O dedo de Deus
No último fim-de-semana, estive na Granja Comary. Fui gravar com Ronaldinho uma entrevista que aparece, já amanhã, no Esporte Real, do Sportv. Foi um papo do qual participaram, também, o fisioterapeuta Petrone e o jornalista Rodrigo Paiva, que cuida da imagem pública do craque.
A entrevista transcorreu sobre o atual momento do Ronaldinho: o atleta, o ídolo, o ser humano. São as três pessoas da santíssima trindade de um semideus do futebol.
Fica muito claro que Ronaldinho já está quase no ponto. Não sente mais dores nos dois joelhos e, mesmo o operado, o direito, já não o atormenta. O trabalho de Petrone, nesses dias, tem sido fortalecer a musculatura da coxa atrofiada pela inatividade de dois meses. Em março, Ronaldinho volta a treinar e, logo, logo, estará jogando novinho, em folha, esperamos todos.
Pela primeira vez, Ronaldinho admite, publicamente, que, na Holanda, quando foi operado do joelho, se tivesse tomado os cuidados de agora, não teria passado pelo que já passou, nos últimos anos. Depois da primeira cirurgia, o mesmo Petrone prescreveu-lhe um programa de recuperação muscular, coisa a que Ronaldinho, já no Barcelona, não deu a mínima bola.
O mea-culpa do atleta coincide com o mea-culpa do homem. Depois que virou ídolo, Ronaldinho cuidou pouco da própria imagem. Embora não reconheça, a verdade é que, em dado momento, o futebol foi relegado a segundo plano. Ele nega, relembrando que jamais faltou a um jogo ou a um treino do Inter por causa de badalações sociais ou de agendas comerciais. Na verdade, porém, a mente de Ronaldinho, no mínimo, andou dividida entre o campo, a bola, o futebol, enfim, e uma correria pra gravar comerciais de diversos patrocinadores.
Um gesto simbólico da nova mentalidade de Ronaldinho é que ele decidiu trocar a Ferrari de vertiginosas ostentações por um carro mais discreto.
Na entrevista, Ronaldinho e seus dois anjos-da-guarda fazem outras revelações sobre o decisivo momento em que o craque do Inter, recolhido a um paraíso terrestre, em Teresópolis, sob a proteção do Dedo de Deus, resolve passar a limpo uma jovem e prodigiosa carreira que parecia condenada a um ocaso sem volta.

Seculares jabutis
Gente lerda essa da International Board (FIFA)! Passa anos sem fazer nada pela melhora do futebol. Um dia, os distintos se reúnem, como agora, dia 19 de fevereiro. Suspense mundial! Vão dar um jeito na comédia da barreira. Vão arranjar um jeito de reprimir, mais duramente, a falta sistemática.
Minha produção entrou em contato com a própria FIFA, por telefone. Veio de lá um fax, participando que a única novidade, mesmo, é que a partir de 1º de julho deste ano troca-se o sobrepasso do goleiro pela reposição da bola, pelo dito goleiro, em seis segundos, no máximo. Uma coisa que tem o seu valor mas que não é novidade: os goleiros já estão cumprindo a resolução, há algum tempo. É certo que contribui pra aceleração do jogo. Ganha-se tempo, sem dúvida, mas é coisa já passada em julgado.
O nó da barreira, esse sim, é dramático. Pois a FIFA recuou e não vai aplicar o castigo merecido de avançar mais nove metros e 15 sempre que o infrator usar qualquer expediente pra retardar a cobrança da falta. A idéia ainda terá que passar um ano em experiências, na Inglaterra e no Mundial de Juniores, em 2001, na Argentina.
A outra medida, que seria encravar uma micro-câmera na baliza, só será adotada, inicialmente, nos campeonatos ingleses. A idéia, todos já sabem, é documentar, em imagens, se a bola realmente ultrapassou a linha do gol. O árbitro tomará conhecimento da realidade instantaneamente, por meio de um ponto eletrônico. Se a bola entrou, de fato, soa um apitinho eletrônico no ouvido do juiz.
Por fim, a inovação de dois árbitros, que deu certo no Brasil, foi criticada na Itália, onde se fez também uma série de testes. Por isso, a FIFA resolveu continuar testando. Só dois países poderão usar dois árbitros, já em 2000: os Estados Unidos e o Egito.
Esses são os homens da International Board. Tardos como seculares jabutis.

A praça do poeta
O poeta Paulo Mendes Campos amanhã vira praça. Para celebrar a memória do poeta haverá flores, haverá abraços, haverá uma placa com o seu sonoro nome recoberta por uma bandeira do Botafogo, sua paixão esportiva. A pracinha fica na esquina da rua Venâncio Flores com Dias Ferreira, no Rio. Paulinho, minha leitura de cabeceira, era ponta direita, de chute enviesado e possante. Será lembrado, na pracinha, por seu amigo e primeiro editor, o também poeta Thiago de Mello.

RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Escrevi a coluna, sexta-feira, antes, pois, do jogo Vasco x Palmeiras. Se fosse vidente, teria antecipado o desfecho da partida. De uma coisa, porém, tenho certeza, mesmo no escuro: o Palmeiras, que, hoje, é mais vibrante que brilhante, deve ter dado a última gota de suor pra não tomar gol. Nunca, até hoje, o Palmeiras tinha assumido as feições de seu treinador. O time deixou de ser academia e passou a ser a cara de Scolari.
- Um minuto de silêncio pela morte do maior jogador da história do futebol britânico: Sir Stanley Matthews, 85 anos, morto esta semana, em Tenerife, onde morava. Vi-o jogar. Era um ponta-direita, com extraordinário poder de drible. Foi o único ponta que, em certa tarde de Wembley, conseguiu abalar a majestade de Nilton Santos.