Scolari: pé atrás

Decide-se, hoje, um dos torneios mais sem graça da série Rio–São Paulo. Que, por sinal, quando começou, nos anos 50, era uma sensação. Animava a ardente rivalidade entre as duas maiores atrações do futebol brasileiro.
Até que, no ano passado, o torneio saiu-se muito bem. Este ano, porém, desandou, esvaziado pelo mundial de clubes que engoliu datas, saturou o mercado. Sem contar que a temporada de 99 já tinha atropelado as festas de fim de ano, tornando ainda mais tedioso o espetáculo do futebol.
De qualquer modo, o jogo de hoje é uma final. Portanto, merece respeito. Em campo, dois pesos pesados do futebol mundial que são Vasco da Gama e Palmeiras. Mal ou bem, trata-se de um clássico. Digo mal ou bem porque o time carioca, no momento, tem sido um vulcão. Duas estrelas da constelação vascaína andaram desgarradas. Edmundo e Felipe deram uma trégua que mais parece um gesto político ocasional arranjado pra dar paz ao time na hora da decisão. A crise perdura, subjacente. E nem é hora de levantar até onde vai a culpa do cartola Eurico Miranda. Que culpas não lhe faltam, todo mundo está cansado de saber. O fato é que o time do Vasco está alcançado por uma desavença interna que, infelizmente, acaba entrando em campo com a própria equipe.
A situação é mais risonha pro Palmeiras, sem dúvidas. Venceu a primeira, no Maracanã, e está vivendo um momento de paz e autoconfiança. Ainda assim, Scolari não baixa a guarda: ‘‘Não vamos esquecer – diz ele – que o Palmeiras venceu no Rio, mas só teve três chances de gol; já o Vasco da Gama teve o dobro’’.
Mesmo abalado, emocionalmente, o time do Vasco tem fichas pra bancar uma vitória, hoje. Afinal, dois gols, não mais do que dois gols de diferença, separam o Vasco do triunfo maior. E como estatisticamente é quase certo que Romário fará o dele, chega-se à conclusão de que Luis Felipe Scolari tem razão. Desdenhar de um rival como o Vasco, só louco.

A copa dos mares
Tenho muitos amigos, todos ligadíssimos em iatismo. Toda noite, às 10 horas, eles grudam na televisão pra ver, ao vivo, a América’s Cup. A motivação é dupla: todos gostam de velejar e todos torcem pelo sucesso do brasileiro Torben Grael que disputa a prova na tripulação do italiano Prada. Por sinal que a coisa está ficando preta. O veleiro neozelandês vai liderando a regata, de vento em popa.
Afinal, que regata é essa que tanto apaixona o mundo da vela? Quem me diz é o leitor Bá Assunção, em correio-eletrônico, que transcrevo, com a gratidão de quem acaba de receber uma boa aula de iatismo:
‘‘A America’s Cup é a Fórmula 1 do iatismo. É disputada a cada 4 anos (aproximadamente), e o país-sede é sempre o último ganhador da disputa. Trata-se da competição mais antiga do mundo, em qualquer esporte (são 154 anos de histórias fenomenais). Durante 140 anos, ela ficou nos Estados Unidos. Apenas na década de 80 ela saiu, foi recuperada, e novamente (em 95), foi ganha pelos neozelandeses (os simpáticos kiwis). O sistema de disputa é épico: iates de vários países se reúnem para disputar a Louis Vuitton Cup. São embates de dois a dois: primeiro em dois rounds de todos contra todos. Depois, os seis com melhor pontuação acumulada disputam as semifinais (em dois rounds de todos contra todos), e os dois melhores vão para as finais (em melhor de 9 regatas). O ganhador da final leva a LV Cup, e ganha o direito de desafiar os kiwis para a disputa da America’s Cup. O Prada, barco em que o Torben é tático, passou por tudo isso. Está desde outubro disputando regata a regata o lugar que conquistou, encarando os melhores iatistas do mundo (o que tinha de medalha de ouro olímpica e campeão mundial nos outros barcos não está no gibi).’’

Sabonete e leite em pó
Primeiro, foi o Leites Nestlé. Agora, é a vez do sabonete Rexona, que também já vai desembarcar do vôlei feminino. Logo mais, outras empresas, certamente também vão abandonar o barco. Seguem as regras implacáveis do capitalismo. É por essas e por outras que eu torço pra que dê certo o regime de parcerias entre clubes de futebol e o capital. São alianças que não descaracterizam a equipe. Sempre achei um engodo essa história de encher o ginásio com pequenas e frenéticas multidões vestindo camisa de empresa. Desde quando rótulo tem coração? Desde quando claque é torcida?
A combinação ideal, no esporte-negócio, é aquela em que a empresa entra com o dinheiro e o clube, com a alma. Cada um, mais adiante, que recolha o seu dividendo: o da empresa, em retorno publicitário; o do clube, em redobrada paixão.

RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Informação interessante traz a revista ‘‘British Journal of Sports Medicine’’, de Londres: ‘‘No século XVIII, o médico William Heberden registrou o caso de um homem que sofria de angina do peito e que praticamente se curou, rachando lenha, diariamente, no quintal de sua casa.’’ Um século mais tarde, outro médico, esse irlandês, de nome William Stokes, salvou um homem que sofria do coração, prescrevendo-lhe caminhadas diárias. E eu que pensava que tudo tinha começado, nos anos 70, do século XX, com as corridas do professor Cooper?
- Ronaldo me conta como foi que ele desistiu de cabecear – ele que no Cruzeiro, estava sempre fazendo um golzinho de cabeça. Foi assim: quando jogava na Holanda, Ronaldo viu, seguidamente, três atacantes de supercílio aberto, num simples bate-bola em que o treinador alçava a bola com as mãos pra ser disputada entre um atacante e um zagueiro. Desde então, Ronaldo eliminou a cabeçada do seu repertório.

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