Carrapeta, zureta
Se, daqui a pouco, nada restar do Mundial de Clubes, o tempo que me perdoe, mas não esquecerei um momento sublime de Edmundo, no jogo Vasco x Manchester. Edmundo corre-mundo. Edmundo corre-campo. O semideus do futebol, que acaba de inventar um drible, um passe, uma finta. Três pérolas de um só repente. O lance, indizível, tem que ser visto porque, contando, ninguém acredita.
Mas eu conto. Foi precisamente assim: ele está em pé, na grande área, de costas pro gol. Atrás dele, vigilante, um beque dos ingleses. Vem chegando a bola e, mal chega, Edmundo já lhe aplica um efeito a favor, com o biquinho da chuteira. Como se estivesse dando corda num brinquedo de estimação. A bola sai-que-sai, girando como uma carrapeta: zureta, zureta. Edmundo corre por um lado, a bola, pelo outro. O zagueiro despenca no chão, estatelado. Os dois – bola e craque – se reencontram, logo adiante. Vem, então, o chute. Sobrevem o gol.
No Maracanã remoçado, nasce o drible mais sapeca que jamais se viu no futebol. O drible impensável. O drible da carrapeta, zureta, zureta.
Vasco e Corinthians
Só não vê quem não quer: o time do Corinthians está à beira de um ataque de exaustão. É o preço de uma temporada-99 simplesmente estúpida: 85 partidas em um ano. Pra dar uma idéia do que significa semelhante maratona, basta lembrar que, no mesmo período, um time europeu não passa de 50.
O time pulou a fogueira do Al-Nasser, segunda-feira, mas só Deus sabe como. Sem o estímulo da sua colossal torcida, talvez a equipe não tivesse conseguido chegar lá. Dias antes do Mundial, Oswaldo de Oliveira me confessava, num mano-a-mano, que, inteiro, inteiro, ele não dispunha nem de meio time. Alguns jogadores estavam e ainda estão às voltas com lesões mal curadas e outros, denotam claro esgotamento físico e mental.
Ao contrário, desde a primeira rodada do Mundial, deu pra observar que o Vasco vive um momento esplêndido, que o situa acima do grande rival paulista. Injetou sangue novo – e bom – numa equipe que, em si, já era notável. Fisicamente e mentalmente, percebe-se no Vasco um traço marcante que é o frescor atlético da equipe. Frescor de corpo e alma.
Escrevo esta nota antes do jogo Vasco x Necaxa. Em futebol, predizer um desfecho assim, às cegas, é o mesmo que querer cercar, em um quarto escuro, um gato que não existe. Ainda assim, lógica e intuição se unem pra me induzir a sonhar com uma final verde-amarela nesse primeiro Mundial de Clubes.
Nalbert, Gustavo e Max
Foi sofrido? Foi sofrido, sim, e bem mais que muito. Radamés Lattari sabia que a decisão com a Argentina poderia descompensar o coração da gente. Menos pelo que é o vôlei argentino e muito mais pelo que deixou de ser, momentaneamente, o vôlei brasileiro. Sem Nalbert, sem Max e sem Gustavo, a seleção perdeu nada menos que a melhor defesa-devolução do mundo (Nalbert), o melhor bloqueio do mundo (Gustavo) e a melhor jogada de velocidade, com variações do fundo da quadra do Brasil (Max). Quer dizer: meio time brasileiro não pôde jogar. Daí, o sufoco. Radamés acabou tendo que sobrecarregar Giba e Carlão, repartindo entre os dois a missão maior de Nalbert. Com isso, os dois perderam poder ofensivo.
Menos mal que sobrevivemos: a seleção e nós todos, o coração em pedaços. Graças ao saque inclemente de Joel, o infalível.
Dando bois aos nomes
Em recente coluna, cantei a lista dos dez maiores atletas do século XX. O texto, sucinto, não dava maiores informações sobre alguns atletas pouco conhecidos do grande público, notadamente dos mais jovens. É o caso de Paavo Nurmi, de Jesse Owens e Ed Merckx.
Vamos, então, dar bois aos nomes: Paavo Nurmi, corredor finlandês, batizado ‘‘Finn Voador’’, ganhou nove medalhas de ouro, em Jogos Olímpicos e campeonatos mundiais; Jesse Owens, herói dos 100 metros e do salto em distância, nos Jogos Olímpicos de 36, em Berlim; Ed Merckx venceu cinco vezes o Tour de France de ciclismo. Venceu, também, três campeonatos mundiais. É considerado o ciclista mais perfeito da história.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Depois de seis vitórias seguidas, a equipe feminina de vôlei do Flamengo perdeu uma: foi pro Pinheiros. Isabel, a mais-que-princesa do vôlei, hoje treinadora, só tem uma explicação: o peso das férias. Já, já, Virna e Leila acordarão pra novos triunfos.
- O Doda, do hipismo, esqueceu de mim. Ficou de me mandar um troféu e não mandou.
- Recebi críticas e aplausos pela entrevista que fiz com Eurico Miranda, do Vasco da Gama. A quem estranhou, achando que abri espaço a um desafeto meu, esclareço, simplesmente: sou jornalista e, como jornalista, não tenho amigos, nem inimigos no poder. Tenho apenas fontes. A produção do programa Esporte Real sentia falta de uma palavra oficial do Clube dos Treze sobre liga, sobre relações com a CBF, sobre a Lei Pelé. Na impossibilidade de ouvir o presidente Fábio Koff, do Clube dos Treze, decidimos ouvir outra voz credenciada da associação. Eurico Miranda nos deu uma entrevista esclarecedora.
- Garrincha ainda dribla? – me pergunta, dentro de mim, uma voz que não é minha. Claro que ainda dribla. Agora, porém, com pés de silêncio.

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