Na Grande Área (Armando Nogueira)
Edmundo contra o mundo
Pra tristeza do futebol, a carreira de Edmundo, toda ela, tem sido um tremendo sarapatel. Onde ele chega, de onde sai, está sempre aprontando uma quizumba. E o mais patético é que Edmundo proclama-se, sempre, a grande vítima da história. Passou pelo Palmeiras como um vendaval. Brigou com Wanderley Luxemburgo e o que sobrou sobrou mesmo foi pro técnico. A imprensa não tem feito outra coisa senão passar a mão na cabeça de Edmundo. Tenho que reconhecer o seguinte: a maioria dos jornalistas de opinião jamais aceitou os destemperos de Edmundo. Quem bota panos quentes nos destemperos dele é a garotada que faz a parte de reportagem e que, por inexperiência, acaba ficando amiga pessoal dos ídolos.
Ora, uma coisa é contemplar, extasiado, o que faz com uma bola o craque Edmundo; outra, muito diferente, é o que faz com sua vida pessoal e profissional o cidadão Edmundo. Em campo, é um atacante arrasador. Fora de campo, um desmiolado.
Acontece que, no dia seguinte de uma insanidade, dá o estalo e Edmundo inventa um drible magistral, faz um gol de antologia e pronto: passar a ser exaltado como um artista genial. E logo todos se esquecem dos destemperos que comete. Um espiroqueta completo.
Agora, na esteira de mais um gesto grave de indisciplina, Edmundo, mais uma vez, rompe relações com a imprensa, acusando-a de não gostar dele. Como craque ou como pessoa? é o caso de perguntar. Afinal, eu pertenço à minoria de jornalistas que sempre deplorou as atitudes que tanto tingem de cores tenebrosas a imagem pública de Edmundo.
Parece fora de dúvida que Edmundo é, hoje, uma vítima da alienação que o dinheiro e a fama provocam na criatura humana. Não por compaixão, mas por solidariedade cristã, a família, os amigos já deviam ter pensado numa cuidadosa terapia pra salvar de novas conturbações, a alma sempre atormentada de Edmundo.
Edmundo contra o mundo ou o mundo contra Edmundo? eis a questão que vem destroçando a vida desse rapaz.
A flecha loura
Doval era uma flecha loura, promovendo céus e infernos na ponta-direita. Veio da Argentina pra ser ídolo no Flamengo, nos anos 70. Acabou sendo o mais carioca dos argentinos importados pelo futebol brasileiro. Descoberto pelo Flamengo, Doval seria descoberto, também, pelo bairro Ipanema.
Reencontro-o, agora, nas páginas do livro Ela é Carioca, do também rubro-negro Ruy Castro. No livro, que vem a ser uma rica enciclopédia de Ipanema, Ruy nos dá um delicioso perfil de Doval: Narciso Doval, que nasceu em 1944 e morreu em 91. Transcrevo o perfil de um dos atacantes mais endiabrados do futebol sul-americano:
Quando se trata de futebol, brasileiros e argentinos, se pudessem, berber-se-iam mutuamente o sangue. Mas houve uma exceção: Doval, o craque argentino do San Lorenzo de Almagro que o Flamengo contratou em 1969 e se tornou um dos maiores ídolos da história do clube. Daquele ano até 1975, Doval marcou 95 gols pelo Flamengo, muitos decisivos, e deu o passe para centenas de outros. Foi campeão carioca em 1972 e 1974 e também o primeiro companheiro de Zico no ataque rubro-negro. Os torcedores o adoravam porque ele vestia de Flamengo sua alma argentina. Era um jogador de grande raça e técnica.
Assim que chegou, Doval entregou-se ao Flamengo, ao Rio e a Ipanema. Morava na rua Visconde de Pirajá e, quando não estava treinando na Gávea ou jogando no Maracanã, vivia na praia, na Montenegro, passando as garotas em revista. Também nesse capítulo era um matador: alto, louro e de olhos azuis, tipo surfista. Mas com fôlego de artilheiro.
Em 1976, Francisco Horta, presidente do Fluminense, promoveu um troca-troca de craques com o Flamengo e Doval foi parar no tricolor. A torcida rubro-negra sentiu-se roubada e com razão: Doval fora reforçar a máquina do Fluminense, que já contava com Rivelino, Paulo Cesar Caju, Edinho e outros cobras. O Fluminense foi o campeão carioca daquele ano e Doval, o artilheiro do Fluminense, do campeonato e autor do gol da vitória na final contra o Vasco. Em fins de 1977, o Fluminense vendeu-o ao futebol argentino e, em 1982, Doval encerrou sua carreira nos Estados Unidos.
Voltou para o Rio naturalizara-se cidadão brasileiro e seu território passou a ser o calçadão de Ipanema, sempre em companhia dos compositores Marcos e Paulo Sérgio Valle. As moças os chamavam de Trio Colírio. Em 1991, o Flamengo foi a Buenos Aires enfrentar o Estudiantes pela Supercopa. Doval, que estava na cidade, visitou seu ex-clube no hotel e falou de seu amor pelas cores vermelha e preta. O Flamengo venceu e Doval brindou à vitória com champanhe numa boate. Ao sair dela, teve um enfarte e morreu.
O atleta do novo tempo
Acabo de ler um texto um tanto profético do que será o atleta, ali, pelos anos 20 do século XXI. A previsão de cientistas é que, em 2020, haverá clones humanos, pelos campos e pelas pistas olímpicas. Surgirá uma vacina genética que fará crescer os músculos, sem as sequelas decorrentes dos esteróides anabolisantes de hoje. Há até quem prediga o aparecimento de chips eletrônicos no cérebro dos atletas. Assim, um garoto, interessado em natação, poderá aprender a nadar, em um segundo e num piscar de olhos. Um iniciado pela ciência será capaz de bater recordes como anda fazendo, Ian Thorpe.





