Na grande área (Armando Nogueira)
Na grande área (Armando Nogueira)
Futebol de ouvido
Passou a euforia da vitória? Pois, então, sinal amarelo porque o jogo Marrocos-Noruega (2 a 2), longe de provar que a Noruega não é essas coisas, provou, isso sim, que vindo da África, seja qual for a casta, a têmpera é a mesma: Camarões, Nigéria, África do Sul. Todos encarnam, nesse mundial, o futuro próximo do futebol.
Fala-se muito da correria dos marroquinos, como se eles não soubessem fazer correr, também, a própria bola. Fazem, sim, seja trocando passes curtos, de meia-distância, seja lançando passes longos como o que culminaria no primeiro gol, um primor de habilidade do atacante Hadji.
É voz corrente na crítica européia que o Brasil precisa ajustar melhor suas peças. A vitória de anteontem valeu mais pelos pontos ganhos do que pela performance em si. Jogar a bola todos sabem, mas é cada um por si. Coletivamente, a seleção sente falta de uma idéia clara sobre como tecer jogadas que façam a bola fluir até chegar à área do rival.
O jornal Gazzetta dello Sport destaca, na manchete de ontem, que Ronaldinho jogou inteiramente abandonado pelo resto do time. Tanto no primeiro quanto no segundo tempo. Culpa de quem? Tudo indica que esse pato vai ser pago pelo Giovanni, a quem caberia o papel de fornecer, a domicílio, as bolas bem acabadas pra Ronaldinho.
Os europeus cobram do Brasil um futebol de partituras. Deviam saber que, apesar da alta cotação em que é tido o técnico no Brasil, as coisas boas do jogo brasileiro sempre acontecem graças à centelha individual. É o milagre da inspiração. A chave do futebol brasileiro é o craque, que toca de ouvido. Por essa e por outras é que eu gostaria de ver Giovanni, de novo, tramando com Rivaldo. Ele não andou bem na estréia, mas é um jogador de mil talentos. Num relance é capaz de mudar a sorte da equipe.
Minha modesta receita contra Marrocos é que Giovanni deve entrar, de novo, e que Denílson não deve sair nunca mais. Para o bem do próprio futebol.
O tchau dos campeões
Esta Copa do Mundo é o tchau de uma geração. Estão com a palavra adeus tatuada na testa os jogadores Taffarel, Aldair, Dunga e Bebeto. Eles encarnam uma geração vitoriosa, que forjou títulos e acumulou fortuna. Brigam contra o tempo. Em vão. No primeiro jogo da seleção, apenas dois não decepcionaram: Taffarel e Dunga. Aldair está cada vez mais lento e, talvez, seja por isso que o Roberto Carlos não ousa apoiar o ataque. Bebeto parece ter perdido o viço e o fulgor do atacante peso-pena que fazia gol sem fazer espuma. Para o lugar do zagueiro, resta Gonçalves; para a vaga de Bebeto, Denílson é o mais cotado. Denílson é o solista que nos falta.
Pênalti em dó maior
A arbitragem do espanhol Aranda foi excelente. O Brasil dê graças a Deus que ele não tenha visto o pênalti de Dunga. Um lance que escapou a todo mundo, menos à lente da câmera. No Apito Final, Luciano do Valle perguntou aos membros da mesa se alguém percebera a mancada do capitão. Nada. E, no entanto, o teipe mostra que, na cobrança de uma falta, no finzinho do jogo, a barreira dentro da área, Dunga desvia a bola com a mão ostensivamente. A bola ainda resvala no braço e vai sair lá longe, impune. Pênalti, em dó maior.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
Na cola de Jairo dos Santos, Gilmar Rinaldi. O terceiro goleiro da seleção brasileira de 94 e o segundo espião do Brasil. Tudo que Zagallo quer saber sobre Marrocos tem sido passado por ele. Na semana passada deu entrevistas, detalhou seu trabalho. Agora terá conversas mais longas com o treinador, contando tudo o que viu.
Do comentarista Valdano, no El País, de Madri: Cada jogador brasileiro sabe jogar muito bem, mas com a bola nos pés. Coletivamente, porém, o Brasil da estréia ficou devendo muito ao bom futebol.
Se a Itália gosta de cismas, a Copa 98 lhe dá mais uma: começar com um empate tem regulado. Em 82, saiu com um empate, seguido de outro e de outro mais. Acabaria campeã do mundo. O de ontem, por acaso, foi um golpe cruel no bom futebol jogado pelo Chile. Brilhante equipe que ostenta, lá na frente, como dois tesouros, um Zamorano e um Marcelo Salas.
Pela declaração de Zagallo, dizendo que gostou do time mais no segundo tempo do que no primeiro, Giovanni pode ter sobrado de vez. Leonardo enche mais os olhos do treinador. Não os meus, nem os de Braguinha, nem os do Paulo Cleto, que apostam as nossas esperanças no craque do Barcelona.
Todo mundo esperava uma grande estréia de Ronaldinho, mas quem fez o nome, mesmo, foi o atacante Hadji, de Marrocos, com um golaço. Um galope soberbo, um corte de salão no beque norueguês e um chute cruzado de rara precisão. Aliás, é bom pôr as barbas de molho porque, como diz o samba de Noel, esse Marrocos, pelo visto, não resta a menor dúvida.
O repórter Henri Michel, do jornal Mondial, teve o cuidado de contar, um por um, os torcedores da Noruega no estádio de Montpellier: eram, exatamente, 36. Isso mesmo: três dúzias. Se a torcida for mesmo, como dizem, o 12º jogador, a Noruega jogou contra Marrocos com menos um.
Susana, a namorada de Ronaldinho, roía as unhas, no Stade de France. Queria o gol que o amado não lhe deu. Susana veio ver o jogo, desobedecendo ao conselho da sogra. Ou era superstição ou era temor de que a presença da loura, em Paris, pudesse abalar a concentração de Ronaldinho. Afinal, dona Sônia sabe o filho que tem...
A seleção alemã é muito velha? Mais de trinta, em média, ela tem. É coroa, sim. O artilheiro Klinsman, porém, diz com toda a convicção: Vamos superar todos os limites com a força da mente e a determinação de vencer.
O técnico da Jamaica, o brasileiro René Simões, garante que a Jamaica é favorita do jogo contra a Croácia, domingo próximo. O homem ensandeceu. A Croácia tem uma bola que a Jamaica nunca teve.
Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar
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