A coroa
de Janeth
Espero não estar enganado, mas desconfio que a coroa de Paula, e Hortência, já esteja cingindo a cabeça privilegiada de Janeth. Tenho visto os jogos do Arcor/Santo André e sempre me empolgo com a performance da moça. Ainda agora, no jogo contra o Paraná, Janeth deslumbrou o ginásio. Não só pelos 35 pontos que marcou, mas, sobretudo, pela categoria com que regia os passos da equipe, na quadra.
Janeth soma intuição com reflexão. Tanto que, depois de inventar mil bordados na direção da cesta, ela ainda demonstra senso tático, intervindo, com apartes precisos, nas preleções da treinadora Laís Helena. Janeth assimila com rapidez a partitura dos próximos movimentos da equipe. Hortência e Paula já tinham me avisado: a Janeth é um monumento!
Antes do jogo com o Paraná, Fábio Sormani, comentarista do Sportv, contou o delicioso diálogo de um repórter com a jogadora Silvinha, da equipe do Paraná:
– Uma pergunta, Silvinha: quem é mesmo que vai marcar a Janeth?
– É a Cinthia, coitada!
Lembrei-me, então, do zagueiro Jadir, do Flamengo, parceiro de quarto do lateral Jordan. Em véspera de jogo contra o Botafogo, Jadir passava a noite em claro, consolando Jordan que não conseguia dormir, só pensando em Garrincha.
Pras calendas
E cá estamos nós, de novo, com a lenga-lenga dos calendários. Mas não tem jeito. Vejam o que ocorre no futebol brasileiro: os papões escalam times inferiores no campeonato regional deixando os guerreiros de fé pras paradas seja da Copa do Brasil, seja da Libertadores. Desse modo, o milionário campeonato paulista ganha foros de competição amistosa, com reflexos danosos na já de si dura vida dos times pequenos.
Se houvesse um calendário mais racional – eu diria, mesmo, mais humano – o padrão do futebol seria mais qualificado, os espetáculos mais empolgantes, com farta distribuição de alegria dentro e fora do campo.
Diz a FIFA que vai sair um calendário comum pro futebol profissional do mundo inteiro. Mas só pra dar uma idéia de como são os cartolas – e o mal é universal – o calendário unificado só deverá entrar em vigor lá pro ano dois mil e quatro.
Até, lá, meus amigos, estaremos todos consumidos de overdose de futebol. E a galinha dos ovos de ouro – essa talvez já esteja morta e devidamente cremada.
Personagem da semana
Fernanda Venturini é a personagem da semana. Pelas mãos dela, mais que nunca, a equipe do Rexona conquista o bicampeonato da Superliga nacional. Aplicou uma série inapelável de 3 a 0 no MRV-Minas. Fernanda não perde as mãos de fada. Os dedos, de seda pura, se alongam, quase triscando as malhas da rede. Levantar a bola, em Fernanda, mais que um gesto, é um cerimonial religioso. Um ato de doação, levando aos céus, como oferenda, a bola de mais uma cortada, de mais uma deixadinha e até mesmo de uma bola de segunda que ela converte em ponto da mais refinada astúcia.
Fernanda Venturini continua ser, como ninguém, a bem-aventurada do vôlei brasileiro.
Guga opaco
Guga, mal entrou, já saiu do torneio de Montecarlo. Cruzou com o mesmo Karol Kucera, da Davis. Ambos descansados. Mesmo vencendo o primeiro set, Guga jamais conseguiu ser ele mesmo. Serviu mal, adotou uma tática muito conservadora que nada tem a ver com seu estilo destemido. Caiu, assim, no conto do Kucera: bolinha pra lá, bolinha pra cá. Me lembrei dos velhos tempos do saibro em que vencia quem melhor transferia pro rival o ônus de errar. Era o tênis porcentagem. Chatíssimo!


RÁPIDAS E RASTEIRAS
- A natação brasileira não tem concorrente na América do Sul. Nadou em águas de rosas, em Mar del Plata: das 38 provas do Sul-americano, o Brasil venceu 29, alcançando 29 medalhas de ouro, 11 de prata e 11 de bronze. É a própria hegemonia.
- Duvido que Wanderley Luxemburgo já não esteja de olho no faro de gol que tem o atacante França, do São Paulo. Há um tipo de artilheiro que faz gol quando está de maré cheia. São os goleadores lotéricos. França, ao contrário, faz gol porque tem habilidade, é corajoso; domina, em fração de segundo, o tempo da bola e a angústia de espaço. É artilheiro de berço.
- Na festa, bela festa dos botafoguenses, sábado, Nilton Santos autografou uma revistinha de 1953, com ele na capa. A relíquia pertence ao jornalista Sérgio Augusto. Ao ver na revista uma foto em que aparece fazendo uma embaixada, de letra, Nilton confessou ao Sérgio, seu fã: ‘‘Hoje, se fizer uma dessa, eu caio’’. Nilton Santos tira de letra o ostracismo.
- O tiroteio entre médicos e fisioterapeutas, em torno do drama de Ronaldinho, deixa entreaberta a porta de uma séria reflexão sobre os malefícios que o dinheiro excessivo anda causando ao esporte de um modo geral. O pano de fundo da questão é mesmo a avidez mercantilista do futebol. Ronaldinho deve ter sido pressionado a reaparecer. A ansiedade pode ter começado pelo próprio jogador.
- Assusta-me, cada vez mais, o tom dos pronunciamentos do cartola Eurico Miranda. Quem sabe Eurico já perdeu a consciência de sua própria identidade? De tanto tentar ser outra pessoa, a criatura humana, um dia, acaba perdendo a noção de si próprio. Cai no grotesco; descamba no patético.

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