PARIS - Bola que rola. Como é mesmo, que estão, na hora da verdade os grandes candidatos à Copa do Mundo? Qual dos bichos-papões terá chegado mais perto do ponto ideal, física, técnica, tática e mentalmente?
Na história do mundial, não há um exemplo, sequer, de seleção que tenha entrado na competição pronta e acabada. O rigor da disputa mesma é que tempera e revela, de vez, uma grande equipe.
Três seleções, porém, já mostraram suas fichas, antes mesmo, de começar a inana. São elas: Argentina, Alemanha e Holanda. Nos recentes amistosos deu para sentir que as três souberam tirar o melhor partido da fase eliminatória. As batalhas de classificação, um ano antes da etapa final, hão de ter contribuído, de forma decisiva, pra modelar a equipe ideal.
Alemanha, Argentina e Holanda não descuidaram da preparação mesmo depois de classificados. Jogaram amistosos contra equipes de indiscutível valor. É assim que se forja o caráter de uma seleção que tenha nome a zelar. Infelizmente, essa virtude passou ao largo do Brasil. A equipe foi sempre usada, ora em jogadas promocionais da Nike, ora, em jogos na qual mal escondiam obscuras transações de comerciantes de placas e de direitos de televisão. Até mesmo em moeda eleitoral foi convertida a Seleção Brasileira. Uma afronta a um símbolo da paixão popular.
Concacaf, Andorra, torneio do deserto! Quanto tempo perdeu a seleção do Brasil, gastou-se à toa a prerrogativa de estar automaticamente qualificada pra reta final da Copa.
A seleção da Argentina penou muito no primeiro turno das eliminatórias. Depois, porém, veio se encontrando, a cada jogo. Na série de amistosos parece ter chegado à configuração tática concebida por Daniel Passarela. Resta saber como é que irá reagir emocionalmente quando estrear contra a doida correria dos japoneses. É traço interessante do mundial que haja, sempre, um asiático pra infernizar a vida de um peso-pesado. A Itália conhece bem essa história. Em 66, na Inglaterra, foi eliminada pela Coréia do Norte. Em 82, na Espanha, empatou, as duras penas, com a equipe de Camarões.
Da Alemanha pode-se dizer que vem animada do mesmo espírito de luta, da mesma força mental. No plano técnico, não é, nem nunca foi de soltar fogos de artifícios. Joga com sobriedade, mas é de uma eficiência inegável. A ficha da Alemanha é expressiva: já ganhou mundiais e é recordista de finais. Ao todo, cinco: 54, 74, 82, 86 e 90. Um cartão de visita mais do que respeitável.
A Holanda, duas vezes finalista (74 e 78) tem causado a a melhor impressão. Não joga o futebol de fantasia que consagrou a geração de Cruyff, em 74, mas tem tido momentos de fulguração. Prova-o recente amistoso de 5 a 0 contra a Nigéria, com seus campeões olímpicos de Atlanta.
A Itália é uma seleção que não muda a cara. Aparece no mundial, como sempre, estigmatizada por um estilo de jogo encardido, sem a mínima concessão aos floreios de técnica individual. É a herança que lhe deixou o implacável cotenaccio, versão italiana do ‘‘ferrolho’’suiço, expressão maior do anti-jogo, de retranca. A Itália vem fazendo pro mundial de futebol pão-duro de gols, seja pra que lado for. O futebol zero-a-zero, de um-a-um. Futebol minimalista.
O Brasil perdeu tempo, perdeu jogos que não tinha direito de perder, mas não perdeu o encanto. Qualquer pesquisa que se faz, de Pequim ao Titicaca, da Lapônia a Bangladesh, indica a seleção como favorita sem limites do mundial-98. E o argumento que embala o otimismo universal tem um nome: Ronaldinho. Como diz o francês Desailly: ‘‘Só pode sonhar com o título de campeão, sem estar delirando, é quem tem um Ronaldo. E o Brasil tem.’’
A velha lição de Tim
Os treinos secretos que faz a Seleção Brasileira, nas manhãs de Château de Grande Romaine, mostram uma preocupação de Zagallo: o desajuste dos zagueiros na cobertura e nas bolas pelo alto. Jogo aéreo sempre foi uma preocupação para qualquer treinador. O goleiro não sai, o zagueiro não pula. E como se o jogador brasileiro tivesse fobia de altura. Prazer só mesmo ao ver a bola rolando. Sempre foi assim.
Tinha razão o velho Tim. Ele compara o goleiro brasileiro com o argentino: bola no alto, o argentino grita pro beque: ‘‘deixa que é minha!’ O brasileiro grita: ‘‘vai que é tua!’.


Rápidas e rasteiras

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