefia da delegação iraniana fez um protesto formal junto ao governo francês por ter a tevê francesa exibido o filme chamado ‘‘Nunca, sem minha filha’’. A fita conta um tórrido caso de amor, com lances políticos e ideológicos, entre uma americana e um iraniano. O drama chocou alguns jogadores do Irã, provocando a suspeita de que aquilo era uma armação dos Estados Unidos pra desestabilizar a equipe islâmica. O governo Chirac não deu bola pra reclamação diplomática, nem mesmo sabendo que o Irã ameaçava abandonar a Copa. Considerou uma paranóia do gênero aiatolá.
Irreverências de Shaw
6) Bernard Shaw dizia que jogador de futebol tem o cérebro nos pés. Típica provocação do irreverente dramaturgo irlandês (Prêmio Nobel de Literatura, em 1925) que detestava esporte, qualquer que fosse. Shaw detestava, especialmente, golfe e futebol. Achava que um homem, com o taco de golfe na mão, não passa de um idiota.
O futebol não escapou à idiossincrasia de Shaw. Se ele tivesse conhecido jogadores como Pelé, Didi, Maradona, Di Stefano, Cruyff, Ronaldinho, Denílson, talvez preferisse trocar o artigo definido pelo indefinido: um e não o cérebro. Concordo, até, que haja, por aí, alguns jogadores que não passariam num teste encefalográfico pela singela razão de que não têm cérebro, nem no pé, nem na cabeça. São ocos, de cima a baixo.
Ode a Ronaldinho
7) O jornal americano Herald Tribune dedicou, ontem, um verdadeiro hino ao futebol de Ronaldinho. Eis o que diz, na íntegra, o articulista George Vecsey: ‘‘Ronaldo tem a velocidade de Michael Johnson, no mínimo, em pequenas distâncias, e os pés de Fred Astaire. Ele circula com a desenvoltura de um motorista de táxi no tráfego de Paris. Consegue eliminar os defensores com simples gestos de ombro ou com um giro rápido sobre seu próprio eixo. A bola parece grudada ao dedo do pé.’’
Demais!
Já vão tarde...
8) Blatter e Platini começam a jogar duro com os árbitros complacentes. Decidiram mandar embora, sem aperto de mão, um marroquino, um nigeriano e um asiático, todos três por omissão na hora de reprimir a violência. Palavras de Blatter, ontem, num encontro com jornalistas: ‘‘Não quero que aconteça com Ronaldo o que aconteceu com Van Basten.’’ Todos se lembram que Van Basten, grande atacante holandês, foi inutilizado pro futebol depois de sofrer grosseiras entradas de carrinho, quando jogava no Milan, no final dos anos 80.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
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