Na grande área (Armando Nogueira)
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 09 de junho de 1998
Armando Nogueira O jogo dos profetas 
PARIS - O Champs Elysées tem os mais largos calçadões do mundo. Em cada lado da avenida, passa um cortejo sem fim de torcedores em festa. Os brasileiros, às centenas, cantam e dançam samba; os escoceses, de saiote e pom-pom, tomam chope de tulipa gigante, na hora do café da manhã; os chilenos acenam bandeiras entoando o nome do Chile dividido em duas patrióticas interjeições: Chi! Chi! Chi! Le! Le! Le! O torcedor da Copa do Mundo é um ser quase sempre cordial. Nada tem daquele sentimento belicoso que atordoa o torcedor de clube. Há de ser por isso que a França decidiu abolir o alambrado nos estádios. Não espera baderna, nem sururu e muito menos invasão de campo.
Camisa amarela, short verde, vai cruzar comigo, na avenida, um grupo brasileiro. Não ouso mas tenho vontade de perguntar se algum deles sabe que, lá em Lesigny, Zagallo reza pelas virilhas de Aldair. Ninguém sequer ouviu falar que a Seleção fez um treino razoável, na antevéspera do jogo. O melhor desde que chegou à França. Pela primeira vez, a defesa se entendeu mais. Zagallo deixou de lado a idéia extravagante de obrigar Júnior Baiano a sair de sua área pra cobrir o vazio das avançadas de Cafu. A tarefa, agora, é de César Sampaio, até que enfim, mais defensivo. Melhor pra Giovanni que pode exercer mais à vontade seu talento de atacante.
Essa turma, como tantas outras que ainda hoje passarão por essa legendária avenida, talvez nem saiba que o técnico Craig Brown, da Escócia, considera sua seleção bem mais forte que dois anos atrás. E daí? Vai dar Brasil e não se fala mais no assunto. A galera não dá a menor bola pra profecia de um vidente escocês que anda avisando, pelos jornais de Glasgow, que a Escócia arranca um empate com o Brasil, hoje. Perder, não perde. É a palavra de alguém que nasceu na mesma pátria de um astrólogo chamado Nostradamus que, no século XVI, previu cem anos antes, a morte de Elisabeth Studart, o incêndio de Londres e até a consagração do uísque como a melhor bebida destilada do mundo.
Francamente, estou mais inclinado a acreditar no profeta Zagallo que alinha 13 razões pra garantir que o Brasil ganha a Copa do Mundo, mesmo empatando, hoje, com a Escócia.
Brasil-França na final
Apesar dos equívocos, das experiências infindáveis da Seleção, não há quem abale a convicção dominante na Europa de que o Brasil ganha a Copa do Mundo. Aqui, na França, fizeram uma enquete. Ouviram 250 pessoas, entre técnicos e jogadores da 1ª divisão. Todos predizem uma final entre Brasil e França, entrando a Alemanha como alternativa da França. O Brasil vence a Copa pra 58,8 por cento de votantes. A França, com 41,3 por cento. Lá embaixo, aparecem a Argentina (20 por cento), a Itália (17 por cento) e a Inglaterra (10 por cento). No fim da fila, estão Espanha, Nigéria, Iugoslávia e Croácia.
Pra variar, a bolsa de apostas de Londres dá Ronaldinho como o maior artilheiro da Copa, na cotação de quatro por um. Vêm, depois, pela ordem, Batistuta, cotado a sete por um, o alemão Bierhof e o inglês Shearer, a 11 por um, e o italiano Del Piero, a 12 por um. O dado original da bolsa de apostas é que o goleiro Chilavert, do Paraguai, entra no rol dos artilheiros, cotado a mil por um.
A equipe do século
Um time de jornalistas dos cinco continentes escolheu a seleção do século XX. O Brasil não poderia estar mais bem representado: tem Carlos Alberto, Nilton Santos, Garrincha e Pelé. A equipe dos sonhos está assim representada: Yachine, que defendeu o gol da União Soviética, nos anos 50 e 60. Depois, o alemão Franz Beckenbauer, campeão de 74, como jogador, e de 90, como técnico; Bobby Moore, campeão e capitão da Inglaterra, em 66; Carlos Alberto e Nilton Santos, nas laterais; Cruyff, Di Stefano e Platini, na meia-cancha e, na frente, Garrincha, Pelé e Maradona.
Ninguém pediu a minha opinião mas, com licença dos franceses, no lugar de Platini, ali, no reino da meia-cancha, eu preferia o indizível Didi, cujo passe tinha o mesmo ar esquivo e dissimulado do olhar de Capitu.
O tom da Copa do Mundo
O tom da Copa, em matéria de disciplina, será dado, hoje, no jogo Brasil-Escócia. Se o espanhol Garcia Aranda transigir com o primeiro carrinho por trás, só nos resta rezar pela sorte das canelas de Ronaldinho. A Copa do Mundo será disputada sob o signo da violência.
O espanhol Garcia Aranda já apitou jogo do Brasil duas vezes: a primeira, nos Jogos Olímpicos de Atlanta, Nigéria 4 a 3 contra o Brasil; a segunda, em Tóquio, no jogo Dortmund, 2 a 0 contra o Cruzeiro; nesse dia, ele deu quatro cartões amarelos e um vermelho.
Diz ele que está em condições de distinguir uma entrada desleal de uma entrada bem-intencionada.
De boas intenções o inferno do futebol está cheio.
À esquerda de Deus-padre
Leonardo Da Vinci, Picasso, Charles Chaplin, Alexandre, o Grande... Denilson...
Que diabos tem a ver o jogador Denilson com esse time de gênios?
Um traço comum: todos eles são canhotos.
O famoso neurologista americano James de Kay revela que os canhotos têm o surpreendente costume de pensar elipticamente. Quer dizer: pensar de través, de forma oblíqua.
- Colaboraram Paulo Cesar Vasconcellos e Andréa Escobar


