Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - A Seleção entra na segunda semana da Copa com o pé direito de Ronaldinho. Um gol feito no momento certo. Quando a equipe do Marrocos ainda assuntava o jogo. Foi mais ou menos como na estréia, selada nos primeiros minutos com o gol de César Sampaio. É bom que seja sempre assim, no comecinho. Mas não convém que a equipe desacelere como ocorreu nos dois jogos, depois do gol.
Está se tornando uma característica da Seleção congelar a partida sempre que impõe uma vantagem no placar.
Menos mal que no finalzinho do tempo, Bebeto, Cafu e Rivaldo numa ação muito bem coordenada chegaram ao segundo gol. O gol que chegaria para aliviar as tensões do intervalo. Pois imagine, leitor, o desdobramento que poderia ter tido, no vestiário, a bronca de Dunga em Bebeto. A braçadeira de capitão não assegura a Dunga carta branca para descompor o colega a céu aberto, por um erro involuntário e que não teve consequências maiores. Felizmente, Bebeto daria como resposta um passe cristalino na bola que Cafu cruzou para ao gol de Rivaldo.
A equipe do Marrocos não chegou a ver a cor da bola e, no entanto, ela era nitidamente verde-amarela. É que Marrocos pegou uma Seleção Brasileira como eu não via há muitas partidas. Consistente, densa, em todos os compartimentos e tirando partido da habilidade pessoal de seus jogadores.
Antes da partida, numa entrevista coletiva, o técnico Henri Michel, do Marrocos, tinha dito a seguinte frase: Quem quiser derrotar o Brasil que prepare para escalar o Himalaia. Aí está o Himalaia com um sonoro 3 a 0, devidamente classificado para as oitavas-de-final como o primeiro do grupo.
Tudo indica que quem vai ter que tentar subir o Himalaia, na próxima etapa, é a Itália, ou quem sabe, o Chile.
Memento homo!
A Copa do mundo é uma louca vertigem, um atropelo só: 32 equipes, espalhadas por nove cidades, 64 partidas, um conflito permanente entre o relógio cronológico e relógio biológico. Quando o front está a pleno vapor, a retaguarda ainda dorme. Às nove da noite, todo mundo alerta, a mil por hora, no Brasil, e nós, cá na linha da frente, caindo pelas tabelas, às duas da madrugada.
Haja neurônios! Os meus, que já não são tantos, já confundem cinto com funda... Já escalei na seleção alemã Brehme, aposentado há quatro anos. Já ressuscitei o ditador Abacha, da Nigéria. Marquei um encontro com o Wanderley Luxemburgo, ele compareceu no dia combinado, eu exagerei na pontualidade: cheguei 24 horas antes... Derrotei a Itália no jogo em que a Azurra empatou com o Chile. Antes disso, dei a Alemanha como cinco vezes finalista da Copa. Foram seis finais.
Soube que Nostradamus está uma arara comigo. Citei o ilustre adivinho como tendo nascido na Escócia. Um equívoco que o célebre astrólogo francês não seria capaz de prever nas suas profundas explorações astrológicas.
Orgulhoso não sou, nunca fui. Em contrição, faço um apelo ao Ratinho: que seu programa peça a sua generosa audiência que me ceda, pelo menos, meia-dúzia de neurônios. É quanto me basta pra chegar, com um mínimo de lucidez, ao fim dessa Copa que, em boa hora, a ONU resolveu realizar nesse amável país que é a Alemanha.
Deutschland ubber alle!
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Henri Michel, o técnico do Marrocos: Dizem que os jogadores brasileiros não são bons, mas eles ganham. Dizem que eles não têm uma boa defesa, no entanto, não tomam nenhum gol. Mesmo mal, os brasileiros são bons. Tem sempre um jogador pronto pra uma façanha.
- Cenas de violência invadem os quiosques de Paris. Todos os jornais da Europa estampam nas primeiras páginas o ato de vandalismo dos hooligans. O tablóide inglês The Sun dá o placar do jogo Inglaterra e Tunísia, em Marselha: dois pra seleção e zero pra Shayler, o tatuado que armou a arruaça. O Times diz que a violência obscureceu a vitória inglesa. O Le Parisien se indigna com esses ingleses que querem estragar a festa. O Libération, fazendo um jogo com a palavra francesa Coupe, diz que a Copa transbordou. E o LEquipe lembra ao leitor que é preciso prestar atenção nesses ingleses, não só por causa do comportamento selvagem, mas, também, pela qualidade da equipe liderada por Alan Shearer.
- O premier inglês Tony Blair condena a selvageria em Marselha, chamando os hooligans de animais. A comparação é insultosa. Na escala zoológica, não há lugar pra esses monstros. A Sociedade Protetora dos Animais devia mandar um repúdio, assinado por todas as criaturas de Deus.
- Sepp Blatter acordou, ontem, de mau humor com a queda no padrão de arbitragem: ele viu, em alguns jogos, carrinhos impunes, sucessivas ceras de goleiro, grosseira inversão de faltas, sem que a arbitragem desse um pio, sequer. Como tivesse encontros de etiqueta a cumprir em Paris, Blatter pediu ao presidente Havelange que visitasse o castelo de Manoir de Gressy pra dar um puxão de orelhas nos árbitros relapsos, notadamente o marroquino Sad Belqola, que apitou Alemanha e Estados Unidos, e Lim Kee Chong, das Ilhas Maurício. Quem manda recrutar pra uma Copa juízes que passam a vida apitando futebol na baixa da égua?
- Voltando ao tema arbitragem: é simplesmente escandaloso a vista grossa da arbitragem no festival de agarrões dos beques, freando os atacantes, em plena área. O replay de Alemanha e Estados Unidos mostra, pelo menos, cinco situações bem mais litigiosas que o tranco de César Sampaio, punido com um pênalti, num atacante escocês.
- Na Itália, estão vendendo sorvete de frutas, com uma boa pitada de Viagra. Vende aos potes.
Colaboram Paulo César Vasconcelos e Andréa Escobar
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