Na Grande Área (Armando Nogueira)
Profissão insalubre
Esporte já foi sinônimo de saúde. Desde que virou negócio, esporte transformou-se em profissão insalubre. Guga é um caso exemplar de deformação do espírito esportivo. Depois de passar três meses jogando sem poder jogar, o tenista resolve depor a raquete, confessando que não aguenta mais de dor nas costas. Foram 90 dias de antiinflamatórios, de analgésicos, a mascarar-lhe a dor de um pinçamento de vértebra.
Ronaldinho baixou à enfermaria, de novo, vítima, também, de um sistema impiedoso. Uma vez que é regiamente pago pra atuar, a pessoa deixa de ser um atleta e passa a ser um verdadeiro outdoor. Não estou afirmando que Ronaldinho reapareceu antes do tempo. Digo, sim, que o rapaz levou anos e anos entrando em campo à base de antiinflamatórios. As paredes dos vestiários estão cansadas de saber que muito atleta entra em campo ou em quadra sob efeito de infiltrações. É cortisona, mesmo. E quem ignora que a cortisona injetável deixa o tecido do músculo ou do tendão fragilizado por cristais indissolúveis da droga?
O jogador Oscar é autor de uma frase que há de ficar como a epígrafe do esporte profissional: A dor faz parte do meu uniforme.
A revista Time, de Nova York, publica, esta semana, uma pesquisa do Gallup sobre a relação das pessoas com a dor. A investigação é americana mas não seria diferente se fosse feita no Brasil ou na Itália. Cerca de 90 por cento dos americanos, a partir dos 18 anos, sente dor pelo menos uma vez por mês: ou nas articulações, ou nos pés, ou nas costas e ninguém vai ao médico.
Todo mundo tenta driblar a dor, recorrendo a métodos caseiros. Só se procura o médico quando a coisa se torna intolerável. Ora, se a criatura anônima comporta-se desse modo, imaginemos o profissional que ganham fortunas, como é o caso do atleta de alto nível! Esse, refém da fama e da fortuna, esse, coitado, não pensa duas vezes, na hora de tomar uma bomba qualquer que lhe disfarce a dor.
Como diz a velha canção: É doloroso, mas infelizmente é a verdade.
O time que sobra
Alguém tem dúvida de que o Vasco da Gama é, longe, o melhor time do Rio? Nem um frade de pedra é capaz de contestar verdade tão absoluta. Daí, a estranheza que nos causa ver Eurico Miranda a fazer a cabeça do Caixa DÁgua pra aliviar a tabela de seu clube, em desfavor do Flamengo, Fluminense e do Botafogo. Foi o que se deu na Taça Guanabara, quando os três já começaram a corrida jogando clássicos nas primeiras rodadas, enquanto o time do Vasco lustrava as chuteiras pra pegar o primeiro dos grandes lá pra sexta rodada.
Uma equipe de alto nível que se permite jogar metade da Taça Guanabara sem Edmundo e sem Juninho e, ainda assim, passar pelos rivais como um buldôzer. É um caso singular de superioridade. Juninho e Edmundo, os dois, só eles dois, bastariam pra dar dimensão nacional e internacional a qualquer um dos outros três grandes do Rio. A rigor, o time do Vasco da Gama tem o campeonato fluminense como pré-temporada preparatória da equipe pro Campeonato Brasileiro.
Dupla arbitragem
O presidente Farah, da Federação Paulista, pegou um avião e se mandou pra Suíça. Foi mostrar aos papões da diretoria técnica da FIFA os primeiros resultados da dupla arbitragem no campeonato de São Paulo. São, segundo ele, dados animadores. Um exemplo: depois que adotou a fórmula de dois árbitros, a bola passou a correr por mais tempo. A média de bola em jogo, no Paulista deste ano, é de 65 minutos. Houve partida de até 70 minutos. No Paulista de 99, a média de bola corrida não passou de 60 minutos, em média.
Farah vai mostrar outras cifras não menos expressivas, tipo número de faltas por jogo. Em 99, a média andou acima de 52. Em 2000, caiu pra menos de 49 faltas em cada partida. Nesse item, deve estar contribuindo pra queda uma ponderação feita pelo próprio Farah, numa reunião com seus árbitros, quando lembrou que o juiz brasileiro é mais implacável que o europeu. Parece ser da cultura brasileira (juiz, jogador, dirigente, torcedor) não admitir que o futebol é um esporte de corpo-a-corpo. Qualquer entrechoque é interpretado como atitude faltosa.
Não deixa de ser interessante a tese da intolerância aos embates físicos. Mas o que parece fora de dúvida é que o jogador brasileiro, exatamente por não dominar a ciência do desarme, em vez de tirar a bola do adversário acaba tirando o adversário da bola.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Pra quem gosta de ver gol gol bonito o jogo Corinthians x Olimpia, pela Libertadores, teve o sabor efusivo de um bom champanhe. Foram nove gols, a maioria deles de rara beleza técnica. Pra variar, a tevê, pelo olho vesgo do comentarista, não consegue ver, num lance de gol, senão erros do defensor. Nunca o gol culmina uma ação coletiva ou individual do ataque.
- É tão constrangedor o espetáculo de cartolas a esbravejar contra a arbitragem, na boca do túnel. O campeonato carioca está contaminado de manifestações meio selvagens de pessoas que têm o dever da compostura. Estão descontentes com a organização do campeonato? Por que não se unem em um movimento pra moralizar a federação de futebol? Há quantos anos o doutor Caixa DÁgua tece e destece velhacarias no futebol carioca?
- Shelda e Adriana Behar venceram mais uma etapa do Circuito Brasileiro. Foi em Fortaleza, terra de Shelda. A propósito, em qual lugar do planeta essa dupla deixou escapar uma vitória? Que eu saiba, na Lapônia, talvez.
- Ainda a festa de mobilização alvinegra, sábado, no Rio: uma bela e jovem botafoguense, querendo provar seu amor pelo clube, alçou os cabelos (sedosos) e exibiu a estrela solitária tatuada no tépido leito da nuca. Quanto recato! E, no entanto, é por ali que tudo começa...





