O triunfo da torcida
Louvores mil à torcida de Londrina. Pequena e ardorosa. Ela, mais que ninguém, foi que levou a seleção pré-olímpica a desabrochar numa vitória irrepreensível contra a Colômbia, até então o maior furor do grupo brasileiro. Foi a multidão que, por amor demais, pegou no pé da seleção. Foi a alma unânime do povo que ficou três partidas, vaiando, lastimando, desancando o futebol subalterno da seleção.
Foi ela, a torcida, que pôs o dedo na ferida. A equipe estava mal escalada. A equipe não tinha imaginação. E tome vaia. E haja protesto. Acusaram a torcida de impaciência. De impertinência.
A torcida é destemperada – dizem os psicólogos do futebol. Torce e distorce a verdade, até morrer. Admito que sim, mas a verdade maior é que, no íntimo de cada berro do torcedor, haverá sempre um respeitável suspiro de verdade. Foi o que se deu, agora, em Londrina. Tanto que o técnico Wanderley Luxemburgo, a princípio tão inabalável, acabaria reformando a equipe. Mexeu no time de cabo a rabo. Entrou gente de talento: Athirson, Edu, Lucas, Marcos Paulo.
E, de repente, a seleção se transfigurou, ganhou categoria. A camisa canarinho resplandeceu, como é de sua memorável legenda. O Brasil começou a partida jogando um futebol empolgante, solar. A torcida de Londrina celebrava cada gesto individual e coletivo da seleção. Gritava de alegria e de orgulho. Embalava a seleção. Cantava e a todos encantava, na tarde festiva do estádio transbordante.
Era a multidão, comemorando uma impecável exibição da jovem equipe, fruto do destemperado e, sobretudo, do abençoado amor que a torcida tem pela seleção.
Hora do mistério
Wanderley Luxemburgo deu uma de esfinge. Saiu do estádio sem querer admitir que repetiria, hoje, contra a Argentina, a escalação vitoriosa do jogo com a Colômbia. Acho que o treinador faz bem. Um pouco de mistério tempera o futebol. Assim é na vida: teu segredo é teu sangue. Afinal, o rival de hoje é, por tradição, indigesto. Uma coisa é pegar a Colômbia, velha boêmia dos campos, virtualmente classificada e, portanto, mais blasé que nunca. Outra coisa é topar com a Argentina que tem uma história a contar.
A fórmula, hoje, talvez devesse ficar entre a cautela opaca dos primeiros jogos e a ousadia esfuziante da goleada. De uma coisa ninguém discorda: aquela formação Mozart-Fabiano-Baiano, nem pensar. Confiar a armação de uma equipe a um trio tão medíocre é não querer chegar a lugar nenhum.
A torcida de Londrina vem sendo coerente, refletindo, fielmente, o que se passa em campo. Portanto, por favor, não se afobe hoje. O jogo é de profunda tensão. O calor humano da multidão é fundamental pro equilíbrio mental da equipe.
Davis, um arrebatamento
Gosto muito da Copa Davis. O próximo fim-de-semana ficarei por conta de Guga, de Meligeni, de Oncins. Jamais direi que a Davis é melhor que os torneios da ATP. Digo, apenas, que é diferente. Tem mais calor humano. Predomina um sentimento ausente no circuito da ATP: a solidariedade, o espírito de equipe. Na Davis, a platéia converte-se em torcida. Com direito a bandeira, bumbo e charanga. Por três dias, o tenista deixa de ser um órfão na solidão da quadra.
Sem comprometer, em nada, o requinte técnico do jogo, a Davis dá ao tênis uma dimensão arrebatadora. Épica.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Bicho caprichoso é o futebol. O time do Fluminense pega o Palmeiras, mete-lhe 2 a 0, fazendo um primeiro tempo limpo e correto. Sobrevem o segundo tempo, em seis minutos o Palmeiras faz três gols. Uma avalanche de Eullers e Basílios. Seis a dois e fim de papo. O futebol, às vezes, endoida.
- Ainda os humores do futebol: em uma semana, Wanderley Luxemburgo viveu o bem e o mal, o céu e o inferno, a água e o fogo. Chego a pensar: a pressão inclemente, o fio da navalha. É preciso ser um tanto delirante pra ser técnico de futebol.
- Ninguém segura Agassi, agora no resplendor da forma técnica e física, e visivelmente embalado pelo olhar apaixonado de Steffi Graf.
- Leila, musa do vôlei, confiou sua imagem à empresa All-E, agência de marketing esportivo recém-criada pelo peso-pesado da publicidade Eduardo Fischer. Grande cortada da All-E.
- O Roma não está nada feliz com Fábio Júnior, mas não quer perdê-lo de todo. Quer emprestar o atacante ao Olympique de Marselha.
- A Europa, não é de hoje, leva do terceiro mundo, a preço de banana, a garotada ainda nas fraldas. América do Sul e África são o alvo dos clubes europeus. Agora, Sepp Blatter está prometendo um basta: a Fifa vai fixar uma idade mínima pra reprimir o arrastão europeu. Agora, é chegada a vez do truque do gato ao contrário...
- E, então, Louis Van Gaal? Rivaldo, eleito o melhor do mundo, fica no sereno, mesmo, em plena forma física, técnica e mental? Tudo faz crer que o Barcelona acabará ficando sem um dos dois.
- Chega-me um presente de luxo: um álbum de tênis, assinado pela ATP Tour. Fotos belíssimas e textos excelentes sobre os últimos dez anos do tênis profissional masculino. Agradeço a Eduardo Menga e Cristina Yoshizawa pela cortesia.
- Boas referências, de todos os lados, sobre a experiência de dois árbitros, nos jogos da primeira fase do Campeonato Paulista. A fórmula é atraente, mas espero ver pra crer.

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