Na Grande Área (Armando Nogueira)
PARIS - Tenho um amigo que veio ver a Copa, com a melhor das intenções. Pensava em se divertir, fazer novas amizades. Sonhava, ainda no Brasil, com a chance de namorar uma francesa. Perdi-o de vista, durante duas semanas. Confesso que a correria do trabalho me fez esquecer do amigo.
Hoje, toca o telefone. É ele. A voz não tem o vigor dos primeiros dias em Paris. Vozinha meio desanimada. Estranhei. Um brasileiro, logo depois da vitória da Seleção, só teria razões pra estar a mil. Como acontece com todo mundo. Só vejo gente risonha a bater pernas no Champs-Elysées.
- Que há com você, rapaz? Está pra baixo!
Henrique responde que está vivendo um drama. O diabo da língua. Fizera um curso de dois meses, em São Paulo, com uma professora de francês. Embarcou, sabendo que sim é oui, que obrigado é merci, que bom dia é bonjour, e que até logo é à bientôt.
Aqui chegado, bateu uma insegurança. Henrique não consegue falar uma única palavra da meia de centena que decorou no Brasil. Anda com um dicionário de bolso na mochila, mas não ousou consultar uma única vez. Morre de vergonha.
- Com que cara vou pedir ao garçom pra esperar. Que eu vou ver no dicionário como é mesmo que se diz sanduíche de presunto...
Bobagem, Henrique. Eu também já passei por isso. A primeira vez que a vida me trouxe a Paris, sofri muito. Acho que foi no começo dos anos 50. Eu tinha o maior trauma de abrir a boca pra falar uma palavra que fosse em francês. Tinha medo de cair no ridículo. Achava que era prova de subdesenvolvimento não falar a língua dos outros.
Anos depois, eu consegui resolver meu problema. Antes que o leitor imagine que me matriculei na Aliança Francesa, direi, logo, que não foi nada disso. Quem liquidou o meu problema foi Eça de Queiroz. Mais precisamente, a Correspondência de Fradique Mendes.
Há nas cartas do mestre uma história que vale a pena contar, usando, aqui e ali, palavras do próprio Fradique.
Diz ele, numa carta a Madame S. de Lisboa, que encontrou um amigo espanhol. Rapaz de fino trato, rico de família, que tem a mania de falar bem qualquer língua estrangeira. Uma vaidade tola, segundo o missivista que sustenta o seguinte: Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua de sua terra. Todas as outras, as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.
Adiante, Fradique Mendes diz que o propósito de pronunciar com perfeição línguas estrangeiras constitui lamentável sabujice para com o estrangeiro. Além de sabujice, é também uma abdicação da dignidade nacional.
- Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal a língua dos outros!
E exalta o exemplo de uma dama portuguesa, cujo nome prefere omitir. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos - que só conhecia e só compreendia sob seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela, huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons da Natureza bruta, pouco diferenciáveis do coaxar das rãs, ou dum estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Moscou, desejava os seus ovos - esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava ki-ki-ri-ki! Kô-kô-ri-ki! Kó-ró-kó-kó! Nunca, em cidade ou região inteligente do Universo, minha tia deixou de comer os seus ovos - e superiormente frescos!
Portanto, meu amigo Henrique, vá em frente. Allez-y!
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Sinal verde pra seleção dos Estados Unidos: quem quiser fazer amor, durante a Copa, pode fazer, numa boa. Os médicos americanos da seleção garantem que sexo é saúde. Os jogadores só não podem é tomar o Viagra pra não passar da conta.
- Na seleção do Irã, a lei é bem outra. Pra evitar qualquer tentação, a chefia iraniana pediu pra afastar do hotel todas as camareiras, copeiras, cozinheiras. Mulher, só na imaginação...
- Marcelo Salas, o magistral atacante chileno, vai jogar no Lázio da Itália, atraído por um contrato, dizem, mais custoso, em dólares, do que o de Ronaldinho. Marcelo Salas confessa que tem ascendência indígena. Fala, com muito orgulho, que sua mãe é uma bela Mapuche. Ao contrário do outro Marcelo, o Ríos, do tênis, que considerou injuriosa a pergunta de uma jornalista americana que quis saber se ele tinha sangue de índio. Meio boboca esse Marcelo Ríos...
- O jornal Bild da Alemanha revela que mais de 10 mil torcedores levaram um calote das agências de turismo.
- O técnico do Marrocos, o francês Henri Michel, dá um conselho aos brasileiros: Não tenham medo desses grandalhões da Noruega. São todos uns armários que pensam pouco. O perigo é Marrocos.
- De Beckenbauer, que escreve um artigo diário no jornal Bild, da Alemanha: Os dois zagueiros do Brasil não têm mobilidade. Beckenbauer confessa, no artigo, que levantou-se da cadeira, empolgado, quando Ronaldinho driblou quatro escoceses e, numa centelha de lucidez, quase marca contra a Escócia.
- Em quatro dos oito grupos da Copa do Mundo pulsa, pelo menos, um coração brasileiro. O de Oliveira, na seleção belga, grupo E; o de Clayton, na seleção da Tunísia, grupo G; e o de Wagner Lopes, na seleção do Japão, grupo H. Já no grupo A, naturalmente, são onze corações pulsando.
- Do técnico alemão Bert Vogts, da Alemanha: Nós não somos obrigados a ganhar a Copa, mas podemos perfeitamente ganhá-la.
- De Peter Handke, escritor e dramaturgo austríaco sobre a bola: A forma esférica da bola de futebol é o próprio símbolo do caráter imprevisível do acaso. Handke tem, na sua obra, um livro dedicado ao futebol com o sugestivo título: A Angústia do Goleiro no Momento do Pênalti.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar.
Correspondências para Na Grande Área: Cx. Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - EMAIL: [email protected]





