Anjo e demônio
A cidade mineira de São João de Nepomuceno reverenciou, domingo, a memória de Heleno de Freitas, nascido há oitenta anos e morto no ano de 1969. Vi-o jogar, tantas vezes, fosse pelo Botafogo, fosse pela seleção nacional. Foi o meu primeiro ídolo no futebol, quando cheguei ao Rio, em 1944.
No dia em que morreu Heleno, escrevi um texto. No momento em que São João Nepomuceno revive o filho querido, permito-me transcrever parte da crônica que, então, publiquei no JB:
O futebol, fonte de minhas angústias e alegrias, revelou-me, ao longo dos anos, em Heleno de Freitas, a personalidade mais atormentada que conheci nos estádios deste mundo.
Viveu em conflito com o universo do futebol, amado como um Deus, renegado como o demônio: era o espantalho dos árbitros, o gênio da bola, o desafeto das torcidas. Era, também, o galã irresistível das mocinhas de Copacabana que lhe namoravam a elegância, no traje, a rebeldia, o anel de doutor e a celebridade.
Em campo, tinha acessos de fúria, cuspia fogo nos rivais, nos próprios colegas de equipe, no juiz. Só tinha afagos pra conquistar a bola, em cuja convivência realizava sua face de anjo. Era um artista, jogando: driblava com esmero, corria em gestos perfeitos. Enriquecia o futebol com melodias corporais de raro efeito. Poucos craques na história do futebol conseguiram ou conseguirão jogar tão bem de cabeça quanto ele. Costumava dar cabeçadas homéricas.
Heleno de Freitas realizava todas as virtudes de craque com um toque de beleza. Tinha, contudo, a psicose da perfeição: o erro do homem derrotava o artista – e Heleno perdia a cabeça, perdia a razão, perdia o jogo. Transtornado, acabava expulso.
Fora de campo, era um cavalheiro, apesar de ter sido sempre marcado por uma sombra de narcisismo que é, por sinal, um dos grandes abismos do ídolo.
Perturbado mentalmente, em 1953, Heleno de Freitas sumia dos estádios. A família, a muito custo, arrancou-o das arquibancadas do Botafogo, onde costumava passar as tardes, sozinho, dia de treino, com o rosto enfiado numa toalha de banho, cheirando éter. Chorava. Quem saberia dizer de quê: saudade? amor? desamor? inveja? abandono? Heleno acabou louco internado no Sanatório de Barbacena.
Dormia abraçado com a bola delirante do jogo de ontem, de hoje, de amanhã, de sempre. Quando acordava, bola murcha, Heleno tornava ao delírio.
Heleno de Freitas, o craque das mais belas expressões corporais que conheci nos estádios, morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no Cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia, para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Decisão do Comitê Olímpico Australiano: só duas delegações podem levar a Sidney equipes de seguranças armadas – os Estados Unidos e Israel. Os americanos vão até passar dos limites razoáveis, deixando, de sobreaviso, nas águas de Sidney, um porta-aviões armado até os dentes.
- Não deixa de ser um exagero americano, mas é bom não esquecer Munique-72. Então, um grupo de palestinos promoveu uma chacina no alojamento dos israelenses, com 15 mortes, entre atletas, terroristas e policiais alemães.
- Depois de um começo sombrio, o gaúcho Christian está acertando o pé no PSG, de Paris. Em 13 jogos, fez 11 gols pro ex-time de Raí.
- Por falar em Raí, tenho tentado, sem sorte, encontrar seu irmão Sócrates. Deixo mensagens e mais mensagens na caixa-postal do celular dele e nada, nada. Ou não recebeu os recados ou, então, resolveu esnobar este pobre marquês.
- A força da NBA no mundo globalizado: a temporada americana de basquete é vista em 205 países, narrada em nada menos de 42 idiomas.
- Dura lex, sed lex. Tradução: Bom de bola só Alex...
- Santo Deus! Como tem havido futebol na televisão! É superdose. Ando tão farto que, outro dia, peguei no sono, em pleno Palmeiras x Strongest. E olha que o Palmeiras estava jogando bem direitinho. É tédio, mesmo. Puro fastio.
- Passou o tempo e esqueci de fazer uma observação sobre a vitória do tênis brasileiro contra a equipe francesa. O nosso tênis não tem projeto, não tem dinheiro, não temos mais que três tenistas de renome. Ainda assim, despachamos a França, que gasta 30 milhões de dólares por ano só na formação de tenistas. Os franceses dispõem de 35 centros de treinamento, a começar por Roland Garros.
- Ainda o tênis. Depois da vitória brasileira, Guga festejou com os colegas, numa boate, todos vestidos com a camisa do Avaí que o próprio Guga distribuiu. O Banco do Brasil ficou chateado. Achou que Guga, contratado a peso de ouro, devia ter aparecido com a camisa do banco.
- Esta semana, depois do treino do Vasco da Gama, Romário, de folga, saiu de casa, meio sem programa. No caminho, parou numa loja de carros. Entrou, namorou um Audi-TT, preto, lindíssimo. Acomodou-se no banco do motorista. Gostou. No ato, assinou um cheque em reais, correspondente a 170 mil dólares. Um dos passatempos de Romário é colecionar carros de luxo.
- Wanderley Luxemburgo está confiando sua imagem pública a uma agência de marketing esportivo, a ALL-E. Quem vai cuidar dos contratos publicitários do treinador é Hortência, que é uma das diretoras da empresa, responsável ela, justamente, pelos interesses extra-campo de personalidades esportivas.

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