Na Grande Área (Armando Nogueira)
De Andorra à Tailândia
É coisa de louco! A CBF briga com o Real Madrid pelo Roberto Carlos, briga com o Barcelona pelo Rivaldo e, certamente, brigaria com grandes clubes brasileiros, se por aqui houvesse um pingo de mentalidade profissional. Ou haveria outra explicação pra mansidão com que o Vasco se priva de Juninho, precisamente na reta final do torneio Rio-São Paulo? E o Palmeiras, também semifinalista, que fica sem o goleiro Marcos e sem Roque Junior, ele também disputando um título que vale uma fortuna em dinheiro vivo?
Tudo por um jogo com a Tailândia, tremendo sparring que a seleção elegeu pra ajudá-la na preparação das eliminatórias do mundial de 2002. Tailândia! Bangcoc está que não se aguenta de tanta ansiedade. Vai terçar armas com os tetracampeões do mundo.
O amigo leitor está perplexo com a idéia da CBF? Ora, já vimos coisa pior. A seleção nacional já se permitiu jogar contra Andorra que, no esquisito ranking da FIFA, troca figurinhas com Antigua e Barbuda, com Moldova e Cingapura. A Tailândia, pelo menos, forma no lote do Gabão e de Burkina Faso. Terra de colossais seringueiras, o tailandês deve jogar futebol com bola de borracha natural. Eu, que sou do Acre, terra de boa seringa, também jogava minhas peladas com Cernambi, espécie de restolho que sobra do processo de beneficiamento do látex.
A Tailândia até mandou avisar à CBF que a seleção não precisa levar a bola da Nike. Bola eles têm; o que eles não têm, mesmo, é futebol.
Romário, raios de luz
E mais uma vez, Romário entra na minha galeria de notáveis do futebol. Ainda não terminou o Rio-São Paulo e eis que ele já se impõe como o artilheiro do torneio, com oito gols. É a confirmação de uma verdade que se eterniza na história da grande área: Romário faz gol com a naturalidade de quem respira.
Hoje, vivido, maduro, Romário apurou ainda mais sua vocação de artilheiro. É tal espontaneidade dele, dentro da área, que já não lhe ocorre perder tempo em requintar o chute. O gol de empate do Vasco, contra o Corinthians, foi marcado num chute de bico. O chute de bico, na estética do futebol, sôa como um palavrão. Contém a grosseira de um estupro.
Pois Romário não pensa duas vezes: se a bola a ele oferecida chegar fora do tempo, ele não tentará retocá-la. Chutará, mesmo, com o bico da chuteira. Fará o gol e celebrará, com o mesmo fervor com que celebra um gol de antologia, daqueles tantos que ele já fez em chutes que lhe saem do peito do pé como raios de luz.
O fio da navalha
Afinal, é boa e oportuna a medida provisória que regula a relação entre clube esportivo e empresas de marketing? Acho muito saudável que a questão esteja em debate no Congresso Nacional. O esporte é um vetor de promoção social. O poder público não poderia ficar indiferente a uma manifestação de vida que exprime a alma do povo.
Há aspectos de natureza ética que precisam ser criteriosamente avaliados. Até que ponto uma empresa, com o poder temerário do dinheiro, pode controlar dois clubes de futebol que participem de uma mesma competição? Não estaremos diante de um caso de conflito de interesses?
À primeira vista, parece inquietante saber que uma empresa multinacional gerencie o futebol de mais de um clube. Há, porém, caminhos que não atropelam a ética. Uma saída é a parceria do Vasco da Gama com o Bank of América. O banco cuida de vender a marca do clube e o clube cuida, soberanamente, de seu futebol.
O futebol brasileiro vive um momento delicado. Estará ele devidamente preparado pra entrar na idade adulta? Eis a questão.
Pensando alto
Na geometria do tênis, a distância mais curta entre dois pontos é um ace.





