Na Grande Área Armando Nogueira O losango de Luxemburgo Wanderley Luxemburgo troca a aritmética pela geometria. Nada de falar em 4-4-2 ou 3-5-2; enfim, chega de equações esdrúxulas. O futebol, do ponto de vista estritamente tático, tem mais a ver com a geometria. Assim, a distribuição da equipe, nas mãos de Luxemburgo, reproduz no campo a figura de um losango. Pra mim, francamente, o que sempre me importou, mesmo, é que o time tenha uma identidade. No caso particular da Seleção Brasileira, o que nos convém é que tenhamos uma equipe capaz de exprimir a vocação artística do nosso povo. Se no losango de Luxemburgo houver mais craques que brucutus, estaremos bem servidos. A seleção das eliminatórias, tal como sugerida pelos jornais, deverá ter menos talento do que seria de esperar. Sei que a barra será cruenta. O futebol sul-americano, em geral, ganhou muito em técnica, em tática, em força mental. Evoluiu em todos os quesitos do jogo, mas não perdeu a ferocidade. Joga-se, pelo continente, um futebol repassado de má fé. Jogar por aí, em campos mal gramados, irregulares, sujeito a pressões populares, seja sobre as equipes, seja sobre a arbitragem, não é uma aventura – é uma desventura. Talvez por isso Luxemburgo viva a exaltar o estilo rústico de Emerson. Emerson é um volante da estirpe bate-estaca que, segundo o próprio treinador da seleção, faz sucesso no futebol alemão. Logo, tem seu valor. Eis um juízo que eu não gostaria de subscrever. A escola alemã de futebol não se recomenda, a não ser pela falta de graça, pela rudeza prussiana. A Alemanha é, sem dúvida, o país mais romântico da Europa, mas, em matéria de futebol, é de um realismo irritante. Quem, no losango de Luxemburgo, joga o fino, mesmo? Ou seja, quem é capaz de mudar a face de uma partida com um gesto absolutamente genial, impressentido? Pra mim, no duro, no duro, só Rivaldo. Incluo, ainda, o jovem Ronaldinho Gaúcho, mas com reservas. Falta-lhe experiência. Que o garoto sabe jogar é inegável, mas Ronaldinho ainda tem muito que aprender até que se possa igualar a jogadores da envergadura de Rivaldo, Romário, de Ronaldo. De qualquer modo, é melhor ele a um bode cego que trata a bola a socos e pontapés. Reconheço o valor de Vampeta e de Zé Roberto mas, sinceramente, ambos criam muito pouco pro tanto que deles dependem as ações ofensivas da seleção. Por que não Alex no lugar de Zé Roberto? É um novato de mil centelhas. Enfim, sei muito bem que, no papel, as coisas são sempre bem mais fáceis. O próprio Luxemburgo acaba de viver uma situação expressiva: ele começou o Pré-Olímpico apostando todas as fichas numa escalação e, três jogos depois, já tinha trocado quatro titulares, refazendo a seleção de cabo a rabo. Em boa hora, ele tratou de adicionar uma boa dose de talento às linhas de seu losango. Por sinal, uma figura geométrica cheia de símbolos. Na China, o losango é o símbolo da vitória. A roda da fortuna Está por ser feito um estudo sobre a relação entre os esportistas e o dinheiro farto que rola nos campos, nas pistas, nos ginásios. Por ora, impõe-se a pergunta inquietante: eles são mercenários ou vítimas de uma sociedade movida a ouro em pó? A propósito, acabo de ler, numa revista francesa, a relação dos 10 atletas que mais ganham dinheiro no mundo. O ranking é o seguinte: 1º) Michael Schumacher (Fórmula 1): 50 milhões de dólares, por ano; 2º) Shaquille O’Neal (basquete-NBA): 48 milhões de dólares; 3º) Oscar De La Hoya (pugilismo): 46 milhões; 4º) Mike Tyson (pugilismo): 42 milhões; 5º) Tiger Woods (golfe): 40 milhões; 6º) Evander Hollyfield (pugilismo): 39 milhões; 7º) Sergei Fedorov (hóquei no gelo): 39 milhões; 8º) Lennox Lewis (pugilismo): 29 milhões; 9º) Dale Earnhardt (automobilismo): 26 milhões; 10º) Grant Hill (basquete-NBA): 23 milhões. O futebol, com toda a popularidade planetária que tem, não figura no rol dos ‘‘top ten’’. Seus astros pertencem a outra turma. Os cinco mais afortunados do futebol mundial são o francês Anelka (Real Madrid): 9 milhões e meio de dólares, por ano; 2º) Ronaldo (Inter de Milão): 9 milhões e 300 mil; 3º) Del Piero (Juventus, Torino): 8 milhões de dólares; 4º) o ítalo-australiano Vieri (Inter de Milão): 6 milhões de dólares; 5º) David Beckham (Manchester United): 5 milhões e 700 mil. Na conta, entram todas as parcelas: salários mensais e publicidade. O atleta mais valorizado é o lutador de boxe, com quatro entre os 10 mais bem pagos. Em segundo lugar, vem o basquete. Não te parece estranho, caro leitor, que o esporte mais cotado seja precisamente aquele cuja meta é a ruína física do semelhante? Trocando figurinhas - 1) Pergunta do leitor Álvaro do Espírito Santo, do Rio: ‘‘Armando, que tal era, jogando, o paraense Quarentinha, campeão de 57, pelo Botafogo?’’ Quarentinha, eu o vi jogar muitas e muitas vezes. Era um chutador temível, que fazia tremer os goleiros, fossem quem fossem. Tinha um semblante carregado de melancolia. Jamais celebrou um gol. Não se permitia, sequer, um sorriso. Manuel Bandeira tem um poema que começa assim: ‘‘Faço versos como quem chora’’. Parafraseando o poeta, Quarentinha diria: ‘‘Faço gols como quem chora.’’ - 2) ‘‘Armando, meu nome é Emerson, tenho 28 anos e gostaria de ser árbitro de futebol.’’ Emerson gostaria que eu lhe dissesse que providências deve tomar pra ser juiz de futebol. Resposta: de saída, dou-lhe três conselhos: faça um bom exame de sanidade mental, faça um testamento e adote uma mãe postiça...