Na grande área (Armando Nogueira)
NA GRANDE ÁREA
ARMANDO NOGUEIRA
De terço na mão
Paris - Gosto sempre de citar bons autores. Johann Cruyff é um deles. Jogador excepcional, técnico de grande respeito, hoje, brilhante pensador do futebol. Acabo de ouvir de Cruyff o que certamente não é novidade pra nenhum de nós, brasileiros: a Seleção do Brasil é, nessa Copa, a antítese do futebol total. Do futebol organizado, consistente.
Se alguém repensar as partidas da Seleção do Brasil na última temporada, concluirá que ela vai depender do talento individual de seus jogadores. É a palavra insuspeita de um apóstolo do futebol jogador, ao mesmo tempo, com ciência e arte. Essas palavras ditas por Johann Cruyff ganham foro de verdade irrefutável.
Cruyff sela a sorte dos campeões do mundo, prevendo que uma equipe com esse perfil, é capaz de oferecer, um dia, um espetáculo grandioso mas é capaz também de se afundar, no jogo seguinte, contra rivais inferiores no plano individual. Equipes que joguem com um mínimo de organização.
Alguém discordará de Johann Cruyff? Eu, por mim, assino embaixo, sem tirar, nem por uma vírgula. Meus temores estão justamente aí. Na impressão de geléia geral que me ficou dos seis ou sete jogadores da Seleção, desde a degringolada da Copa Ouro, da Concacaf. Vocês estão lembrados?
Citarei, também, outro autor: Dunga. Nunca pus minha mão no fogo pelo futebol do capitão brasileiro. Ele tem uma técnica limitada. Não poderia jamais ser eleito símbolo do estilo de jogo que consagrou o Brasil. Mas, sob o plano moral, da moral olímpica, ninguém pode negar que Dunga revelou-se um líder e que nesse papel tem sido irrepreensível. E, como nem só de craques vive o futebol, sirvo-me de seu valioso testemunho pra reforçar a impressão dominante de que o Brasil ainda não encontrou o bom caminho que leve ao sucesso. Diz Dunga, numa entrevista a LEquipe Magazine:
Há quem pense que essa equipe de 98 é superior à de 94. Que é mais técnica, mais dotada. Não acho, porém, que seja melhor, nem tecnicamente, nem emocionalmente. Essa equipe não tem constância e sofre de falta de humildade.
É o próprio Dunga que põe o dedo na ferida, a cinco dias da estréia.
Só resta sonhar com um sopro de genialidade de Ronaldinho ou de Rivaldo. E pronto. Porque craque, mesmo, tal como entendo, há poucos nessa equipe brasileira. Agora que Romário é carta fora do baralho. Agora que Edmundo vai ficando mais queimado. Agora que Giovanni parece barrado. Agora que hão há mais jeito de trazer o Muller. Agora que Denílson virou reserva. Agora, pouco sobra na Seleção em matéria de originalidade, de inspiração, de fantasia, de centelha.
Outro dia, aqui em Paris, fui reconhecido por uma brasileira à entrada da Notre-Dame. A senhora, com um sorriso nervoso, perguntou se dava pra torcer pelo Brasil.
Pelo que eu tenho visto, minha senhora - respondi - torcer vai ser pouco. É preciso rezar e rezar muito.
A madame se despediu e foi entrando na igreja, já de terço na mão.
Padre nosso que estais no céu...
Carrinho: Europa, 1 a 0
Quem pensou ver fora da Copa o carrinho dado pelas costas vai ficar no sonho. Na Europa, quase todos defendem a manutenção do golpe. O técnico Vogts, da Alemanha, que era um lateral estilo dobberman vai ao extremo de achar que abolir o carrinho é acabar com o futebol europeu. O da Itália, Maldini, embora o condene, diz que não é bom radicalizar porque há zagueiros que dão carrinho por trás, mas lealmente. Os britânicos, por sua vez, não só defendem, mas até aplaudem o carrinho, lá chamado tackle. Zagueiro que se preza tem que dar carrinho, diz um provérbio do futebol inglês.
Trata-se, na verdade, de um golpe grosseiro, perigoso e antiestético. Que o diga o holandês Van Basten, tirado do futebol prematuramente pelo maldito recurso. Não é aceitável um gesto que pode quebrar as pernas do adversário.
A tese de que deve ser julgada, em primeiro lugar, a intenção do jogador é pura falácia. No carrinho dado pelas costas, é quase impossível alcançar a bola, sem antes, causar estragos nas canelas de alguém.
A coisa acabou ficando como convém à Fifa. O candidato, antes tão veemente contra o carrinho, acaba de perceber que perde voto europeu se insistir em combater a jogada. Daí ter mudado o discurso, numa típica manobra eleitoral. Agora, fica por conta do árbitro. Um tremendo recuo da Fifa.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
Gente que sabe fazer contar antes do voto pingar na urna me assegura que Sepp Blatter já ganhou a eleição na Fifa. Leva uma frente de 15 votos sobre o candidato Johansson. - Fui ao vernissage da exposição de Gerchman, A Estética do Futebol, numa das mais conceituadas galerias de Paris, Galerie Jerome de Noirmont. Diante do quadro de Platini, uma dama francesa, tomada de súbita emoção, chamou Gerchman de le roi du mouvemente. - Arantxa Sanchez é a nova campeã de Roland Garros. É a terceira vez que essa espanholinha tinhosa empalma o torneio da França. Não me lembro de ter visto ninguém, nem homem, nem mulher, com tamanha capacidade de pôr a bola em jogo como Arantxa. Ela é veloz como uma faísca. Tem fôlego de sete gatas. Um fenômeno de resistência. Além de saber alternar ritmos, acelerando a bola no momento certo. O abraço entre a vencida (Seles) e a vencedora foi um instante de exaltação do esporte feminino. - Quero dizer um afetuoso muito obrigado a todos os leitores que têm se manifestado, simpaticamente sobre a home page Jornal do Armando Nogueira. Quem diria? Esse pobre marquês de Xapuri navegando nas águas da Internet. (Colaboram Paulo César Vasconcelos e Andréa Escobar)
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