PARIS - Roberto Perrone, cronista do ‘‘Corriere della Sera’’ ficou maravilhado com o 3 a 0 do Brasil contra Marrocos. E como tivesse ouvido de alguns colegas brasileiros que podia ter sido bem melhor, o italiano escreveu que é mais fácil a Seleção derrotar o adversário do que agradar a imprensa brasileira.
O chamado confrade não sabe que, realmente, podia ter sido melhor e que vai acabar sendo mesmo. É só Rivaldo jogar o que joga no Barcelona. É só o próprio Rivaldo libertar-se um pouco mais da camisa-de-força do esquema. É só Roberto Carlos fazer como Cafu, que tem sabido avançar no momento certo. É só Ronaldinho receber mais bolas, mesmo marcadíssimo.
Não sei se vocês repararam que, nos dois jogos - Escócia e Marrocos - ninguém sofreu uma única falta à entrada da área. A minha impressão, a distância, é que os armadores evitam passar a bola a Ronaldinho só porque há sempre um sanguessuga grudado no pescoço dele. Ora, é justamente nessa situação que Ronaldinho deve ser acionado. Alguém fatalmente vai acabar fazendo falta nele. Já pensou, um tiro livre direto, cobrado com malícia, por um Bebeto, por um Rivaldo? Um míssil disparado por Roberto Carlos? É meio gol.
Talvez falte a Ronaldinho uma dose de astúcia. Uma arma de espírito que só a vida lhe dará. Como deu a Romário, que, com o tempo, tornou-se incomparável na arte de simular. Ele encena, como ninguém, um tranco pelas costas. O próprio Romário deve ter perdido a conta dos gols que resultaram de faltas inexistentes cavadas por ele. Antes de Romário, só um jogador soube teatralizar tão bem uma cena de falta: foi Pelé.
É inegável que, do primeiro pro segundo jogo, a equipe brasileira fez claros progressos. Ganhou mais consistência na meia-cancha, balanceou melhor o vai-e-vem dos laterais, acentuou seu poder do ataque, graças, principalmente, aos avanços consequentes de Cafu. Quem podia esperar que Cafu, tão sofrível em todos os amistosos, desabrocharia, magnífico, mal começada a Copa do mundo? A imprensa européia deu-lhe a nota mais alta da Seleção, pelo que jogou contra Marrocos: sete e meio. Nada mais justo. É sensível que a seleção descontraiu-se mais. Passada a estréia, os nervos estão menos retesados. Tudo faz crer que é daí pra melhor. A autoconfiança se fortalece, a cada vitória.
Certos jogadores ainda estão devendo alguma coisa à seleção. Um deles é Roberto Carlos que poderia, perfeitamente, copiar o ‘‘timing’’ irrepreensível de Cafu. Leonardo, por sua vez, tem dado mais dinamismo à meia-cancha mas, quem sabe, talvez, deva ser menos sôfrego na hora de atacar.
Não tenho reparos a fazer à performance defensiva de César Sampaio e Dunga, embora esteja vendo, com uma certa apreensão, o tom colérico com que Dunga anda exercendo a sua braçadeira de capitão. Desde quando, murro na mesa é liderança? Dunga passou dos limites nos gestos e nos gritos com que censurou a passividade de Bebeto num lance irrelevante. Estranho que o capitão esteja tão irado, justamente no momento em que a equipe desencabula e que Zagallo troca a carranca por um semblante de placidez. A placidez de quem pressente dias mais radiosos no caminho da Seleção.
De olho na imprensa
Jogo do Brasil é sempre matéria de primeira página na imprensa estrangeira. A vitória do Brasil sobre o Marrocos, 3 a 0, não fugiu à regra. Mas o tom mudou, pra melhor. A Europa, finalmente, reencontra aquela Seleção com um toque de samba, cujos dribles e passes fazem o delírio do torcedor. Pro francês ‘‘L’Equipe’’, agora, sim, ‘‘é bem o Brasil, com os raios fulgurantes de Ronaldo, potência absoluta’’ que dá o espetáculo, ‘‘confirmando a sua escalada na Copa.’’ O ‘‘Libération’’, com seu título ‘‘Brasil passa uma fase banal’’, diz que a Seleção ‘‘controla a partida e assegura o primeiro lugar na sua chave.’’
Pro italiano ‘‘Gazzetta dello Sport’’, ‘‘o Brasil se diverte, pega o primeiro lugar no grupo, e o mundial descobre o esperado protagonista: Ronaldinho.’’ Pro espanhol ‘‘El Mundo’’, que se mostra menos empolgado, o ‘‘Brasil não alimenta os sonhos dos românticos, mas deixa claro que aspira ao máximo.’’ Pro inglês ‘‘Times’’, ‘‘Brasil e Ronaldinho começam a se movimentar com ritmo.’’ E pro americano ‘‘Herald Tribune’’, ‘‘o Brasil dá uma surra no Marrocos’’.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
A seleção do Chile tem mais é que maldizer contra os fados do esporte, especialmente, os do futebol. Jogou melhor que a Itália, mas acabou sofrendo um empate em gol imerecido de Baggio. Ontem, reinou o tempo inteiro, fez um gol com Salla e, nos descontos, tomou um da Áustria, num desses chutes que pegam na veia. Mala suerte, Salla.
- A comunidade ‘‘gay’’ de Paris já escolheu o símbolo sexual da Copa do mundo. É Ronaldinho. Certamente, deve ter contribuído pra eleição a já célebre foto de ‘‘Paris Match’’, em que o craque aparece na capa de calções pretos, dorso nu, e reproduzindo a pose do ‘‘Pensador’’ de Rodin.
- Não é possível que a comissão de arbitragem da Copa deixe passar em branco o coice que o marroquino Chiba deu em Ronaldinho. A sola deixou na coxa de Ronaldinho a marca das travas do agressor. Um dos dois tem que ser punido: ou Chiba, por atentado à vida, ou o árbitro russo Levnikov, por omissão culposa.
- Ainda não falei da Alemanha, que estreou derrotando os Estados Unidos (2 a 0). Mesmo com atraso, faço minhas as palavras de Jorge Valdano, ex-jogador argentino, campeão mundial de 86: ‘‘É um rolo compressor alemão. Como espectador, me aborrece. Como ex-treinador, admiro a solidária disciplina com que os jogadores repartem as energias pra garantir a organização. Como ex-atacante, estou contente por ter me aposentado. Como profeta, pressinto que os alemães chegarão longe.’’
Colaboraram Paulo Cesar Vaconcellos e Andréa Escobar

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