O Brasil no nirvana
O futebol acaba de dar mais uma contribuição à psicologia do esporte. Foi o jogo contra o Uruguai, em Londrina. Por questão de minutos, a seleção pré-olímpica escapou de uma impensável derrota que teria afetado, de certo modo, o brilho da arrancada dos três jogos contra a Colômbia, Argentina e Chile. Impensável, disse eu acima, mas não gostaria de repetir o adjetivo. Na realidade, uma derrota brasileira, naquelas circunstâncias, devia estar, bonitinha, nos cálculos pelo menos das pessoas que dão à mente a mesma importância que dão à força física e à habilidade técnica no esporte.
A seleção só esteve em campo fisicamente. Espiritualmente, àquela altura, os jogadores já estavam todos no bem-bom do nirvana, que é o lugar utópico em que já não arde a chama vital; tudo é só paz, é quietude. Na mente geral da equipe brasileira, o Pré-Olímpico terminara na partida contra o Chile. A rigor, até antes um pouco: na partida contra a Argentina.
O fenômeno é muito mais frequente do que pensam os descuidados do esporte. À consumação do triunfo segue-se, quase sempre, um estado de relaxamento mental. A alma do atleta como que suspira, aliviada. Cai no vazio.
Em Atlanta, no Jogos de 96, a seleção feminina de basquete viveu uma situação parecida com a dos brasileiros em Londrina. Na semifinal, a equipe conquistou uma vitória arrebatadora contra a poderosa seleção da Lituânia. Foi uma verdadeira consagração: a Paula chorava copiosamente, enrolada na bandeira brasileira. As moças chegaram a dar uma volta olímpica na quadra. Era o epílogo de uma bela aventura. Diante da cena, pressenti a derrota na final contra os Estados Unidos. Respirava-se, no ginásio, ar rarefeito do dever cumprido. Não deu outra: a seleção americana derrotou uma equipe desmobilizada, sem alma, sem aura.
No esporte individual não é diferente. Acho que já contei, aqui, o caso do atleta Michael Johnson, recordista olímpico e mundial dos 200 e dos 400 metros. O treinador de Johnson observou que, nos últimos dez metros da prova de 200, caía sensivelmente o rendimento do atleta. Chegou a uma conclusão: quando se sentia vencedor, Johnson negligenciava, inconscientemente. Perdia o elã que não é outra coisa senão a força da mente.
A partir do diagnóstico, o treinador decidiu meter na cabeça de seu atleta que a prova tinha 210 metros em vez de 200. Johnson passaria a treinar, a só parar de correr quando atingisse a nova marca. E foi assim que Johnson começou a alcançar as marcas fenomenais que o tornaram o herói absoluto dos 200 metros. Digo, dos 210 metros...
A alma embarcada
Passo do futebol e do basquete a um esporte que está empolgando muita gente: é a America’s Cup, sem dúvida a mais celebrada regata do mundo. É dela que participa, como tático, o brasileiro Torben Grael, tripulando o barco Prada, da Itália. O Prada vai enfrentar, agora, o campeão da prova, o barco da Nova Zelândia. Pois a observação que eu gostaria de fazer enquadra-se no tema abordado na nota de abertura: o papel da mente na performance do atleta.
Quem estará mais ligado na regata: a tripulação do Prada, que já vem na liça, há meses, ou a tripulação neozelandesa que, no papel de campeão, está há quatro anos sem competir com ninguém? No plano mental, sou levado a apostar no barco do Prada. Pelo embalo, pelo calor da competição. São especulações, bem sei. Mas parece inquestionável que o esporte de alta performance, mais que nunca, reclama um cuidado maior com a alma do atleta.
Aliás, nessa linha de conduta, o presidente do COB, Carlos Nuzman, vem dando um peso respeitável à preparação mental da equipe brasileira aos Jogos Olímpicos de Sidney.
Por falar no assunto cabeça, que cabecinha torta tem esse moço chamado Edmundo? Edmundo vale um seminário de psicologia.
sagração de dois nomes
Duas personalidades se destacaram no esporte dos últimos dias: Wanderley Luxemburgo e Fernando Meligeni. Luxemburgo foi o pulso forte que liderou, com lucidez e obstinação, o triunfo do futebol brasileiro, no Pré-Olímpico de Londrina. Depois de cometer claros equívocos, tanto na escalação quanto na concepção de jogo, o treinador da CBF deu volta por cima. Reformou a equipe, num gesto raro de quem dá a mão à palmatória. E foi assim que ele acabaria aclamado pela multidão de Londrina, multidão que o transfigurou a ponto de convertê-lo em santo e poeta.
O outro personagem, não menos respeitável, é Fernando Meligeni, canhotinho tinhoso do tênis brasileiro que deu o tom épico à conquista da Copa Davis contra a França, em Florianópolis. Meligeni tem sangue de herói.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Os australianos iam fazer um torneio de vôlei de praia, nas areias de Melbourne. Desistiram quando descobriram um punhado de seringas e agulhas enterradas por drogados. Acharam doze seringas e muito mais teriam encontrado se tivessem procurado.
- Novidade na medicina do esporte: comer camarão é de todo recomendável pros atletas. É rico em sódio, que ajuda no equilíbrio físico; é rico em fósforo, que é bom pro cérebro; é rico em cálcio, que estimula a contração muscular; e, pela quantidade de potássio que contém, protege contra câimbras.
- Recebo o livro ‘‘Futebol, Arte e Ofício’’, de Julio Cesar Leal. O conteúdo é valioso: fala de aspectos táticos do futebol, ataque-defesa, métodos de treinamentos e formação de técnicos.

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