Na Grande Área Armando Nogueira A solidão do juiz Vi a arbitragem dupla. Foi no jogo São Paulo x Palmeiras. Será que vai vingar? Na vida, há leis que pegam e leis que não pegam. No futebol, também. Há, até mesmo, as que sobrevivem, mas não convencem, como a lei do impedimento. A idéia de dois árbitros em campo, pelo menos à primeira vista, pode acabar dando certo. Tem total cabimento, no futebol vertiginoso de nossos dias. A verdade é que ninguém quer perder tempo com arbitragem, a não ser pra falar mal. Pra usá-la como bode expiatório de derrotas intragáveis. Esquecemo-nos todos de que, naquela figura abominada, também pulsa uma vida humana. Falível como qualquer outro filho de Deus. Quando o futebol ainda era um mero passatempo, o juiz já era execrado. Jamais lhe concedemos o direito cristão de errar. Sina patética. Ponto morto, a correr na diagonal do campo, qual um fantasma. Não haveria de ser por mero acaso que o vestíamos de preto. Errava, pelo campo, luto fechado, da cabeça aos pés. Hoje, a aparência é menos lúgubre mas nem por isso abrandou-se a carga de intolerância sobre a figura do árbitro. Pelo contrário. Agravou-se a impiedade, seja da multidão, seja da crítica, seja do cartola. O árbitro, hoje, é vítima da aceleração do jogo, que o obriga a suar, durante hora e meia, olhos escancarados à má-fé, à astúcia, à teatralidade dos jogadores; e tendo, ainda, a vigiá-lo o olhar implacável das câmeras de tevê, olhos cruéis que não piscam jamais. Convenhamos: é ou não é desumano obrigar o árbitro dez, quinze anos mais velho que a média das equipes, a seguir de perto, num trote infindo, músculos e pulmões cientificamente preparados pra correr, saltar, num corpo-a-corpo de gladiadores infatigáveis? Claro que é, sim. E convenhamos, mais uma vez: triste fado o de alguém a correr atrás de uma bola que jamais será dele. Ninguém ignora que a fadiga física e mental turva a visão, predispondo a pessoa a cometer erros de percepção que, em condições normais, talvez não cometesse. Daí, a minha simpatia pela inovação da arbitragem dupla. Não se trata de dividir soberanias. Trata-se, isso sim, de atenuar o fardo. São dois a correr por um. Quatro olhos vêem mais e melhor que apenas dois. Que o digam o basquete, o vôlei, o futebol americano. Enfim, a fórmula pode estar longe da perfeição, mas, pelo menos, vem aliviar o peso da responsabilidade que o árbitro carrega, como uma cruz de ferro, na atroz solidão do estádio. Trocando figurinhas A leitora Iva Cristina Muniz, de Belém do Pará, pergunta se li a entrevista do cineasta João Salles à revista Veja, dizendo que é botafoguense e que o torcedor alvinegro é diferente dos outros porque vai ao jogo mais pra ver seu time perder do que pra vê-lo vencer. Iva, botafoguense, quer saber de mim se concordo com o João, eu que, tal qual os dois, também bebo da mesma água. Olha, Iva, querida, o João Salles é um poeta, no sentido mais nobre da palavra. Na linguagem utópica dos poetas, as palavras têm insondáveis transcendências. Quase nunca vale o escrito, como no jogo-do-bicho. Em carta que me escreveu, há dois anos, João Salles fazia uma reflexão reveladora do sentimento botafoguense que o anima (e desanima): ‘‘Futebol, como na vida - diz ele - é uma monotonia que se arrasta, esperando por um momento de brilho que nos livre do tédio que pode vir ou não vir (quando se torce pelo Botafogo, geralmente não vem) mas que quando vem... meu Deus, como é bom!’’ E, mais adiante, ele fala do triunfo botafoguense, na final do Rio-São Paulo de 98: ‘‘Quando o Botafogo fez o gol, era todo o Mar Vermelho, partido em dois, na minha frente. Uma epifania. Nessas horas, é justo chorar.’’ Enfim, Iva, o João Salles sente o Botafogo tal qual o clube sempre foi: solitária estrela que sempre nos surpreende; um dia, é opaca, outro dia, é fulgurante. Por fora, claro-escuro, por dentro, resplendor. RÁPIDAS E RASTEIRAS - Grudado na tevê, torço por Guga. É semifinal do ATP de Bogotá. Ele vence o primeiro set, jogando bem. Perde o segundo, com altos e baixos. Perde o terceiro set, lutando. Pra mim, Guga foi derrotado pela altitude de Bogotá. O rival, Mariano Puerta, é um buldôzer, infatigável. Guga é um artista, mas ainda não é um atleta capaz de enfrentar com constância as exigências do tênis-força. - A seleção feminina de basquete começa a batalha de Sidney com um jogo amistoso contra Cuba. Paula, a magia do esporte, esteve presente, em Jundiaí, e foi homenageada. Paula merece uma reverência diária até o fim dos tempos. - O Fluminense empatou com o Cabo Frio, no Maracanã. É, hoje, um time desfigurado. Pela saudade de Arnaldo Santiago, é hora de torcer pela plena ressurreição do futebol tricolor. - A página médica da revista ‘‘Runner’s’’ é contra adolescente correr maratona (42 quilômetros). O corpo do jovem, ainda em formação, sofre um grande ‘‘stress’’. Exercício em excesso, nessa faixa de idade (15-20 anos) pode reduzir sensivelmente a massa óssea, predispondo a fraturas. - O jogador Petkovic fazia uma ronda pela Barra da Tijuca, à procura de uma casa. Gostou de uma que não estava à venda. O dono da casa, pra se livrar do cerco, pediu o dobro do valor da propriedade. Petkovic não pestanejou: pagou e pagou ‘‘cash’’. São os nababos da era futebol-milionário.

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