Na Grande Área (Armando Nogueira)
Na Grande Área (Armando Nogueira)
Saudades de Romário
PARIS - A Seleção do Brasil está nas manchetes italianas. A Gazzetta dello Sport diz que Zico pediu a Ronaldinho que jogue menos pra ele, Ronaldo, e mais pra equipe. Não é a primeira voz que chama, indiretamente, o artilheiro de fominha. Mesmo dentro da concentração, há quem fale, da moita, que Ronaldinho anda prendendo demais a bola com a preocupação de fazer o gol que estaria devendo à sua auto-estima.
Se aparecer alguém, de peso, pedindo justamente o contrário? Que a Seleção jogue mais pro Ronaldinho. Quantas bolas de gol recebeu Ronaldinho no jogo de estréia? Com açúcar e com afeto, que eu tenha visto, nenhuma. Vi-o, duas ou três vezes, refluir ao próprio campo, batalhando pela bola que nunca lhe chega, ali, à entrada da área.
Alguém já parou pra pensar que Ronaldinho perdeu seu parceiro de luxo? Filho adotivo de Romário, o garoto caiu na mais profunda orfandade, justamente no momento em que se preparava pra receber as bênçãos do soberano da grande área.
Com Romário em campo, Ronaldinho poderia respirar um pouco mais. Uma coisa, pra qualquer defesa, é dar conta de dois demônios; outra coisa, muito mais cômoda, é dar conta de apenas um, como passou a acontecer, depois da degola de Romário. Por mais eficiente que possa ser, Bebeto jamais fará por Ronaldinho o que faria Romário. Direta e indiretamente.
Está nas mãos de Zagallo resolver o problema de Ronaldinho, escalando alguém que efetivamente venha a dividir com Ronaldinho o tremendo ônus que é vencer as defesas cerradas de qualquer equipe da Copa. Se não for Denílson, entrando pela ponta, bem aberto, pra esgarçar a malha defensiva do adversário, haverá de ser Edmundo, que tem bala pra espalhar o pânico à entrada da área do inimigo.
Vocês devem ter notado que a Seleção não desfrutou uma única situação de bola parada, perto do gol. A defesa da Escócia nunca precisou recorrer a jogadas litigiosas pra frear uma ação ofensiva do Brasil. Eu duvido que Romário não tivesse provocado duas ou três faltas nas redondezas da meia-lua. Sem ele, só Denílson e Edmundo têm habilidade de sobra pra levar o adversário à loucura, criando chances de tiros-livres normais.
Ronaldinho já deve ter sonhado algumas noites com Romário. Saudoso, sempre, da malícia de um craque que é capaz de simular uma falta por trás sem que o beque sequer tenha triscado as costas dele. Da predestinação de um artilheiro que passou a vida porejando o gol. Da premonição de alguém que chega sempre um décimo de segundo antes a um encontro com a bola.
Saudoso, enfim, de seu alter-ego.
Um budista velhaco
Um árbitro níger, apitando jogo de Copa do Mundo. Tinha que dar no que deu. A Itália acabou recebendo um pênalti de presente. Os jornais europeus, sem exceção, deploram o erro do juiz punindo o jogador do Chile com a pior das interpretações da regra XII, que é tocar bola na mão por mão na bola.
O lance é cristalino: Baggio tenta o meio-centro, a bola toca no punho do adversário. Um lance involuntário. O coitado leva o braço pra trás, um pouco, no susto, outro tanto pelo impacto do próprio chute. Nisso, Baggio, num gesto nada budista, levanta os dois braços, sugerindo o pênalti chileno. O árbitro, marujo de primeira Copa, apita no reflexo. Ingenuidade do árbitro, velhacaria do monge Baggio, que, um dia, vai ter que acertar as contas com Buda.
Não faz sentido que a Fifa traga pro Mundial um árbitro sem a devida cancha, sem um mínimo de experiência internacional.
Quantas Copas européias já arbitrou esse africano com cara de Fu-manchu? Quantas finais de Tóquio? Eu me lembro que o gol de mão de Maradona, que escandalizou o Mundial de 86, no México, foi feito no jogo Argentina-Inglaterra. Um clássico. Quem arbitrava a partida? Um Ali não-sei-de-que da Tunísia.
Considero até uma perversidade da Fifa escalar na Copa do Mundo árbitros que nunca passaram pela prova de fogo de grandes competições de futebol.
O bruxo de Bucareste
A seleção da Romênia diz que vai jogar a Copa com 12. O décimo-segundo é um feiticeiro que já ficou famoso pela capacidade de fazer mandingas em Bucareste. O macumbeiro romeno traz com ele litros de uma poção manipulada com os seguintes ingredientes: azeite de oliva, água benta, infusão de manjericão e mel. Antes de começar o jogo, ainda no vestiário, o bruxo pretende que os jogadores esfreguem no rosto o melaço milagroso e, em seguida, faz o sinal da cruz três vezes seguidas. A Romênia, de cara lambuzada, estréia depois de amanhã contra a Colômbia.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O treinador Clemente, da Espanha, diz que sua seleção vai jogar com três atacantes de ponta. Garante que fará um futebol agressivo como ninguém. Bom, se não fala de boca pra fora, está disposto a correr um risco sem tamanho.
- Carlos Alberto Parreira soltou os cachorros, de ontem pra hoje. Descobriu que, no hotel de sua seleção, estão hospedados nada menos de 80 jornalistas dinamarqueses. Espionagem em massa.
- Esporte de inverno tem lá suas conotações marotas: duas moças sobem a montanha, abraçadas com seus esquis. De manhã cedo, encontram no hall da pousada um lacônico aviso aos esquiadores: Allos, 20 centímetros, suave. Serre-Chevalier, 30 centímetros, mole. MegSve, 40 centímetros, duro. A mais afoita decide: Vamos pra MegSve...
- Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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