Guga,
monumental
O tênis de Guga me enfeitiça. A graça divina concedeu-lhe o dom de criar ângulos irreais, em golpes cruzados de esquerda. Nesse elemento, Guga superou Sampras, na final de Miami. Sampras, porém, dominou a partida no elemento voleio, no qual é primeiro e único, no circuito. E como o voleio bem-sucedido é sempre consequência de um bom saque, por aí foi que Sampras acabou escapando de uma derrota.
Se Sampras encanta pelo binômio saque-voleio, Guga empolga pelo rigor com que executa paralelas e cruzadas, lá do fundo da quadra. Ele usou essa arma para frustrar as subidas à rede com que Sampras costuma asfixiar seu adversário. Nesse quesito, Guga deu um recital, no Crandon Park, domingo.
De tal modo que, a essa altura, já se pode admitir que Guga decifrou o segredo do ‘‘tempo’’ de bola da quadra rápida. Domingo, o braço de Guga movia-se regido por um metrônomo. Sua resposta de serviço era musical: harmonia e ritmo.
Não sei de outra partida em que Guga tenha dado maior prova de força mental. O rival era nada menos que o melhor tenista contemporâneo. Recentemente, uma enquete feita pela revista ‘‘L’Equipe Magazine’’ elegeu Sampras o mais perfeito jogador da história do tênis. Foram consultados 50 ex-jogadores da mais alta estirpe do esporte. Pois tendo perdido o primeiro set de 6/1, Guga renasceu, com rara bravura, e lucidez, pra transformar, em epopéia de três tie-brakes, uma partida que despontara como um ameno passeio de Pete Sampras.
O tênis, como a maioria dos esportes, desconhece o empate como epílogo do jogo. Se assim não fosse, o troféu de Miami teria sido repartido pelos dois tenistas. E aí, então, com méritos pra Guga, pois é bom lembrar que terra e terreno lhe eram adversos. Sampras jogava no seu piso preferido; Guga, não. Sampras tinha o respaldo maciço da platéia, que o idolatra. E digo mais: houve duas ou três bolas altamente duvidosas que tanto os juízes de linha como o árbitro de cadeira não teriam cantado corretamente, segundo me fizeram crer as queixas do próprio Guga.
Um dia, a ATP há de concluir que é impossível a qualquer criatura julgar se foi dentro ou fora uma bola que anda como uma flecha a mais de 150 quilômetros por hora. E é o caso de perguntar: por que não oficializar a câmera virtual que a tevê americana já usa pra dizer se tal bola foi boa ou não? A tecnologia já dispensou até o juiz de rede. Um censor avisa quando a bola trisca a rede no golpe de serviço; e a maquininha é infalível.
De qualquer modo, a final de Miami passa à história da ATP como um edificante exemplo de perfeição de um esporte que é capaz de exaltar, sem ressalvas, tanto o vencedor como o vencido.
A paz alvinegra
Volta a reinar a paz no Botafogo. As estrelas se entendem. Dentro e fora do campo. O time, que vinha aos trancos e barrancos, recobrou o equilíbrio e respira. Fora de campo, deram-se as mãos o que de melhor em corações tem o clube: Carlos Augusto Montenegro, o presidente Palmeiro e a dupla Elena Landau-Bebeto. Não tinha porque um malentendido afastar do clube Elena e Bebeto. São duas almas alvinegras das quais o clube deve se orgulhar.
Elena e Bebeto estão começando uma cruzada de preservação do mito botafoguense. Merecem ajuda de todos. Desde logo, dou-lhes a certeza da minha solidariedade. Ninguém ignora que a estrela solitária sempe me foi tão grata.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Encontro, na Globosat, Ana Paula. Finíssima de gestos e de corpo também. Está feliz da vida no vôlei de praia. Vôlei de quadra, jura, nunca mais. ‘‘Serei campeã olímpica de areia, em 2004.’’ Que Deus te contemple, bela moça.
- De moça pra moças: Martina Hingis despachou a rival Davenport, sábado passado, com a serenidade de quem espairece, à beira do lago Leman. Dois a zero, sem que precisasse tirar da cartola um coelhinho sequer.
- Márcio Santos pagou um mico que, dificilmente, será igualado no século XXI: onde já se viu um jogador calejado apanhar a bola, dentro de sua área, na presunção de que o árbitro marcou uma falta? Não houve, nem mesmo, um apito clandestino que pudesse tê-lo traído. Devia estar pensando na morte da bezerra.
- A Itália conta com 182 mil bares, dos quais 18 mil oferecem, aos fregueses, como atração, competições esportivas, principalmente jogo de futebol. Cobram uma consumação mínima que corresponde ao preço do ingresso.
- A WTA, entidade que cuida do tênis feminino, adotou também supressão do intervalo de minuto e meio imediatamente depois do primeiro game. Uma providência tão óbvia e que, no entanto, levou um século pra ser admitida.
- É inadmissível que não haja um jeito de coibir o abuso de faltas no futebol. O time do Botafogo cometeu a cifra espantosa de 55 faltas contra o time do Madureira.
- A tevê por assinatura vai comendo pelas beiradas o doce melado do futebol. Na Argentina, por exemplo, quem não tiver cabo não vai ver a seleção nacional jogar as eliminatórias do mundial. As tevês abertas estão fora.
- Gordon Banks, na entrevista a Andréia Escobar, do Esporte Real, diz que a bola do futebol moderno é muito mais ingrata que a da antiga. Pela potência do chute, pelo material de que é feita, a bola faz um ziguezague simplesmente estonteante pro goleiro.
- Por falar de goleiro, Banks elege Chilavert como o melhor que já viu, nos últimos tempos. ‘‘Apesar, dos altos e baixos da cabeça dele.’’

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