Na Grande Área (Armando Nogueira)
Alex e a bola
Está assegurado o futuro do futebol brasileiro. Afirmo e assino embaixo porque vi duas partidas simplesmente soberbas da nova geração: uma, contra a Colômbia e outra, mais relevante ainda, contra a Argentina. Todo mundo sabe que uma goleada de 9 a 0 tem o seu valor. Nada, porém, se compara ao delírio que se encerra num triunfo como o do Brasil, 4 a 2, contra a Argentina.
Que bela noite pra uma equipe que principiara tão sem graça o torneio Pré-Olímpico de Londrina! Tem razão quem sempre diz que a essência do futebol é a imprevisibilidade. Não dava pra supor que a rapaziada pudesse surpreender um adversário de peso como a Argentina.
A exibição brasileira é dessas que levam a gente a repensar o velho preceito de que o futebol é um esporte de imperfeições. Pois, naquela noite de quarta-feira, tudo se deu de modo irretocável: o poder mental, a harmonia coletiva, as cintilações individuais, a afinação completa entre defesa e ataque.
Se o triunfo contra a Colômbia foi creditado à torcida, que forçara alterações essenciais na equipe, a performance contra a Argentina terá que levar em conta, em lugar primeiro, o destemor do técnico Wanderley Luxemburgo. Em vez de cautela e caldo de galinha, Luxemburgo mandou a equipe soltar os demônios em cima dos sempre temíveis argentinos.
O mínimo que eu poderia dizer dos zagueiros é que, na área brasileira, havia dois guerreiros infatigáveis. Álvaro e Fábio Bilica limparam a grande área com uma têmpera do mais puro heroísmo. Ao lado dos dois, um craque: como eu gosto de ver fluir pelo campo o canhoto Athirson, jovem senhor de um drible incisivo, progressivo e de rara categoria. Pra mim, o Marcos Paulo é o Emerson que eu gostaria de ver na seleção adulta do Brasil. Ele marca e desarma sem perder o prumo jamais. E uma vez com a bola dominada, tem clarividência pra eleger a melhor jogada de apoio. Se Fabiano não é tão bom de apoio quanto o parceiro, revelou-se um gladiador excepcional.
No rol das minhas melhores lembranças, destaca-se o talento desse jovem Edu, que ainda não saiu dos coeiros, e já faz, com a bola, artes de gente grande. Menino bom de bola. Que alterna ritmos com a naturalidade dos craques. É solidário no cerco ao rival, é extremamente agressivo quando acelera a cadência ofensiva. Gostei demais de Edu no jogo com a Argentina. Há momentos em que aflora no estilo de Edu uma centelha de craque. Que Deus o proteja.
Não devo me conter ao falar do poder de fogo de Lucas. Impor-se ali, nas vizinhanças da área, é uma virtude incomum. Aposto em Lucas, não só pela técnica individual mas também pelo apetite com que disputa uma bola de gol. E, pra felicidade dele, o moço está cercado por dois jogadores que são duas fulgurações. Falo de Ronaldinho Gaúcho e Alex. Ronaldinho como que tem um trato com a bola: ele procura estar sempre no lugar em que ela quer que ele esteja.
O outro, Alex, é diferente: a bola é que tenta estar sempre no lugar em que ele quer que ela esteja. Se ele se omite, é pro bem da bola e da equipe. Aliás, o verbo justo não é omitir-se, que Alex não se esconde jamais. Alex transfigura-se. Mimetiza-se. Está em campo e não está. É esquivo, fugidio, intermitente. Sempre houve figuras assim, no futebol. Ipojucan, no Vasco, era assim: de repente, todos o perdiam de vista, menos a bola. Didi também tinha muito de camaleão; ele sumia do jogo. Transmudava-se. Virava grama.
O público sentia falta dele, a equipe, não. Jogar sem a bola é exercitar a virtude do desprendimento. Alex joga sem a bola. Finge aceitar a marcação. Quando o sanguessuga menos espera, ele ressurge, chuteiras refulgentes como lâminas afiadas. O gol que fez contra a Argentina é um hino ao jogo, desses que merecem ser cantados, em uníssono, pelo coral da multidão.
Lógica furada
No jogo Botafogo, 2 x Flamengo, 2, o zagueiro Jorge Luís foi ultrapassado, na corrida, pelos atacantes Leandro e Reinaldo. Um verdadeiro recreio. Pernas cansadas, minha gente, já não resistem ao ímpeto dos mais moços. No intervalo, Jorge Luís foi trocado por um anônimo chamado Valdson. Um trator nordestino. Acabou-se a alegria do ataque rubro-negro. Pois bem, fica-se sabendo que o treinador Joel Santana decide manter no time Jorge Luís, com a lógica furada de que o veterano zagueiro tem um bom saldo. Já levantou a torcida, jogando o fino em dois campeonatos passados.
Ora, ora, meus amigos! Passado por passado, nenhum zagueiro chega aos pés de Nilton Santos e, nem por isso, alguém quererá vê-lo, agora, na zaga do Botafogo. Jorge Luís tem sido uma avenida de mão única pra qualquer atacante jovem.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O jornal argentino Clarin diz, em manchete: O Carnaval chegou mais cedo a Londrina. E, no texto, derrama-se em aplausos à jovem Seleção Brasileira. De Alex, o mínimo que diz o jornal de Buenos Aires é que se trata de um craque fabuloso que rege uma banda.
- Palavras do treinador da Argentina, Pekerman: É preciso tirar o chapéu pro circuito ofensivo do Brasil, notadamente, pelo talento de Alex e Ronaldinho Gaúcho.
- Manchete de La Nacion: Derrota sem discussão de uma equipe que está à deriva.
- A Europa, como sempre, de olhos arregalados sobre os jovens pré-olímpicos de todas as seleções. Ex-jogadores famosos, hoje, cuidadosos olheiros, não perdem um só jogo, em Londrina. São eles: o ex-artilheiro da seleção alemã, Rudd Voeller, José María Bakero, a serviço do Barcelona e Jean Tigana, ex-armador da seleção francesa.





